#8. Atravessando o portal

Sinceramente no momento em que começo a escrever esse post não sei nem por onde começar a falar o quanto Caraíva foi importante para mim!

Aliás, como relatar 1 mês e meio de uma experiência incrível, a qual foi recheado de boas vivências, tranquilidade, além de muitas descobertas, inclusive sobre a cultura de um local considerado paradisíaco? Talvez eu leve alguns posts para conseguir fazer isso sem deixar escapar nem um detalhe. Vamos tentar!

Para quem não conhece, Caraíva é uma comunidade litorânea e ribeirinha situada em Porto Seguro, na costa do descobrimento, no extremo sul do estado da Bahia, com uma população fixa de mais ou menos 1000 habitantes (Isso, segundo o Wikipedia :P).

Segundo a minha experiência, ela nada mais é do que um vilarejo de Porto Seguro, o qual considero um dos paraísos, ainda “escondidos”, desse país.

Só sei que esse lugar apareceu como um grande presente na minha vida, logo de um dia para o outro, antes mesmo de eu colocar o pé na estrada!

Alguém aí quer comprar uma rifa?

Era janeiro (ou fevereiro) desse ano, estava em casa, talvez trabalhando em algum preparativo para a minha viagem, ou talvez em algum job que tinha pego como freelancer, quando a janelinha do chat do meu Facebook subiu me chamando atenção.

Era uma mensagem de um cara chamado Thiago Anselmo. Ele é mais um dos que eu conheci por fazer parte da rede do CHOICE. Me lembro que no fim de 2014 participamos de um evento da rede lá em Sampa, mas não houve um contato muito próximo e nem tomamos iniciativas de falarmos um com o outro depois disso.

Por coincidência, o Thiago também estava com planos de viajar pelo Brasil. No caso, ele estava com a ideia de um projeto que iria percorrer todos os estados brasileiros, fotografando os lugares, as paisagens, as pessoas, com uma rota um pouco diferente da minha, começando pelo sul do país.

Ele já está na estrada também, segue a página do projeto dele no Facebook e também o seu profile no Instagram.

A razão dele vir falar comigo era porque estava rifando uma de suas máquinas de fotografar, para levantar uma grana para essa trip que estava planejando, e então veio me oferecer essa tal rifa.

Aliás, amiguinhos, fazer uma rifa para conseguir dinheiro para viajar também é uma ótima alternativa para quem quer pôr o pé na estrada com pouca grana #ficadica

A princípio, eu falei que não rolava comprar, porque estava guardando uma grana para viajar também e contei um pouco mais sobre o que eu queria fazer e, naquele momento, qualquer R$20 poderia fazer diferença no futuro.

Apesar disso, o nosso contato não parou por aí, passamos os próximos dias trocando algumas ideias sobre os nossos planos de viagem, compartilhando mais detalhes sobre cada um deles, bem como nossas dúvidas e afins.

Em uma dessas conversas, lembro que ele veio com as seguintes palavras (Na verdade, eu fiz questão de recuperar nosso histórico de conversas no face para ver exatamente o que ele me falou):

“Tente arrumar um trampo em Caraíva” e “Lá é incrível”

Não me lembro ao certo, mas acho que Caraíva já estava na minha lista de lugares para conhecer na Bahia, mas com um asterisco (*), o que indicava que (ainda) não era uma prioridade.

Depois dele ter falado isso, fiz mais algumas pesquisas sobre o lugar, vi que era um vilarejo ainda não muito conhecido quando comparado com outros destinos um pouco semelhantes, tal como Jericoacoara.

Talvez naquele momento me despertou uma vontade de estar lá, eu só não sabia da sua existência!

Como chegar em Caraíva?

Passou-se o tempo, eu embarquei na minha jornada, quando estava em São João Del Rei, na casa da Silvia, em um dia qualquer, era noite e estava organizando algumas coisas referente aos próximos destinos e de repente, me deu um “surto” ou algo interior que me falou internamente para passar por Caraíva.

Decidi então, que lá seria meu próximo destino após BH. Tentei solicitar alguns trabalhos pelo Workaway, para os poucos hosts que estavam por lá ou que estavam localizados ali perto, mas sem sucesso.  Pois bem, eu iria lá mesmo assim e se não conseguisse nenhum trabalho em alguns dias, seguiria meu caminho…

Mandei uma mensagem para o Thiago, apenas para tirar a dúvida sobre como poderia chegar em Caraíva de ônibus, partindo de BH. Ele me instruiu a ir para Eunápolis, na Bahia, para depois pegar outro ônibus até lá.

Comentei com ele que ainda não tinha conseguido nenhum trampo, mas que iria mesmo assim. Então, ele me passou o número de telefone de uma pousada, a qual ficou hospedado na sua última passagem por lá. Eu falaria com o Pedro, que é o dono dessa pousada.

Mandei uma mensagem para o Pedro, pelo Whatsapp, explicando quem eu era, como tinha conseguido o seu contato e porque estava procurando por ele. Enfim, ele foi muito gente boa comigo desde o início e me pediu alguns dias para decidir se rolaria trabalhar por lá voluntariamente.

Passou-se mais alguns dias, quando eu estava no meu segundo dia em BH, após passar o fim da tarde na praça do Papa, ele me deu uma resposta positiva, falando que eu poderia chegar na próxima semana, que teria trabalho para mim! Sensacional!

Lembro que alguns dias antes eu tinha prometido ao Thiago que se desse certo esse trabalho, eu compraria uma rifa dele, como uma forma de agradecimento e fiquei muito feliz em poder fazer isso!

Mas o que destaco é que com esse acontecimento, além das nossas trocas de experiência, uma grande amizade se fortaleceu, mesmo com a distância, logo quando ele colocou o pé na estada também começamos a compartilhar várias ideias, experiências e opiniões sobre as nossos caminhos sempre que pudemos.

Fazemos isso até hoje, além de haver o plano de nos encontrarmos em algum ponto desse Brasil em algum dia!

Poltrona 45

Então, estava eu no terminal em BH, onde o ônibus partiria rumo a Eunápolis. Ele chegou, entrei nele, o meu assento era a poltrona de número 45, do lado do banheiro… como eu comprei a passagem em cima da hora, não tive muita opção de escolha de lugar.

Ao meu lado havia um senhorzinho que permaneceu a viagem toda calado, ele insistia em viajar com a sua bolsa de tira colo junto ao seu corpo, creio que estava bem desconfortável… a única palavra que trocamos foi um “boa noite”.

Dormi a noite toda! Acordei somente pela manhã e já percebi que estava em solo baiano. Lá pelas 11 e meia chegamos na rodoviária de Eunápolis, uma cidade que só tive ciência da sua existência poucos dias atrás! Eita ignorância!

Depois descobri que tanto ela, quanto Porto Seguro servem de apoio para quem quer ir para Caraíva, bem como para quem mora lá fazer compras e resolver as coisas e pendências da vida.

Vista do caminho até Eunapolis logo pela manhã.

Esperei por mais uma hora mais ou menos, quando finalmente o ônibus para Caraíva chegou. Embarquei novamente, aparentemente ele estava ocupado somente com pessoas que moram ali naquela região, ou seja, de forasteiro só tinha eu!

O trajeto dessa viagem passa por Itabela, outra cidade desconhecida para mim até então, em que muita gente entrava e saia a todo tempo, alguns carregavam caixas com mantimentos e outras compras no geral. Percebi, então, que estava acompanhado de moradores da região e que foram para a cidade pela manhã fazer compras e voltar para suas casas pela tarde.

Gosto muito disso, de ver e sentir na pele, por pouco tempo que seja, como é a rotina das pessoas que vivem em lugares diferentes dos que já morei, da sua luta diária.

Acho que foi a primeira vez que tive contato com esse movimento de observar as pessoas saindo das regiões afastadas indo para a cidade grande para fazer compras. Pode parecer bobagem, mas isso é uma imersão cultural bem relevante! (pelo menos pra mim)

Realmente perdi as contas de quantas vezes o ônibus parou para entrar e sair pessoas.

Depois de Itabela, o caminho é todo de estrada de terra. Aproveitei para curtir a vista olhando pela janela, a vegetação e cada detalhe desse caminho, que é lindo!

Paisagem do caminho entre Itabela e Caraíva

Atravessando o portal

Depois de algumas horas de viagem e mais algumas paradas, já estava quase no momento do pôr do sol, o ônibus me deixou na beira do rio caraíva. Para chegar ao vilarejo, eu precisaria atravessá-lo.

Naquele momento, já deu para sentir um pouco da mágica daquele lugar só de olhar o meu destino há alguns metros de distância cercado de um rio. Entrei na fila das canoas que atravessam as pessoas de um lado ao outro, comandada pelos nativos, o preço para atravessar é de R$5 por pessoa.

O interessante é que o jeito deles remarem é bem diferente. O remo fica preso na parte da frente da canoa (ou barco), e o movimento é feito de um lado para o outro bem rápido.

Sentado eu estava só observando o vilarejo se aproximando, as luzes se acendendo, parecia que estava entrando em outro mundo, me senti atravessando um portal! E a cada minuto que se passava eu me aproximava de Caraíva, ou Caraíva se aproximava de mim?

Desci do barco e a primeira coisa que fiz foi admirar toda a beleza daquele lugar, fiquei uns 2 minutos olhando todo aquele chão de areia, cheio de casinhas, pousadas e restaurantes cada um com a sua particularidade, que orna muito bem com o local. Ao lado se via a única forma de transporte pelo vilarejo: as carroças com burros!

Primeiros passos pelas areias de Caraíva

Apesar do Pedro ter me passado um mapa que explicava muito bem onde ficava a pousada, eu já estava perdido. Então, comecei a perguntar onde ficava a Pousada Raiz Forte e umas duas ou 3 pessoas me ajudaram, me indicando o caminho que eu deveria seguir.

Logo já percebi que Caraíva realmente não era muito grande, praticamente todo mundo conhece todos os estabelecimentos e não é difícil encontrar os lugares, basta caminhar alguns quarteirões percorrendo as suas “ruas” de areia fofa!

Mapa que o Pedro me passou!

Nascimento da lua

Depois de alguns minutos andando, ainda de tênis, consegui achar o meu destino! Entrei na pousada e fui recebido pela Tata, que era a gerente de lá.

Ela me apresentou a pousada, o quarto que iria ficar, e já me instigou a ver a lua nascendo no mar, se não me engano era o último dia de lua cheia, então era uma oportunidade única! Eu realmente nunca tinha pensado nessa possibilidade algum dia na vida.

Sai, virei a esquerda e depois a esquerda de novo, já estava na praia! Sim, a praia estava praticamente no quintal de casa! Não deu para ter uma noção muito grande de como ela era, porque já estava escuro, mas senti uma paz muito grande!

Depois de uns 30 minutos sentado, refletindo e admirando toda aquela sensação de estar em um lugar como aquele, vejo um ponto vermelho aparecendo sobre o mar, foi coisa de segundos para se transformar na lua! Que lindeza! Fiquei um tempo por lá só apreciando aquele fenômeno, que nunca tinha visto.

Talvez foi nesse momento que Caraíva me conquistou de verdade, tinha certeza que estava em um paraíso. Voltei para a pousada caminhando lentamente… só observando aquele céu estrelado, que tinha essa característica pela falta de postes de energia no vilarejo! Ainda bem!

As fotos do nascimento da lua não ficaram boas :/ Essa foi a que ficou melhorzinha!

Agora me lembro que um dia estava deitado na rede, ouvindo música, e minha playlist caiu em uma música do Natiruts que nunca tinha notado que o seu nome era Caraíva. Prestei atenção em de seus trechos que diz:

“Comemorar o luar que fez

A sintonia da noite com esse céu inteiro

O vento avisa ao longe que só vai chover

Lampejos de alegria, beijos de amor

Você me traz esse mar de bem

E a energia da noite vai abençoar

Será que ainda há tempo para proteger

E preservar essa vida como Deus criou?

Deus criou!”

Fazia todo sentido! Sem dúvida alguma, a música foi inspirada por aquelas terras.

Voltando… Quando cheguei na pousada, tomei um banho e logo o Pedro chegou, ele tinha ido acompanhar alguns hóspedes em um passeio.

Nos cumprimentamos, ele falou para eu apenas relaxar e descansar. Ficamos de conversar sobre o trabalho na pousada no dia seguinte, já que ele tinha um compromisso mais a noite, um campeonato de Poker.

Meu dia terminou indo jantar em um restaurante ali perto e indo dormir cedo, devido ao cansaço de praticamente um dia inteiro de viagem!

Agora que você já sabe como cheguei em Caraíva, confere aí como foi a minha passagem por BH!

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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