#30. Atravessando o portal [2]

Assim como Caraíva, Jericoacoara foi um lugar incrível que apareceu no meu caminho. Na verdade, eu mentalizei muito forte que esse destino chegasse algum dia. Tudo começou quando uma amiga me apresentou essa possibilidade, logo após eu contar que decidi largar o meu antigo trabalho para sair viajando pelo Brasil.

Eu costumo resumir esses 3 meses de viagem (e de vida) em uma única palavra: plenitude. Nesse tempo, eu vivi dias excelentes, estava realmente pleno, sem dúvida foi o grande clímax dessa jornada. Por isso, é mais um desafio conseguir descrever tudo isso. Vamos lá, vou tentar resumir tudo isso em alguns posts, começando pela chegada no paraíso.

De Pipa fui para Natal e depois Fortaleza, duas capitais que conheci só a rodoviária praticamente. Até queria conhecer São Miguel do Gostoso e Canoa Quebrada, mas Jeri me chamava. Algo me dizia que os próximos dias seriam incríveis, mesmo pulando esses destinos.

Jijoca de Jericoacoara

Para não ter erro, resolvi comprar o trajeto de Fortaleza até Jeri direto na viação de ônibus, a Fretcar. Ele é feito em duas etapas, primeiramente um ônibus executivo faz o caminho da capital cearense até Jijoca, a cidade vizinha de Jeri.

A segunda parte é feita por um transporte local, com as caminhonetes 4×4, as famosas D20. Com elas, é possível atravessar todo o trajeto das dunas, passando pela entrada do Parque Nacional para chegar na charmosa vila de Jericoacoara.

Aliás, Jeri é mais um Parque Nacional do nosso Brasilzão, é administrado pelo ICMBio. Hoje, sinto orgulho em dizer que tive o privilégio de morar em um desses parques. Que sortudo eu sou!  Apesar de toda a beleza de Jericoacoara, a realidade em Jijoca é bem diferente.

É uma cidade pequena como qualquer outra, urbana, com vários sinais de precariedade, com muitas pessoas humildes e gente trabalhadora! Muitos cidadãos, que moram lá, trabalham em Jeri e fazem esse trajeto das dunas todo santo dia. Apesar de toda a beleza do caminho, creio que deve ser cansativo para eles. Mas é o ganho pão que está em jogo, né?!

Na rodoviária de Fortaleza, às 6 horas da manhã eu estava esperando na plataforma. Quando encostou um ônibus com o seguinte escrito no letreiro: Jijoca de Jericoacoara. Sem dúvida alguma, esse foi um dos melhores ônibus que peguei na vida: o ar-condicionado estava bom, os assentos estavam muito bem cuidados, o wifi funcionou direitinho e a limpeza era impecável.

O perfil das pessoas que entravam no ônibus, principalmente as que pegaram a condução depois da rodoviária, na porta de um hotel, era algo até que previsível: turistas de todas as partes do Brasil e do mundo, com um poder aquisitivo minimamente alto.

Alguns até estavam carregando seus equipamentos para praticar Kite e Wind Surf, esportes não muito baratos. Por um momento, eu me senti um intruso ali, com o meu perfil de viajante mochileiro.

Rota das emoções

Para quem não sabe, Jeri é uma das pontas da tão famosa Rotas das Emoções, que foi o nome dado para o trajeto que passa por 3 estados brasileiros: Ceará, Piauí e Maranhão. Dentre os destinos mais conhecidos nessa rota estão Jericoacoara, o Delta do Parnaíba e os Lençóis Maranhenses, mas há também muitos outros destinos “menores.”

Desde que coloquei os pés em Jeri, até chegar em Atins, nos Lençóis Maranhenses, os esportes de vento não saíram da minha vista, principalmente o Kite Surf. Vi muita gente praticando, muito gringo chegando somente para ter contato com a intensidade desse vento que é realmente algo diferente.

Fiquei sabendo, alguns meses depois, que o nome dessa rota antes era “Rota dos Ventos”, mas parece que o nome não vendeu muito para o turismo e daí resolveram trocar para Rota das Emoções. Achei esse fato algo irônico e interessante ao mesmo tempo.

Atravessando o portal [2]

Voltando para o trajeto entre Fortaleza e Jeri, depois de viajar por toda a manhã, cheguei em Jijoca. O ônibus parou em um posto, já era mais ou menos umas 13 horas. Lá eu estava esperando que o caminho até Jeri fosse com as tão famosas jardineiras, mas não foi.

Dias mais tarde descobri que elas praticamente não existiam mais. O trajeto foi de 4×4 mesmo. Fiz questão de ir na parte de trás da caminhonete, eu queria muito ver o caminho bem de perto. A aventura começa com uma estrada de terra normal, depois, do nada, entra no meio das dunas e a cada quilômetro percorrido surgia uma nova duna ou uma nova lagoa. A sensação era de flutuar por essa dunas. Foi surreal.

 

Início do caminho até o Parque Nacional!

Me lembrei muito de Caraíva, em que atravessei um portal para chegar de barquinho. Dessa vez, essa travessia veio de forma diferente: surgiu em forma de dunas de areia, algo que eu nunca tinha visto na vida. Naquele momento eu não sabia, mas aquele lugar seria minha casa pelos próximos 3 meses.

Lembro de um dos meus últimos dias em que estava na vila, subi até o morro do serrote para ver o sol nascer. Naquela manhã, eu observava todo esse caminho pelo alto e via toda aquela imensidão de areia.

Atravessando as dunas e as lagoas!

Parecia que uma mão gigante tinha colocado alguns punhados de areia, fiquei imaginando o ser supremo, uma força divina, colocando monte por monte ali, de forma bem cuidadosa. Essa imagem na minha cabeça é linda! Lembro dela até hoje. Sem dúvida alguma, da chegada até o fim dos dias que passei por lá, muitas dessas dunas estão na minha memória.

Mais dunas e lagoas…
A caminho de Jeri…

Você desce aqui!

Finalmente cheguei em Jeri, um lugar que tinha colocado como uma das metas iniciais de viagem. Lembro que fazia pouco tempo que sabia da sua existência, como falei no início, fui apresentado por uma amiga que trabalhava comigo em Floripa, a Jéssica.

Ela me incentivou a pesquisar sobre uma tal Vila de Jericoacoara, desde o dia que li referências sobre esse paraíso em terras brasileiras, me apaixonei e coloquei na minha cabeça que precisava chegar lá.

A sensação de realização era muito grande, mal eu sabia que teria 3 meses intensos e felizes pela frente. Quando a D20 entrou na vila, comecei a olhar as ruas de areia com curiosidade, as pousadas, a tranquilidade.

Trajeto final das dunas de Jeri…

De repente comecei a viajar com a mente e me imaginar por ali, até que o carro parou em frente de um depósito. O motorista me “trouxe de volta para terra”, dizendo: você desce aqui! Olhei em cima do depósito e vi a placa que estava escrito Vida Backpacker Hostel: a minha casa pelos próximos meses…

Fique ligado nos próximos posts que virão sobre Jeri, é só acompanhar o Facebook do blog 🙂

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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