#18. Cidade alta ou cidade baixa?

Ir para Salvador realmente me deixava muito confuso. Ao mesmo tempo em que queria estar ali, também não queria estar. Conhecer melhor a capital baiana e toda a sua parte cultural, que é algo bem diferente das capitais do sul e sudeste que já tinha conhecido ou morado, era algo que me deixava animado.

Porém, muitos me falavam sobre esse lugar com uma certa cautela, a violência e os problemas sociais é algo marcante na vida do soteropolitano. Logo, essa realidade, que nada mais é do que um reflexo de muitos lugares do Brasil, atrapalha e incomoda muito a vida deles.

Sem dúvida alguma, esse é um dos motivos que fazem Salvador transparecer ser uma cidade perigosa. Analisando friamente, agora, quando se trata de uma grande capital, infelizmente não tem como fugir dessas questões, pelo menos no dias atuais. Quem sabe em um futuro próximo…

Apesar de todo esse dilema, a minha vontade de conhecê-la era muito maior. Já tinha adiado muito a passagem por lá, estava na hora de enfrentar essa adversidade e simplesmente ir. Durante toda a minha viagem, sempre quando surgia algum impasse assim na minha cabeça, eu procurava respirar, projetar coisas boas e somente desejar ter uma boa experiência.

Foi isso que eu fiz antes de embarcar no ônibus, naquela noite na cidade de Palmeiras, para Salvador.

Andando pela Barra

Dentro do ônibus, toda essa ansiedade deu lugar ao sono. Bastou entrar em movimento que já comecei a dormir, fui acordar somente pela madrugada, quando estávamos passando por Feira de Santana. Olhava pela janela, não havia uma alma viva na rua… Voltei a dormir.

Acordei novamente quando os primeiros sinais da capital baiana apareceram pela minha janela, já era por volta das 7 da manhã. Estava novamente na rodoviária, desci do ônibus, dei um tempo na área de desembarque até acordar por completo e comecei a decidir o que fazer naquele momento.

Peguei o celular e comecei a consultar a disponibilidade dos hostels pela cidade. A Clara, que meu carona junto com a Roberta saindo de Caraíva, me recomendou ficar na Barra. Encontrei o Hostel Barra, que oferecia um bom preço, e foi para lá que fui.

No caminho entre a rodoviária e o terminal de ônibus fui abordado por um taxista. De cara já falei que pretendia pegar um ônibus, mas ele foi tão insistente que resolvi perguntar quanto ficaria uma corrida até a Barra (R$40,00… sem chance). Agradeci a oferta e falei que optaria pelo ônibus mesmo.

Então, me surpreendi quando ele mesmo indicou qual deles eu deveria tomar para chegar ao meu destino. No terminal peguei um ônibus e desci no Barra Shopping, caminhei tranquilamente até o hostel.

Ambulantes por todos os lados

Cheguei no Hostel Barra e fui muito bem recebido pelo Zé Carlos, o vigia da noite que estava cobrindo a folga do dono do hostel na recepção, ele fez questão que eu tomasse um suco que estava lá dando bobeira. Acertei as minhas diárias e já fui caminhar pela orla da praia.

Cheguei até o Farol da Barra, um dos pontos turísticos da região e lá já senti como seria a abordagem dos ambulantes da cidade nos próximos dias. Achei muito legal o fato de todos eles serem devidamente regularizados e identificados com coletes.

É engraçado que eles percebem facilmente que você é turista, o que não é muito difícil, e alguns chegam até a ser um tanto quanto intrusos no seu caminho, invadindo totalmente o que você está fazendo, tudo para vender alguma coisa. Esse é o ganha pão deles, não é mesmo?

Não gosto de generalizar as coisas, mas ao longo da minha estadia por Salvador alguns chegavam a falar em um tom dando a entender que eu tivesse a obrigação de comprar, o tipo de abordagem que eu não gosto nem um pouco. Tive também a chance de conhecer alguns outros que foram muito gentis, que contavam histórias da cidade, além da sua cultura, para prender a atenção do freguês.

Farol da Barra

Passei a manhã toda na praia, estendi minha canga e relaxei. Apesar das praias da Barra terem uma pegada mais urbana e menos deserta (algo que estava um pouco mais acostumado nos últimos dias), consegui abandonar minhas coisas por um tempo e tomar um banho de mar sem me preocupar com elas.

Eu estava louco para comer acarajé, me lembro ainda em Caraíva, em que a Clara e a Roberta disseram que eu poderia comer em qualquer lugar em Salvador, todos eram bons. Realmente, acabei comendo um nesse dia, de um vendedor qualquer e estava delicioso. Isso se repetiu todas as vezes em que provei tal prato típico.

Praia Farol da Barra

Cidade alta ou cidade baixa?

No início da tarde voltei ao hostel e lá conheci o Jaú, o dono do hostel. Ele, fanático pelo Bahia, estava animado com o jogo que aconteceria pela noite: Bahia X Sport na Arena Fonte Nova, a final da Copa Nordeste.

Eu queria muito conhecer o Pelourinho. Pedi informações para o Zé Carlos e o Jaú sobre como ir para lá de boa. Eles me indicaram o ônibus e me deram algumas recomendações para que eu ficasse atento ao andar pela região. Até então, a visão que tinha do Pelourinho era a sua fama de ser um lugar um tanto quanto perigoso.

Peguei o ônibus e desci em um ponto bem embaixo do Elevador Lacerda, principal elo entre as famosas cidade alta e a cidade baixa de Salvador. Antes de subir, fui conhecer o Mercado Modelo, que fica ali do lado. Depois de dar uma volta pelo mercado, me dirigi ao elevador e subi.

Depois de alguns minutos de fila, entrei no elevador. Cheguei e fiquei um tempo observando a vista da parte de cima da cidade. Fui interrompido depois de levar um susto: Bem no momento em que tirei o celular para tirar uma foto, senti algo sendo colocado no meu braço: Era uma pulseirinha do Senhor do Bonfim.

Um dos ambulantes me viu por ali dando pinta de turista e me deu esse “presente”. Fiquei um pouco encanado com isso, minutos antes fiquei sabendo que essa é uma das táticas para marcar quem é turista por lá. Comecei a conversar com ele, percebi que não era nada demais, ele só queria que eu comprasse um de seus artesanatos.

Elevador Lacerda e a vista da cidade alta

Consegui despistá-lo e entrei ali pela esquerda, na região onde a maioria das pessoas estavam se dirigindo: O caminho para o Pelourinho. Logo nos primeiros passos tive uma ótima surpresa, encontrei o Marcelo, que conheci quando passei por Arraial. Mais um reencontro da estrada. Ele estava tocando violão na rua, apresentando a sua arte para os turistas. Parei, conversamos rapidamente e segui meu caminho.

Lembro que o Marcelo estava tocando a famosa música do BaianaSystem: Duas Cidades. Não só essa música, mas o álbum inteiro da banda traz muitos traços da cultura de Salvador de um modo bem alternativo, aliás, a banda é referência nesse cenário para os soteropolitanos, mostrando que a Bahia também tem espaço para todos os estilos musicais.

Falando em cultura, história e afins, descobri lá que Salvador é a capital do Brasil em que a maioria da população é negra, algumas fontes dizem, inclusive, que é a maior cidade negra fora da África. Em toda a minha estadia na capital procurei refletir muito sobre isso, em alguns momentos lembrei da minha viagem à Africa do Sul, lá a maioria da população é negra, mas percebe que os brancos são os mais privilegiados… 

Caminhar e conhecer o Pelô foi algo que me agradou muito, eu olhava para cada detalhe, cada rua, sempre queria saber o que tinha em cada canto. Encontrei desde as casas mais bonitas, até os botecos mais simples. Alguns lugares me atraiam pela sua música ambiente, tem para todos os gostos. Sem dúvida, um dos lugares mais democráticos que passei por esse Brasilzão.

“Ah, mas é perigoso!” Realmente, não é o lugar mais seguro que já passei na vida, mas calma, não é por isso que você deve deixar de visitar, caso esteja em Salvador. Achei as ruas bem policiadas e como é um lugar que atrai turistas, percebe que há uma consciência de que não se pode espantá-los. Quando for até lá, apenas ande atento e não ande pelas ruas desertas ou que faça se sentir inseguro. Ao invés de pensar assim, aproveite e curta toda a magia do lugar. 

Caminhei até Santo Antonio Alem do Carmo e voltei até o coração do Pelourinho, entrei na Fundação Casa de Jorge Amado, a entrada estava gratuita nesse dia. Aproveitei e conheci um pouquinho mais da história dele.

O Pelourinho estava lotado, cheio de recifenses com a camisa do  Sport, o povo aproveitou para dar uma turistada antes do jogo. Apesar de toda a rivalidade que o clima da final trazia, o clima era bem amistoso entre eles e os baianos.

Andando pelo Pelourinho
Um pouco mais do Pelourinho

Fiquei ali até cansar! No fim da tarde voltei para a Barra de ônibus. Pela noite deu até para assistir um pedaço do jogo com o Zé Carlos, outro fanático pelo Bahia. Chegou uma hora que não aguentei de sono e fui dormir, acordei no outro dia com a notícia de que o Bahia tinha sido campeão, fiquei feliz, estava torcendo!

Eu até cheguei a cogitar assistir o jogo no estádio, mas os ingressos estavam um absurdo de caro.

Andando de ônibus em Salvador

Conhecer a Igreja do Bonfim também era uma das minhas vontades em Salvador, eu tinha muito para agradecer, principalmente por tudo que tinha acontecido até aquele momento. Eu precisava amarrar as minhas fitinhas naquele santuário de pedidos e agradecimentos.

Logo pela manhã, no hostel, conheci o Antonio, staff que tinha recém chegado das férias. Muito gentil, tinha uma conversa boa e fez questão de me indicar o ônibus certinho para chegar até lá.

Lembro até que um dia ele faz a seguinte observação sobre mim: “Mas você gosta de bater perna hein?!” Eu ri muito! Realmente o que eu mais fiz em Salvador foi ficar na rua. Conhecer diferentes lugares da cidade era a minha prioridade nos dias que tinha reservado para desfrutar da capital baiana. 

Praticamente 90% dos meus trajetos por lá foi andando de ônibus. Foi muito bom para entender um pouco de como é a rotina do soteropolitano. Deu para ver com meus próprios olhos as dificuldades e as curiosidades que aparecem no meio do caminho daquele dia a dia bem corrido.

Me lembro como se fosse hoje a quantidade de ambulantes que entravam pela porta de trás do ônibus para vender tudo quanto é tipo de coisa, desde água mineral até escova de dente. Lembro também do quanto alguns passageiros se incomodavam muito com isso.

No caminho até o Bonfim, um deles chegou a dar uma “lição de moral” na cobradora, pois achou que ela foi grossa com ele em alguns momentos. As palavras dele eram pesadas, um tom de ameaça utilizando a palavra de Deus, algo totalmente sem sentido. Ela nem deu atenção…

Aliás, no meio do caminho, ela começou a cantar uma canção evangélica bem alto, sem qualquer medo de nenhum tipo de preconceito ou julgamento, como se estivesse somente ela no ônibus. Fiquei observando, admirando aquele momento só dela. Parei de prestar a atenção só quando alguém bateu no meu ombro e disse: É aqui o ponto do Bonfim!

Desci e caminhei até a igreja, de longe já dava para ver o sinal de fé ao seu redor: Muitas fitinhas amarradas, principalmente no seu portão. Fiquei tentando imaginar o quanto aquilo representava em pedidos… Impossível querer dimensionar ou chutar um número.

Comprei um maço de fitinhas de uma ambulante e entrei na igreja, lá dentro fiz meus pedidos e agradecimentos, depois sai amarrar minhas fitinhas. Parei por um tempo, observei a igreja, outras pessoas me pediam para tirar fotos suas, pedi para tirarem fotos minhas também e depois segui o meu rumo com um pouco mais de leveza.

Eu no Bonfim.

Do Bonfim até a Ribeira

Depois de passar um tempo na Igreja do Bonfim, resolvi conhecer o bairro da Ribeira, que fica na parte da cidade baixa de Salvador. Ouvi falar de lá por sugestão da Clara e já que estava perto resolvi dar um pulo lá.

Desci algumas ruas, fiquei um pouco preocupado, o lugar estava muito deserto e tranquilo demais. Cheguei na orla da praia que margeia o bairro e caminhei por boa parte dela. Segui caminhando com uma tranquilidade sem tamanho, fiquei tão admirado com aquele lugar que sequer tirei o celular do bolso para tirar uma foto.

A muvuca da cidade grande não se fazia presente, nem parecia que estava em Salvador. No caminho vi muitos barquinhos de pescadores e uma paisagem que me lembrou muito alguma praia que já passei, mas não lembrava ao certo qual era, talvez a orla do Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa em Floripa, não sei.

Estava distraído e quando menos esperei, já tinha chegado ao meu destino final: A sorveteria Ribeira. Tinha pesquisado e vi que era uma das mais famosas da cidade, inclusive boa parte da fama do bairro é devido a ela.

Pedi meu sorvete, o atendente me sugeriu o sabor de tapioca, um dos mais vendidos. O sorvete realmente é muito bom, percebe-se que tem uma boa qualidade com um toque tradicional, sem ter uma pegada gourmet.

Na batida do Olodum

Caminhei alguns quarteirões até encontrar uma estação de ônibus, onde tomei um deles até o Pelourinho. Desde o dia anterior, prometi que voltaria lá sempre que pudesse.

Cheguei e resolvi fazer mais um tour pelas suas ruas, já estava andando a vontade por lá. Tão a vontade que nenhum ambulante me abordava mais, minha cabeça gostava da ideia de que eu não parecia mais um turista. Após passar mais uma tarde (re)descobrindo aquele lugar incrível, resolvi que era a hora de ir embora.

Porém, do nada aconteceu algo que mudou a minha decisão. Ao passar pela praça central vi que alguns membros do Olodum estavam com algumas caixas para fora da sua sede, arrumando, dando um retoque na pintura tal. Então, perguntei para um deles se ia ter alguma apresentação, a resposta foi positiva. Haveria uma apresentação na rua em  comemoração à cultura africana, se não me engano.

Obviamente que eu não iria perder essa! Ver o Olodum era outra vontade, mas tinha desanimado da ideia depois de saber que o ingresso para ver o seu ensaio ao vivo não era tão barato. Fazer aquela pergunta antes de ir embora foi uma das decisões mais acertadas que tomei em Salvador!

Pelourinho movimentado e o Olodum se preparando para a apresentação.

Naquele dia ainda fui presenteado com mais um reencontro da estrada, que já estavam vindo gratuitamente agora, sem pedir licença: Encontrei a Clara (De BH e Boipeba), junto com a Bri (Itacaré e Barra Grande) e uma galera que estava em Boipeba, eles pararam por lá antes de seguir para a Chapada Diamantina. Bom demais revê-los.

Depois de um bom papo com eles resolvi ir direto para a concentração de onde o Olodum sairia. Eram algumas ruas acima da rua em que fica a sede do grupo. Cheguei e fiquei só observando, tirei algumas fotos e quando começou, ninguém mais ficou parado, que energia incrível!

Jamais imaginei que um dia estaria acompanhando o Olodum pelas ruas do Pelô, aquilo é pura alegria em um carnaval fora de época. Fiquei impressionado com o profissionalismo da apresentação, além da organização que garante que tudo saia muito bem.

Não faço ideia de como é o processo para fazer parte do Olodum, mas creio que não deva ser fácil, por um momento quis fazer parte daquele espetáculo… O Pelourinho estava fervendo! Fiz todo o trajeto caminhando lado a lado com eles e curtindo aquele som. O movimento continuo até chegar no ponto final que era a própria sede do Olodum, o show continuou pelo resto da noite.

Concentração do Olodum

O padre no samba

O último dia em Salvador passou muito rápido. Passei a manhã na praia da Ponta da Barra, passei um dia agradável tomando cerveja, comendo acarajé, além da boa conversa com o tiozinho que me vendeu a cerveja.

No fim do dia fui para o farol tentar ver o pôr do sol, infelizmente o dia estava nublado e as nuvens não deixaram, apesar disso valeu demais vista do último dia de estadia em Salvador chegando ao fim.

Pela noite, combinei de rever a Clara e a Roberta, que me deram carona saindo de Caraíva, lembra? Encontrei a Clara no Barra Shopping e de lá pegamos um Uber para Santo Antonio Além do Carmo. Estava tendo um samba dos bons na rua mesmo, perto da igreja.

Tomamos uma cerveja em um barzinho qualquer, a Clara me mostrou um pouco da vida noturna naquela região e logo fomos para a praça onde estava tendo o samba, encontramos a Roberta por lá. Foi muito bom revê-las e ainda de quebra conhecer o marido da Roberta. Passamos uma noite muito boa, assim como dizem os argentinos: “cerveza, buena música, buena gente e buena onda.”

Samba lotado em Santo Antônio Além do Carmo

A roda de samba foi incrível, até o padre da igreja fez questão de participar, era um dos mais animados. No fim, fez questão de pegar o microfone e proferir algumas palavras, incentivando todos a comparecer sempre por ali.

Para mim ficou a sensação de aquilo de fato é a Bahia, terra onde as culturas se misturam, as religiões se conversam, estimulando para que todos se respeitem! Não tinha como encerrar a minha passagem por lá da melhor forma.

Aquela selfie para registrar o reencontro.

Tchau Bahia, até breve…

Acordei cedo no outro dia, peguei um Uber até a rodoviária. Eu não estava muito legal, tive um pesadelo a noite e estava triste por ter que partir, foram 2 meses e meio de Bahia, onde me senti em casa. Naquele momento a estrda me chamava novamente.

Eu sabia que mais lugares incríveis do nosso nordeste estavam a minha espera, mas nem isso consolava o meu momento de tristeza.

Estar em Salvador foi energizante, não tinha como fechar a minha temporada por terras baianas de forma melhor. Hoje, lembro do meu receio antes de chegar ali e vejo que foi pura bobagem. A estrada nos ensina muitas coisas meus amigos!

Na rodoviária, embarquei em um ônibus para Aracaju, estava prestes a pisar em mais um estado brasileiro. Mas minha cabeça continuava na Bahia, desejando que aquela despedida tenha sido somente um “até breve!”

Encerro aqui a minha caminhada pela Bahia. Se quiser conferir todos os posts da minha passagem por lá, basta acessar esse link!

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

2 thoughts on “#18. Cidade alta ou cidade baixa?

  • 9 de May de 2018 at 21:36
    Permalink

    Ahhh que saudade da Baheaaaaa….ler as suas aventuras só me dá mais saudade ainda =)
    beijos coisa linda

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *