#27. Arraial do Amparo

Finalmente cheguei em Recife, mais uma capital brasileira desconhecida por mim até então. O cara que me deu carona desde Tamandaré ajudou a buscar informações sobre onde poderia pegar um ônibus até Olinda.

Alguns dias antes, a ideia inicial era ficar em Recife, mas recebi duas recomendações que me garantiram que estar em Olinda seria mais a minha cara, algo mais tranquilo e com boas opções de lazer, bem longe da babilônia que é a capital pernambucana. Resolvi confiar e não me arrependi.

Encontramos um ponto de ônibus, onde conheci o Seu Geraldo, um senhor que simpatizou comigo logo de cara, notou que eu estava viajando, ficava olhando para a minha mochila toda hora, já quis me passar todas as orientações possíveis sobre Recife desde aquele momento.

Quando o ônibus chegou, entramos. De repente, ele me falou que queria pagar a minha passagem. Não sei o que aconteceu comigo, mas eu não aceitei a gentileza daquele homem… vacilei feio!

Começando com boas energias

Só depois de passar pela catraca do ônibus que percebi a bobagem que tinha feito. Decepcionei aquele ser humano querendo me ajudar. Por alguns minutos fui muito duro comigo mesmo, depois de tanto tempo de estrada, me questionava: cadê o aprendizado? Cadê toda a questão de estar disposto a aceitar ajuda?

Eu, com toda a minha consciência pesada, tinha que compensar aquilo de alguma maneira, precisava retribuir a (tentativa de) gentileza daquele senhor que foi negada por mim. Vi que ele se sentou no fundo do ônibus, fui até lá e me sentei do seu lado.

Mentalizei uma boa conversa e ela veio. A viagem que levou uns 30 minutos, pareceu horas de tantos assuntos que conversamos. O Seu Geraldo tem uma história de vida muito legal. Depois, fez questão de anotar meu número de telefone para mandar um Whatsapp quando chegasse na sua casa.

Fiquei muito contente com o fim dessa situação, com todo o esforço que fiz para mudar um “erro” meu. Enfim, deu para começar a minha estadia em Olinda com boas energias.

Subindo as ladeiras

O ônibus parou em Olinda, eu desci, o Seu Geraldo ficou, seguiu viagem até a sua cidade que ficava um pouco mais a frente. Nos despedimos, ele me desejou boa sorte e eu segui meu caminho!

Mal desci do ônibus e já dei de cara com o centro histórico de Olinda, mesmo sem me atentar muito para os detalhes das ruas, casas e igrejas, eu já senti o quanto aquele lugar é especial. Meu foco, naquele momento, estava em encontrar o Mameluco Hostel, mais um hostel que também me foi recomendado.

Subi algumas ladeiras até chegar na famosa Rua do Amparo, o meu destino estava ali perto! Fiz o check-in e me acomodei. Posso dizer que me senti em casa todo o tempo que fiquei hospedado lá e na cidade em si, a Rebeca, dona do hostel, e os voluntários, Mel e Adrian, me trataram muito bem e me deixaram super à vontade.

Chegando em Olinda já fui direto para o Alto da Sé.

Uma semana em Olinda

O plano inicial era passar somente uns 4 dias em Olinda, mas acabei ficando uma semana. Um dos motivos para prolongar esse tempo foi a festa junina do Amparo, que iria ser no final de semana seguinte. A Rebeca me convenceu a ficar, eu não poderia perder mais uma comemoração de São João com a cara do Nordeste.

Andar por Olinda era muito gostoso. Geralmente eu ficava a manhã e a tarde toda caminhando de um lado para o outro na cidade, subindo e descendo pelas ruas, conhecendo as igrejas, museus, pontos turísticos (gostei muito dos 4 cantos de Olinda, da praça do Carmo e também do Alto da Sé) e de algumas exposições que tem por lá.

Andando pelas ruas de Olinda…
Essa é a Igreja do Carmo

Nada me decepcionou, deu até para conhecer a fachada da casa do Alceu Valença. Aliás, parece que toda vez que eu passava por ali, escutava inconscientemente as suas canções mais famosas: “na bruma leve das paixões que vêm de dentro. Tu vens chegando pra brincar no meu quintal”.

Casa de Alceu Valença.

Aliás, Olinda foi mais uma das cidades que me despertou a vontade de ficar por mais tempo, sempre quando recomendo a cidade para outros viajantes, costumo falar que o seu único defeito é que a praia não é própria para banho, de resto, tudo é muito bom.

A praia…

A vida noturna é bem do jeito que eu gosto, tranquila, mas com um clima bem boêmio! Todo dia tinha música ao vivo em algum lugar, mesmo que fosse alguém tocando um forrozinho na rua, algo bem raiz mesmo!

Nesse esquema de aproveitar a noite todos os dias, conheci algumas pessoas da cidade e também outros turistas. Tudo foi bem divertido e agradável! Minha parada inicial sempre era na Bodega do Véio, um dos bares mais tradicionais, lugar pequeno, cheio de coisas para vender (uma bodega mesmo!)

Eu sempre pedia uma cerveja no balcão, algo para petiscar, e já ia beber nas mesas da rua para observar o movimento. Já estava virando praticamente sócio do lugar.

Uma das fotos mais legais da viagem, um forrózin de rua!

Lembro que um dos últimos dias, quis ver o pôr do sol de um lugar diferente. Caminhei por uma rua que se afastava do centro histórico, ainda na parte alta da cidade. Encontrei uma laje, pedi autorização para subir e vi o sol se pondo em Recife. Lindo demais!

Pôr do sol na laje!

Eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem

Obviamente que não me limitei a conhecer somente Olinda, aproveitei para conhecer Recife também, em 2 dias. No primeiro, desci na praia de Boa Viagem, caminhei pela sua orla, vi as famosas plaquinhas de aviso sobre o perigo de encontrar tubarões.

Praia de Boa Viagem.
Andando pelo Recife Antigo.

Depois disso, tomei um ônibus para o Recife Antigo, lá conheci alguns dos principais pontos turísticos e históricos da cidade: começando pelo Marco Zero (ponto em que a capital pernambucana foi fundada), depois visitei o parque das esculturas do Francisco Brennand, conheci o Paço do Frevo e também o Museu do Cais do Sertão, que de longe foi o que eu mais gostei.

Um pouco mais do Recife Antigo.
Marco Zero de perto!

A arquitetura daquele pedaço da cidade é linda, em alguns momentos realmente parecia que estava vivendo em um Brasil de antigamente. Aproveitei e visitei um bar chamado “As galerias”, que também foi uma indicação de amigos que já estiveram pela cidade, para tomar o famoso leite maltado! Muito bom.

Mais um pouco do Recife Antigo.
Uma frase qualquer no Paço do Frevo.

Pela noite marquei de encontrar a Lara, amiga de uma amiga minha, a Marina, que já conheço de longa data (e que eu visitei depois em João Pessoa). Fomos na Bodega do Véio de Recife. Ela levou mais 2 amigos e a conversa rendeu até bem tarde!

Monumento principal do parque das esculturas.
Mais uma do Parque das Esculturas.
Museu Cais do Sertão.

No segundo dia que voltei para a capital pernambucana, o intuito era fazer algumas compras. Primeiro passei no Mercado São José, um mercadão famoso por lá, comprei uma sandália de couro, que estava de olho há um tempo, e outras coisinhas mais. E dá-lhe bolo de rolo também, um dos meus doces favoritos! Comprava sempre que possível.

O famoso bolo de rolo.

Aproveitei esse dia para caminhar e conhecer o centrão da cidade! Andar por Recife me trouxe uma sensação muito estranha, sem dúvida alguma foi o lugar que mais senti o impacto da crise financeira no Brasil. Vi muita gente na rua, alguns pedindo dinheiro para comer, outros se virando como pode, vendendo o que quer que seja para sustentar a família. Aquilo me impressionou bastante.

Finalizei esse dia em um shopping qualquer para comprar um tênis novo para fazer trilhas, a minha antiga bota tinha estourado na Chapada Diamantina e já estava na hora de repor esse item para os próximos destinos.

Arraial do Amparo

A semana passou voando, até que chegou o sábado e com ele o tão esperado Arraial do Amparo, a festa junina mais famosa da cidade, a concentração ficava pertinho do hostel.

Comecei a noite tomando uma cerveja na Bodega do Véio, só para variar, e segui observando a movimentação pela rua, até que aquilo cresceu tanto que teve até trio elétrico, com uma caminhada completa pelo centro histórico de Olinda.

Aquilo, para mim, foi como um carnaval fora de época. Fiquei tão empolgado com a festa, que me despertou uma vontade gigantesca de voltar na época do carnaval e curtir a festa do jeito que ela merece.

Junto comigo no hostel havia um casal de argentinos (nessa altura da viagem, encontrar argentinos pelo caminho já tinha virado rotina), fiz amizade com eles e insisti para que fossem na festa. Eles se divertiram demais, dava para ver a alegria estampada no rosto deles. Foi uma ótima noite! Semanas mais tarde, a estrada me presenteou com um reencontro em Jericoacoara, fazendo compras no mercado.

O trio elétrico movimentou a cidade toda, tocando forró a noite toda, todo mundo dançando, que alegria sentir o São João pulsando por ali!

Arraial do Amparo!

Na batida do Maracatu

Passar o domingo em Olinda também foi muito bom. Passei a tarde toda andando e vendo os ensaios e apresentações de Maracatu pela cidade. Confesso que não deu para ver muita coisa, mas deu para sentir como é incrível a batida do som. Lembrei do Olodum nas ruas de Salvador.

Aproveitei o movimento forte de turistas e passei um tempão na praça do Carmo e no Alto da Sé, aproveitando para ver as feirinhas e coisas diferentes que tinham por lá. Depois, finalizei o dia no Bar do Peneira, outro bem famoso e que fica nos 4 cantos de Olinda.

Naquele momento já sentia a despedida da cidade com um certo tom de tristeza, mas que logo foi trocado pela alegria de conhecer aquele importante polo cultural e de simplesmente ter a oportunidade de estar ali.

Ensaio de Maracatu!

Hoje eu quero sair só…

Segunda-feira pela tarde arrumei minhas coisas, peguei um ônibus até o centro de Recife. De lá entrei na estação de metrô para ir até a rodoviária, que fica bem afastada da cidade.

O metrô de Recife é uma das coisas mais doidas que eu já vi, cheio de ambulantes em cada vagão, fazendo fila, vendendo seus produtos, eles não param, vão e voltam… um atrás do outro. Eu já tinha decorado a sequência das falas (Olha a água, olha a água / Olha a pipoca…hmmm que delícia / Promoção de pulseirinhas…) e estava ficando com dor de cabeça.

Até que uma luz surgiu e entraram uns artistas de rua no vagão, que praticamente ofuscaram aquele som ensurdecedor e repetitivo, começaram tocando boas músicas, dentre elas uma que fazia muito sentido para mim naquele momento: “hoje eu quero sair só” do Lenine.

Simplesmente comecei a relaxar quando ouvi “Se você quer me seguir, não é seguro. Você não quer me trancar, num quarto escuro. Às vezes parece até, que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só.”

Finalmente cheguei na rodoviária, aproveitei para ouvir novamente a leitura de aura que tinha feito em Piracanga. Fiquei feliz com a minha evolução, mas ainda tinham alguns pontos a trabalhar também. Estava feliz por seguir viagem mais uma vez, a próxima parada já estava quase ali: João Pessoa.

Agora que  você chegou até aqui, o que acha de conhecer um pouco mais sobre Work Exchange, uma das possibilidades de viajar por aí 😉

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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