#17. Caminhando em direção ao céu

Após me despedir dos franceses, que me acompanharam no trajeto de Boipeba até Salvador, parei por um minuto e vi que estava no meio de todo o caos de uma cidade grande. A última que tinha passado foi a nossa querida capital mineira Beagá, há quase 2 meses atrás.

Que choque! Eu, com duas mochilas, no meio da rotina e do movimento de uma cidade a todo vapor. Muitos motoristas me ofereciam corrida até a rodoviária a preço de “Uber”, mais ou menos uns 30 pila… sem chance. Cheguei em um ponto de ônibus ali no meio de uma avenida, estava super movimentado.

Perguntei para várias pessoas sobre qual ônibus me deixaria na rodoviária. Todos me diziam que muitos passavam, mas não sabiam qual deles exatamente era. Até que um deles parou e alguém me falou: “Esse vai”. Sem pensar muito, entrei e perguntei para a cobradora, já dentro do ônibus, para confirmar a informação, ela me disse que sim, mas que pararia na passarela que liga a rodoviária até um shopping nas proximidades.

Sinceramente não queria descer ali, tinha um pouco de receio daquele lugar depois de saber do caso de um amigo que tinha sofrido uma tentativa de assalto passando por lá em pleno movimento a luz do dia. Além disso, outras pessoas que conheci, me relataram o quanto aquela passarela era perigosa. Enfim, não tinha o que fazer, já estava indo para lá.

Desci do ônibus, caminhei e atravessei a passarela, o fluxo de pessoas era intenso e felizmente nada de mal aconteceu. Cheguei na rodoviária e fui direto comprar a minha passagem para a cidade de Lençóis, a minha primeira parada na Chapada Diamantina.

“Só às 23 horas”

Encostei no guichê da empresa que faz o trajeto entre as duas cidades e estava crente que conseguiria comprar a passagem para o ônibus que sairia no fim da tarde, esperaria somente algumas horas, mas o atendente me disse: “Só às 23 horas”. Aproveitei o tempo que tinha para colocar meu diário em ordem e resolver outras pendências.

De tempos em tempos eu checava as redes sociais e pela primeira vez na viagem me deu vontade de assistir TV. Foi nessa tarde que vazaram os áudios que envolviam o nosso “querido” presidente da república no esquema de corrupção da JBS. Procurei televisões por toda parte, mas não achei, tive que me contentar em acompanhar as atualizações dessa bomba apenas pelo celular mesmo.

A noite começou a se alongar e comecei a me concentrar e me preparar para o meu próximo destino, sentia um chamado forte da Chapada Diamantina. Prometi pra mim mesmo que aproveitaria o máximo que pudesse os dias por lá.

Finalmente o ônibus chegou, embarquei e, dessa vez não consegui prestar atenção no trajeto, capotei de sono.

Esperando o hostel abrir

Acordei lá pelas 5 e meia da manhã, quando o ônibus chegou em Lençóis. Ainda estava escuro. Já tinha uma galera de pousadas e agências esperando na rodoviária para receber hóspedes. Alguns me perguntaram se eu já tinha hospedagem. Falei que iria até o Viela Hostel, que foi uma indicação da Silvia, uma guria que conheci lá em Caraíva e é moradora da cidade.

Caminhei até o hostel e mesmo sem muita luz já deu para perceber todo o charme da cidade, com ruas de paralelepípedo e construções que lembram as cidades históricas de Minas, algo bem alternativo, do jeito que eu gosto.

Cheguei e o hostel ainda estava fechado. Tinha um banco por perto e sentei para esperar e cochilar. Depois de algum tempo, acordei e vi que tinha companhia, era o Renato, que também estava esperando o hostel abrir, ele tinha chegado no mesmo ônibus que eu.

Por coincidência, conversando, descobrimos que estudamos na mesma cidade, em São Carlos, ele fez UFSCar lá pelos anos 2000 e logo reconheceu a minha camiseta do TUSCA, a principal competição universitária da cidade: “E essa camiseta do CAASO aí?”

O Renato foi um grande parceiro nas aventuras em Lençóis. Logo quando deu 7 da manhã, um funcionário do hostel chegou e fez o nosso check in. Após isso, tomamos um café na rua mesmo. A manhã estava chuvosa, aproveitamos para bater perna pela cidade e consultar o preço dos passeios.

Um pouco das ruas de Lençóis.

Ribeirão do meio

Hoje, sempre quando alguém me pede dicas sobre a Chapada Diamantina eu respondo sem titubear: Se puder vá de carro ou alugue um. O fato é que a maioria dos atrativos da Chapada ficam há uma certa distância das cidades. Especificamente em Lençóis, são poucas coisas que são possíveis conhecer a pé em curta distância.

Então, para mim a melhor opção é ir de carro, podendo inclusive contratar um guia local para direcionar melhor os atrativos que deseja visitar. Caso contrário, a opção é recorrer para alguma agência de turismo. Como eu não estava de carro e não conheci ninguém que estivesse, tive que optar por essa alternativa que, sinceramente, não me agrada muito.

Decidi que iria pagar somente 1 passeio e conhecer os atrativos que ficam dentro de Lençóis. Depois disso, iria para o Vale do Capão.

Até porque, o preço das agências é bem caro, nada que eu não ache justo, pois é preciso organizar toda a logística do passeio, contratar guias, dentre outras responsabilidades. Mas para quem viaja querendo gastar pouco, fica mais difícil utilizar essa opção com frequência.

Resolvi não pensar muito nessa questão. Passamos em quase todas as agências e encontramos uma que oferecia um bom custo-benefício para fazer o roteiro padrão da Chapada, o chamado roteiro 1.

No meio da tarde a chuva deu uma trégua. No hostel conhecemos o Léo, que estava há alguns dias na Chapada e nos levou conhecer o Ribeirão do Meio, que é uma cachoeira de fácil acesso pela própria cidade de Lençóis.

Depois de alguns minutos de trilha, chegamos e gostei muito do que vi. O Ribeirão do Meio é considerado um tobogã natural pois tem um grande paredão em que é possível escorregar e cair no poço que a cachoeira forma. Infelizmente a água estava muito gelada e não tive coragem de entrar… Me contentou apenas observar tudo aquilo.

A noite, sai com uma galera que estava no hostel e encontrei a Silvia. Conforme falei antes, conheci ela quando estava em Caraíva, em uma história bem engraçada em que o Pipoca, o cachorro da pousada, foi até a estrada e seguiu o carro de uma hóspede que era amiga dela, que mandou a Silvia verificar se ele tinha voltado são e salvo para lá.

Ribeirão do Meio.

Roteiro 1

Segundo dia de Chapada Diamantina, acordei cedo, tomei café e fui com o Renato para a agência para pegar a van para o nosso passeio, o Roteiro 1. Esse roteiro passou por Poço do Diabo, Gruta da Fumaça, Gruta da Pratinha, Gruta Azul e Morro Pai Inácio (Um dos cartões postais da Chapada).

O guia que nos levou se chamava Daniel e era um tanto quanto engraçado, sempre brincava com todos e deixou o passeio muito divertido. A sua história de vida é mais uma que considero muito interessante: Ele, carioca, depois de conhecer a Chapada e se apaixonar pelo lugar e por sua esposa, largou a vida “estável” de funcionário público para viver em Lençóis e ser guia.

Além de mim e o Renato, o nosso grupo era composto por uma americana, uma holandesa e um casal (uma brasileira e um português).  Logo no início o guia já jogou a real para gente: “Galera, o tempo está feio, não sei se vai rolar ver o pôr do sol no Pai Inácio”.

Ele fez a proposta de ir para lá logo depois da Gruta da Fumaça e garantir a vista, caso o tempo estivesse bom nesse horário. Eu fiquei um pouco chateado, pois era o lugar que mais queria conhecer. Não tinha muito o que fazer, o tempo a gente não controla né?! Então, me preocupei somente em aproveitar o que fosse possível do passeio.

Seguimos caminho e chegamos ao Poço do Diabo (engraçado que todo lugar tem algo do diabo, né?! poço do diabo, caverna do diabo, garganta do diabo). O poço fica na região do rio Mucugezinho, que dá origem a diversos poços, o maior deles é o do Diabo. Depois de uma trilha bem fácil, chegamos até ele.

Nem perdi muito tempo e já entrei na água, fui nadando até a cachoeira para tomar um banho de cachoeira. A profundidade parecia ser bem grande e notei que estava bem mais difícil de nadar e boiar. Afinal, estava acostumado com o mar, em que o sal dificulta um pouco que o corpo afunde.

Depois de sair, para me secar, fiquei ouvindo as histórias do Daniel sobre os turistas que se dizem profissionais  (nadadores, escaladores e afins) e acabam se dando mal por não ouvir quem conhece o lugar de fato. Ele mesmo contou que já teve que tirar algumas pessoas em apuros da água.

Poço do Diabo visto de cima.

A próxima parada foi a gruta da Fumaça, local que me lembrou muito as excursões para o PETAR, que tive a oportunidade de participar no ensino médio, matei as saudades das estalactites, estalagmites e os desenhos que são capazes de formar. Do lado da gruta havia um restaurante e lá mesmo almoçamos uma comida bem caseira e gostosa.

Um pouco da Gruta da Fumaça.

Após o almoço, já dentro da van, o guia puxou a questão da decisão de adiantar a ida ao Pai Inácio naquele momento ou deixar para o fim da tarde. Ele olhou o céu e notou que ainda estava bem nublado, então nos aconselhou seguir para as Grutas Pratinha e Azul e manter o roteiro inicial pois ainda haveria chances do céu abrir mais tarde.

Tanto a Pratinha quanto a Azul ficam na mesma propriedade, que é particular, então cobra-se a entrada. Creio que é coisa de R$30 (não precisamos pagar pois estava incluso no pacote da agência). Lá dentro há outras opções de lazer que são pagas a parte: A flutuação na Pratinha e a tirolesa, por exemplo.

A Pratinha é muito linda, aquela água cristalina é uma das mais transparentes que já vi. Há um espaço em que o público pode entrar e tomar um banho. O legal é que há vários peixinhos que ficam “beliscando” o corpo. Mesmo com a ausência de sol, entrei na água em alguns momentos.

Pratinha!

Finalizamos essa parte do passeio na Gruta Azul, em que a água possui uma cor azul bem marcante. O grande atrativo dela é quando o sol incide sobre uma abertura de suas rochas em que é possível ver toda a sua profundidade. Como o dia estava bem nublado não rolou ver esse espetáculo.

Gruta Azul.

Saindo de lá tivemos uma boa notícia, o céu estava aberto, então, seria possível subir no Pai Inácio e conseguir ter uma vista bacana do alto do morro. A van nos levou até o pé do Morro e subimos todos, estava cheio de gente! Praticamente todos finalizando o dia por ali.

Chegando no Pai Inácio.

Realmente a vista ali é incrível, dá para ter uma vista bem abrangente da região da Chapada e ver como a natureza foi bem feita por ali, ficaria horas e horas observando aquilo tudo. Lá é possível também avistar outros morros, me lembro de um que se chama 3 irmãos e outro que levava o nome de Camelo.

Observando a Chapada de cima do Pai Inácio.

Entre a nossa chegada e o pôr do sol rolou um papo com o Daniel sobre o trampo de guia, as queimadas criminosas na Chapada e também a iniciativa da brigada voluntária de combate a todo o caos que esses incêndios geram. Conversei também com ele sobre o Vale do Capão e ele foi mais um que me encorajou a ir.

O legal é que cada guia tem a sua versão da história do Pai Inácio, o personagem que dá nome ao morro.  Basicamente era um escravo que precisou fugir pulando do morro. Tem até alguns deles que fazem uma encenação pulando ali do alto e se escondendo ali na beira, assustando e enganando todo mundo.

A sensação de estar ali foi ade que valeu muito a pena a espera e o passeio em si! Finalizei aquele dia com um rolê a noite por Lençóis onde acabei tomando uma cerveja em um boteco qualquer.

Mais uma de cima do Pai Inácio.

Serrano e prainha

No terceiro dia de Chapada, e praticamente o último em Lençóis, combinei de encontrar a Silvia novamente e ir para o Serrano, que é um parque dentro da cidade com bastante opções de lazer, tem algumas piscinas naturais, salão de areia e algumas cachoeiras pela redondeza.

Fomos para a casa dela e de lá seguimos a pé. Passamos o dia nas piscinas naturais, que parecem uns caldeirões, conversando sobre a vida e também aproveitando o sol que estava bem bonito, algo raro naqueles dias de Chapada.

A Silvia é muito gente boa, é mineira, de BH e passou em um concurso para ser tabeliã. Dentre as cidades disponíveis estava Lençóis, ela que já conhecia a porta de entrada para a Chapada Diamantina, nem perdeu tempo em escolher esse lugar para viver. Me pareceu que ela levava uma vida bem tranquila e feliz por lá.

Depois de um tempo no Serrano, ela deu a ideia de visitarmos a Prainha, uma cachoeira ali perto, fizemos uma pequena trilha e tomamos um banho de cachoeira para finalizar aquela tarde bem relaxante.

Fechei minha passagem por Lençóis em um barzinho onde estava tocando um forró dos bons com o Renato, a Silvia e mais alguns amigos dela. Agora era hora de conhecer um lugar novo: O Vale do Capão.

Prainha.

Vale do Capão

Acordei cedo, tomei café da manhã e caminhei até a rodoviária para tomar um ônibus para o município de Palmeiras, onde fica o vilarejo de Caeté-Açú, o famoso Vale do Capão. Antes de chegar ali, me pareceu que todo mundo que passa por lá jamais esquece esse lugar e eu conheci muita gente que se aplica a essa teoria. Então, fiz questão de colocá-lo no meu roteiro da Chapada.

Em Palmeiras peguei um transporte local até o Capão. Conforme o carro ia ganhando estrada percebe-se algo muito diferente, talvez seja a paisagem característica da Chapada ganhando forma, talvez seja a simplicidade do lugar. Não sei, mas desde aquele momento senti que teria paz por ali.

Chegando no vilarejo, o motorista me indicou ficar no Sempre Viva, um camping, que também tem quartos para alugar por dia, com um preço bem bom. O lugar é simples, mas confortável. A chuva ainda me acompanhava naquele dia, por isso nem pensei na possibilidade de acampar.

Deixei minhas coisas no quarto e fui bater perna, conheci a parte mais “urbana” da vila que se resume a praticamente uma rua principal com uma vista sensacional para a Chapada! Sentei na praça e fiquei só observando e sentindo como era estar cercado por tudo aquilo. Que coisa mais linda!

Minha vista preferida do Vale do Capão.

Parei em um bar e notei que tinha uma galera tocando violão, pedi uma cerveja e fiquei curtindo o som até anoitecer. Lembro até hoje o quão boa era a energia daquele lugar. O mais engraçado é que por mais alternativa que a cidade de Lençóis seja, ela praticamente se torna algo “tradicional” perto do Vale do Capão, que é roots demais.

Caminhando pelo Vale do Capão.

Fumaça por cima

Segundo dia de Vale do Capão, logo após fazer meu café da manhã, caminhei pela estrada saindo do vilarejo em direção a Palmeiras. A ideia era fazer a trilha da Cachoeira da Fumaça por cima (onde se pode ver a cachoeira de um mirante bem alto).

Caminhei por uns 2 km até chegar na associação dos guias locais, onde se encontra o início da trilha. Fui o primeiro a assinar a lista de presença naquele dia, ao me ver sozinho, a moça da recepção perguntou onde estava o meu guia e falei que não tinha. Ela perguntou se era a minha primeira vez na trilha e eu disse que sim. Ela ficou um pouco receosa, mas me disse que não me impediria de ir, me passou orientações sobre a trilha e todos os cuidados que tinha que tomar.

Alguns dias atrás eu também estava receoso por ir sem guia, mas conversei com algumas pessoas que já tiveram essa experiência e me contaram que não era difícil, bastava seguir as pegadas e também me aconselharam a utilizar o Maps.me, que é um aplicativo que fornece mapas e caminhos offline. Alguns dias antes, baixei o app e vi que tinham mapeado a trilha lá. Não tinha porque dar errado!

Lembro também que uma orientação bem valiosa foi a de que a trilha só tinha subida ou partes planas, se visse que o caminho estava descendo, estava errado. Então fui eu com essa ideia em mente e consultando o aplicativo de vez em quando, conferindo se estava no caminho certo.

Foi mais fácil do que imaginei! Havia chovido no dia anterior. Então, as pegadas de quem fez a trilha antes de mim estavam bem visíveis. Foi uma boa caminhada, me senti muito livre e em sintonia com aquele caminho.

Vista de um pedaço da trilha.

Só para não falar que não me perdi, aconteceu uma vez: Quando estava chegando bem perto do ponto final da trilha e acabei tomando o caminho errado. Ao perceber, abri o aplicativo no celular, consultei e já voltei para a trilha. Simples assim.

Percebi que tinha chegado após notar a presença de várias placas com avisos de “cuidado” devido a altura do lugar. Se não me engano é a segunda cachoeira mais alta do Brasil. Para ter uma noção, do alto do mirante as orientações são bem incisivas para que todos se aproximem apenas deitados.

Deitei, me aproximei agachado até chegar bem na ponta do mirante, fui surpreendido com uma queda d’água enorme! A cachoeira leva esse nome porque boa parte da sua água não chega a tocar o chão, acaba sendo levada para cima pelo vento. Essa água que sobe lembra uma fumaça.

A sensação de colocar a cara para fora naquela altura e ver aquilo acontecendo é bem marcante. Fora isso, percebi que realmente é muito perigoso ficar em pé ali, um vento mais forte ajuda a perder o equilíbrio fácil fácil, mesmo assim arrisquei observar aquilo de pé, mas não tão perto da ponta do mirante.

Tive tudo aquilo para mim por uns 40 minutos, foi ótimo! Costumo dizer que com a natureza costumo ser um pouco egoísta, gosto muito de estar sozinho nesses lugares ou com pouca gente, sem muita muvuca. A manhã foi passando e logo começaram a chegar os primeiros grupos de pessoas com os seus respectivos guias.

Foto clássica em cima do mirante.
Cachoeira da Fumaça!
Observando esse espetáculo da natureza.

Era hora de descansar, encostei em uma árvore e comi um lanche que levei para passar o dia. Ficava só observando o quanto os guias levavam a sério a questão da segurança no local, deixavam somente uma pessoa por vez se aproximar do mirante. Fiquei sabendo de alguns casos de acidentes e suicídios que já aconteceram por ali.

Sentado ali, conheci o Romilson, um guia nativo de Lençóis, que estava acompanhando um casal. Começamos a conversar sobre a cachoeira da Fumaça e a Chapada em si,  até dei um pedaço do meu silver tape para ele cobrir um machucado no pé. (Tinha levado a fita porque a minha bota estava aberta e tive que fazer umas gambiarras para ela sobreviver até essa caminhada.)

Depois de um tempo, ele me convidou para ir até um outro mirante, que se pode ver a cachoeira de outro ângulo e também o primeiro mirante. Chegamos lá e foi muito legal ver o quanto é alto o ponto em que estávamos.

Vista do mirante 2.

Conhecer pessoas locais para mim sempre foi um processo muito rico, é uma grande oportunidade para entender melhor a cultura, saber mais sobre a comunidade em si, a história do local, dentre outras coisas. Deu para entender melhor como é a vida na Chapada e também saber o que se pode conhecer de legal por ali e que está fora do roteiro turístico, tudo graças ao Romilson.

Já estava no meio da tarde quando pegamos a trilha de volta. Agradeci demais a companhia do Romilson e do casal que ele estava guiando. Ao chegar de volta na associação dos guias, assinei novamente a lista de presença, indicando que estava de volta e tomei o meu caminho para o Capão.

Chegando lá, tomei um bom banho e tive que jogar a minha bota fora. Os remendos com cola e silver tape não iriam funcionar mais.

De repente, estava com muita fome. Lembrei da famosa Pizzaria Capão Grande, que vi em alguns relatos na internet. Ela é bem famosa por lá, pois não tem nenhuma placa de identificação do local e só tem 2 únicos sabores: vegetariano e de banana.

Ali no vilarejo perguntei onde ela se encontrava e fui muito bem atendido. Pedi uma pizza média meio a meio. Bem deliciosa e bem servida. Eles oferecem uma mistura de mel e pimenta para por na pizza que é muito boa. Enchi a barriga e ainda sobrou para o café da manhã do outro dia.

A pizza!

Caminhando em direção ao céu

Meu último dia no Vale do Capão e na Chapada foi muito especial. Após comprar minha passagem para pegar um ônibus noturno até Salvador, caminhei em direção ao Riachinho: Uma cachoeira que fica depois de alguns quilômetros após entrada da trilha do dia anterior.

Tanto a ida quanto a volta foram de muita reflexão. Aproveitei aquele momento para mentalizar e agradecer por tudo que tinha rolado até ali e pedir coisas boas para os meus próximos passos.

Depois de um tempo, que não lembro ao certo, cheguei no Riachinho. Infelizmente não consegui aproveitar muito a água porque estava bem gelada, entrei na água poucas vezes. Foi ótimo para continuar refletindo e aproveitar todo o sossego do lugar!

Cachoeira do Riachinho.

Quando já vi que era o momento de voltar, tive uma das experiências mais marcantes da vida. Arrisco a dizer que é o maior delírio que tive nos últimos anos. Estava eu andando sozinho pela estrada, acompanhado apenas do silêncio e do presente em forma da paisagem que a Chapada Diamantina fornece.

Senti uma paz gigantesca, não estava preocupado com nada, só queria caminhar e seguir em frente, aproveitando esse caminho. Até hoje quando penso nesse momento, não sei dizer muito bem o que aconteceu, mas não era eu quem controlava as minhas pernas ao caminhar.

Creio que estava meditando sem saber, algo me dizia que estava caminhando em direção ao céu! Uma das melhores sensações que tive na vida. Coisas que só um lugar como a Chapada Diamantina pode proporcionar.

No fim do caminho, alguns carros passaram e nem me preocupei em pedi carona, queria mesmo é que aquele caminho nunca acabasse. Aliás, não tenho nenhuma foto desse caminho porque só me preocupei em segui-lo, nada mais que isso…

De repente, voltei para a realidade e cheguei na entrada do Vilarejo.

Coxinha de jaca

Logo quando cheguei tive a grata surpresa de reencontrar os franceses que mencionei no início do post, eles tinham recém-chegado de Salvador. Conversamos e combinamos de nos encontrar mais tarde. Já estava nos meus preparativos para seguir viagem, tomei banho, arrumei minhas coisas e fui até a praça esperar o transporte local para Palmeiras.

Não sei porque, mas estava com vontade de comer doritos com coca-cola, fui ao supermercado e comprei para matar a minha vontade. Me dirigi novamente ao bar, tomei as minhas 2 últimas cervejas no Vale do Capão e aproveitei para experimentar a famosa coxinha de jaca recheada de palmito que tem por lá.

Quando vi, o tempo passou voando e o transporte local chegou, embarquei e estava na rodoviária de Palmeiras para esperar o ônibus até Salvador.

Passar aqueles dias na Chapada Diamantina foi muito especial, obviamente que queria conhecer muitas outras cachoeiras e lugares por lá. Quem sabe isso aconteça em uma próxima viagem, com um foco só na Chapada Diamantina!

Agora que você já sabe como foi a minha experiência na Chapada Diamantina, o que acha de consultar as minhas dicas sobre Work Exchange?

 

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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