#34. Até logo Jeri!

Chegou a hora de me despedir de Jeri por aqui! Na vida real, essa despedida não foi fácil, mas necessária… Este será o último post para expressar toda a alegria e gratidão que tenho por esse lugar, foi um privilégio ter morado alguns meses no mais belo paraíso cearense.

Ao começar a rascunhar este post, naturalmente me lembrei de Caraíva, que também foi um lugar que me segurou por muito tempo. No último post de Caraíva puxei um pouco sobre a necessidade de “desmistificar o paraíso.”

Aqui, acho pertinente seguir na mesma linha, levantando um pouco sobre o outro lado de Jeri, coisas que vi ou que sabia de alguma fonte confiável para mim, que vão além do olhar turístico, muito por ter o privilégio de ter condições de ficar mais tempo do que o planejado.

Talvez nem todos que estão lendo esse post concordem ou então, tenham visões diferentes, mas a intenção é apenas expor a minha opinião, principalmente por ter morado o mínimo suficiente para entender que nem tudo são flores e em alguns pontos a realidade de alguns lugares é bem diferente do que vendem por aí.


O lado B de Jeri

Acho que nem preciso dizer que Jeri foi um lugar muito marcante para mim na viagem, não é atoa que estendi muito a minha estadia por lá. Por passar um tempo longo, acho que consegui ter um pouco mais de clareza sobre o seu “lado B.”

Já falei algumas vezes nos posts anteriores sobre toda a receptividade que senti por lá, principalmente com quem é forasteiro como eu e que tentam tocar a sua vida de algum modo. Estes logo recebem o “direito” de dizer que são moradores.

Lembro que muitas coisas funcionam bem para essa galera, como por exemplo, um desconto especial que muitos estabelecimentos oferecem (bares e restaurantes) e todo um senso de comunidade dessa galera que se encontra, se identifica e acaba se unindo.

Porém, eu sabia que nem tudo era mil maravilhas. Uma das questões que mais me incomodavam era o fato de Jijoca ser bem diferente de Jeri. Eu não tive muitas oportunidades de dar um passeio por lá e observar essa diferença de perto, mas era sabido que lá está longe de ser um paraíso como Jeri.

Para mim era um grande paradoxo dos centros urbanos, me vinha na mente sempre aqueles casos nas grandes cidades em que há um bairro nobre do lado de uma comunidade carente, por exemplo.

Aliás, grande parte dos trabalhadores de Jeri moram em Jijoca, por ser bem mais barato ou então, por serem nativos de lá, terem família e tudo mais. Obviamente que existia uma certa diferenciação dessa gente humilde e trabalhadora que só coloca os pés em Jeri para trabalhar e nada mais, muitos não conseguem aproveitar o paraíso que está ali do lado de sua casa para se divertir.

Sem querer generalizar, mas eu sabia de grandes hotéis e pousadas, que utilizam a necessidade dessa gente de ter que trabalhar para sustentar a sua família, para oferecer condições de trabalho não muito respeitosas.

É até estranho falar, mas eu tive a sorte de trabalhar em um hostel muito bom, com condições de trabalho muito melhor do que outros estabelecimentos que tinham funcionários contratados. Um grande amigo trabalhou em uma pousada e vira e mexe contava o tratamento dado pelos donos aos empregados, muitas vezes até pediam para revistar as suas coisas. Um absurdo.

Obviamente que isso não é uma regra, há também gente muito boa e honesta dando emprego de qualidade para as pessoas da região, mas os casos de exploração que chegavam ao meu conhecimento me entristecia muito. Realmente era difícil ouvir o relato de amigos e conhecidos que sabiam dessas coisas e não se revoltar.

As vezes me pegava pensando sobre isso. Como pode um lugar tão lindo e encantador ser abrigo para que essas coisas aconteçam?

Descansando em um dos últimos dias em Jeri…

Ficar ou ir embora?

Nesses 3 meses, os questionamentos vinham naturalmente, de diversas formas, muitas vezes sobre os próximos passos que eu deveria e queria prosseguir com a viagem, outras vezes me pegava pensando sobre mim mesmo.

Não me lembro se já falei sobre esse assunto, mas um dos maiores presentes que pude dar para mim mesmo nessa viagem foi tirar um tempo para mim mesmo e pensar na vida. Foi um bom descanso da rotina doida que tinha antes e sou grato todos os dias por isso.

Para mim, foi um processo muito importante. Estar disposto a me entregar para o novo ajudou muito! Foi muito bom para mergulhar nessas questões de vida. Muitos desses questionamentos eram libertadores, muito similar ao que tive na foz do Rio São Francisco, por exemplo.

Lembro que “aproveitar o presente” era algo que vinha a todo momento e era o que eu mais me cobrava. Talvez naquela época eu não conseguia enxergar muito bem se estava cumprindo essa missão, mas hoje vejo que cumpri demais! O bom é que aos poucos eu consegui criar essa consciência e a cada dia um peso saia das minhas costas!

Claro que nesse mundo de questionamentos, a decisão de ficar ou ir embora sempre aparecia. Morar em Jeri estava sendo muito bom, mas chegou a hora em que a estrada me chamava novamente, conhecer novos lugares era novamente uma vontade maior. Então, tive que optar pela decisão de partir em breve. Era hora de se preparar para mais uma despedida.


Pôr do sol na última semana em Jeri

Família e amigos

Creio que em cada post que escrevi sempre falava de algumas pessoas, do carinho e da amizade que adquiri por elas. Sem dúvida, durante a viagem, foi o lugar que mais fiz amigos e me senti vivendo em família. Além do pessoal do dia a dia do hostel, também tinha os moradores, a nossa “Familinha.”

Essa galera contribuiu demais para que os dias por lá terem sido memoráveis, com muito carinho, confiança e alegria. Eu não gosto muito de ficar criando lista de pessoas para agradecer, mas Jeri merece uma exceção (já peço desculpas se esqueci de alguém). Então, muito obrigado Mari, Felipe, Dudu, Manu, Eugênio, Pedro, Jean, Lore, Katia, André, Federico, Marinez, Nath, Andreas, Bruna, Chris, Cris, Ka, Guido, Natan, Gabs, Debora, Sabrina, Vanessa e todos os hóspedes que viraram amigos e que temos contato até hoje.

Além dessa galera, levo comigo todos os hóspedes do Vida Backpackers que viraram parceiros. Lembro também que nos últimos dias, tive mais contato com o grupo de argentinos que vivem ali há um tempo. Hoje, eu sinto uma conexão muito forte com a Argentina e muito se deve aos hermanos que conheci em Jeri!


A galera na despedida minha e do Dudu

Nascer do sol no morro do serrote

Depois de ter decidido a data da minha partida, a última semana chegou. Foram dias muito gostosos. Eu achei que talvez minha vontade seria de ir para todas as festas possíveis, mas me pegava com uma vontade maior de ficar recolhido ou só ficar de boa andando pelas ruas a noite.

Durante o dia, aproveitei para fazer algo que não fazia há tempos: me exercitar. Aproveitei que a Nath ia no hostel treinar aeróbico com Mari e Manu e fazia o treino com elas. Foi muito divertido!


Sol nascendo!

Além disso, escolhi um dia e fui com o Dudu e Marinez ver o nascer do sol no morro do serrote. Que cena linda! Me recordo que fiquei um tempo sentado ali observando as dunas, imaginando como ela poderiam ter “sido colocadas” ali. Por um momento, pensei em uma mão gigante colocando montes de areia…

Nessa semana aproveitei para fazer as últimas aulas de forró, despedir dos amigos e teve até festa de despedida no hostel (minha e do Dudu, que também partiria no mesmo dia que eu). Foi divertidíssima, comemos, bebemos, tiramos fotos e depois finalizamos com um forró super animado no Espaço Serramar.

Até breve Jeri!

No meu último dia de trabalho, que foi depois da festa de despedida, estava de pé para fazer o café da manhã. Lembro que cheguei na cozinha e a Mari estava pronta para assumir o turno da manhã, caso eu não levantasse da cama.

Lembro que eu brinquei com ela, falando que “ela não botou fé que eu levantaria naquele dia” e ganhei um baita presente, um feedback de que eu merecia um troféu por nunca ter deixado ela na mão.

Naquele dia, aproveitei e fiz minha última refeição no “Do Bem”, fui para a praia, me despedir do mar, curti o último pôr do sol com o Dudu e o Andreas e a noite sai para jantar com os amigos… foi um dia tranquilo!

No outro dia de manhã, acordei e me deparei com outra surpresa! A Mari e a Manu tinham feito um bolo de cenoura para o café da manhã… Eu sempre pedia esse bolo! Fiquei contente que elas tinham lembrado de mim e muito grato pelo carinho.


Até breve Jeri 🙂

Depois de tomar café, eu e Dudu ficamos esperando os nossos transportes chegarem. Até que a D20 que levaria o Dudu até Jijoca, para depois ir para Fortaleza chegou e ele se despediu de nós. Um tempinho depois chegou o meu transporte… que difícil foi despedir da Mari, Manu e Eugênio. Meus olhos se encheram de lágrima, mas escolhi apenas sorrir e agradecer!

Já em cima da caminhonete, ao lado da minha mala, fiquei aproveitando o caminho das dunas, atravessei de volta o portal que me levou até Jeri e senti uma energia muito forte que me trouxe um foco para o meu próximo destino: Barra Grande, só que dessa vez, no Piauí! Só conseguia pensar em uma frase: “Até breve Jeri!”

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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