#4. Congonhas, não o aeroporto!

O último dia de carnaval começou cedo, não lembro ao certo quais foram as demandas de trabalho entre os períodos da manhã e da tarde. Só me lembro que no fim do dia, fui com o Marco para Engenheiro Correia buscar o Matt, o americano que iria começar a trabalhar de voluntário na fazenda também!

Paramos em um boteco conhecido e sabíamos que o ônibus passaria por lá. Ficamos tomando umas até o ônibus aparecer, que era o mesmo que eu tinha pegado há 15 dias atrás. Logo que ele apareceu, o Marco entrou na sua frente, pediu para parar e chamou o Matt lá de dentro.

Ambos desceram, entraram no carro e voltamos para a fazenda. O Matt era um cara muito gente boa, foi muito legal passar uns dias com ele, pois consegui pegar bem mais segurança no meu inglês, que na minha cabeça estava bem meia boca, mas ele mesmo me falou que estava muito bom.

Ele é chef de cozinha, filho de pai português, nasceu nos EUA e já morou na Espanha e Suécia, trabalhando na cozinha de restaurantes. Sabia falar um pouco de espanhol e por isso, entendia um pouco de português.

Chegando lá, eu expliquei um pouco da rotina da fazenda para ele, principalmente em relação aos afazeres que eram quase que diários, regar as plantas por exemplo.

Finalizamos aquela noite todos na mesa, bebendo e dando altas risadas, principalmente com o Marco e a Maria. O Matt não entendia muito bem as piadas e era um desafio “traduzir” aquilo para ele.

 

A última tarefa

A quarta de cinzas foi bem atarefada. De manhã cortei lenha junto com o Matt para a cozinha e depois recolhemos todas as roupas de cama dos quartos, além de pegar as goiabas que caiam dos pés das goiabeiras para alimentar os porcos, dentre outras tarefas.

Cortando lenha com o machadinho.

O Matt estava a todo tempo junto comigo e trocamos muito ideia, deu para treinar muito o inglês e a todo momento ele queria saber como se falava qualquer coisa em português. Dentre uma conversa e outra, eu perguntava sobre a cultura americana e ele a do Brasil.

Depois do almoço deu para dar uma descansada, aquela sesta de que não pode faltar e depois disso focamos no que eu chamo de: a minha última tarefa braçal na fazenda!

Havia um dos quartos na Pousada, mais especificamente o 1B que o Welerson estava usando de depósito para armazenar algumas coisas lá dentro. Aliás, era muita coisa! Nossa tarefa era desocupá-lo.

Então, fomos lá, eu, Matt e Diogo fazer isso. O Welerson ficou de fora gerenciando e nos falando o que fazer com cada coisa.

Tinha de tudo lá, desde sofá, tapetes, até coisas de enfeite de casamento. Foi um trabalho bem pesado e demoramos umas 3 horas para tirar tudo de dentro, dar um fim para cada uma delas e, finalmente, liberar o quarto.

Apesar do cansaço, foi bem legal de ver o antes e o depois da limpeza que fizemos!

Uma das cenas mais engraçadas do dia foi o Welerson falando português com o Matt, pedindo para fazer as coisas. O mais engraçado ainda é que parecia que em alguns momentos o americano entendia perfeitamente o que era pra fazer sem tradução nenhuma.

O fim da tarde chegou, tomei um banho e aí sim comecei minha última tarefa para a Pousada. Como eu já trabalhei com marketing digital, tentei ajudar de alguma maneira nesse sentido e também foi um pedido do Welerson.

Fiz uma rápida pesquisa das festas que iam ocorrer na região ao longo do ano e ajudei a montar uma estratégia de e-mail marketing. A ideia era divulgar a pousada perto das datas dessas festas para as pessoas que já se hospedaram e queiram voltar para curtir uma delas possam ficar por lá.

 

Pires

Na quinta-feira, levantamos cedo, carregamos o carro do Marco com as coisas para voltar a BH. Iria voltar somente ele e a dona Ludima, sua mãe.

No dia anterior eu pedi carona para que eu e o Matt fossemos visitar Congonhas no último dia de folga que eu iria tirar.

O curioso é que Congonhas nunca esteve nos meus planos de viagem. Decidi visitar a cidade pois fiquei sabendo que estava bem perto e seria um lugar meio fora de mão para visitar depois. Então, porque não?

O bom de viajar a longo prazo é isso, você fica mais disposto a mudar seu caminho conforme as coisas vão acontecendo! Essa foi a primeira mudança que fiz ao longo da viagem!

Pois bem, o Marco ia nos deixar em Pires, distrito de Congonhas, antes de seguir de volta para BH. Então, fomos no carro, eu, Matt, Marco, dona Ludima e um monte de bagagem.

Lembro que a paisagem da estrada era muito bonita, exceto pela exploração que a Gerdau vem fazendo em meio àquela Mata Atlântica: Uma tristeza! Percebe-se que as montanhas estão perdendo a sua forma em meio a exploração sem limites da região em busca de minério!

Foto (meio borrada) da paisagem da estrada, ficou difícil tirar fotos legais pelo movimento do carro.

Enfim, chegamos em Pires, ficamos esperando a lotação que vai para Congonhas em um ponto de ônibus… depois de uns 30 minutos descobrimos que aquele não era o ponto correto. Nos dirigimos, então, para o ponto certo após pedir informação.

Ele estava perto de uma churrascaria, pedimos uma água cada um e a atendente foi muito simpática conosco falando que poderíamos esperar ali enquanto o ônibus não vinha, pois estava muito sol.

A lotação chegou e em menos de 30 minuto já estávamos em Congonhas!

 

Congonhas

Descemos ali na região da prefeitura e já deu para perceber que não tinha muito erro andar pela cidade. Aliás, ela é muito bem sinalizada com as plaquinhas do circuito turístico, muito difícil se perder por lá.

As ruas são bem inclinadas e possuem aquele charme de cidade histórica, todas de pedra com casinhas antigas, bem Minas mesmo!

Uma das ladeiras em Congonhas

 

Nossa primeira parada foi uma das igrejas, que fica no início do circuito, que nem me lembro o nome, depois fomos a um museu lá perto que tinha uma exposição sobre a história de Congonhas. Não ficamos muito tempo por lá, ele até estava interessante, mas não tinha tradução do português para o inglês e achei sacanagem deixar o Matt vendo aquilo sem entender nada.

Subimos toda a ladeira admirando o formato das casas e das construções até chegarmos ao nosso destino principal: o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos.

 

Aleijadinho

O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos é um conjunto arquitetônico, formado por uma igreja principal e 6 capelas, tudo combinando com um espaço bem grande de um gramado muito bonito. Na igreja principal há esculturas dos 12 profetas de Cristo.

Essa é uma das principais obras de ninguém menos que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e foi considerada Patrimônio da humanidade pela UNESCO.

Chegando no espaço onde fica o Santuário

Ficamos um bom tempo por lá admirando o lugar. Passamos por todas as 6 capelas, é muito legal olhar por entre as suas frestas e ver as esculturas, cada uma representa uma parte do caminho de Cristo até a sua crucificação. Andamos até chegar na Igreja Principal.

Uma das capelas vista por fora
Imagem dentro de uma das capelas

A Igreja por fora já é muito linda. As esculturas dos 12 profetas são muito bem feitas e há vários avisos para não degradá-las… para variar tem várias marcas e sinais disso… fazer o que né?!

Finalmente entramos dentro do Santuário e como eu já imaginava, não se pode tirar foto lá dentro. A grande decepção foi no fato dela estar lotada de andaimes devido ao seu processo de restauração. Eles parecem estar ali faz um tempo e pelo visto não sairão tão cedo!

Apesar disso, dá para perceber que o seu interior é muito bonito!

Santuário Bom Jesus de Matosinhos
Eu na porta do Santuário
Uma das imagens dos 12 profetas

Saindo da igreja, circulamos um pouco mais por ali e a achamos uma sala bem interessante com várias fotos e cartas, era um espaço destinado para agradecimentos por graças alcançadas!

A energia do lugar era muito boa! Aproveitei e me concentrei por um momento e agradeci pelos meus últimos dias de coisas novas acontecendo!

 

Museu Congonhas

Depois de passar mais um tempo no gramado ali da Igreja, já estávamos quase voltando, quando lembrei que faltava conhecer um último lugar: O Museu Congonhas!

Descemos uma rua que tinha atrás do Santuário e já dava para avistar o prédio do museu de longe! Por fora já é possível ver que ele é bem grande.

Pagamos R$10 para entrar. O museu é sensacional! Tudo muito lindo, muito bem explicado, tem alguns recursos tecnológicos que ajudam na explicação da exposição e tornam a experiência de quem está visitando muito agradável!

O Museu é totalmente preparado para receber gringos, pois há tradução de tudo para o inglês.

Deu para aproveitar bem o tempo por lá. Conhecemos toda a história do Santuário, entendemos como foi construído em detalhes, inclusive mostrando peça por peça e ferramenta por ferramenta que foi utilizada em sua obra.

Museu Congonhas

 

(Agri)doce

No fim também tinha uma exposição de colecionadores e, para minha surpresa, uma outra exposição que se chamava Agridoce.

Ela foi idealizada em homenagem a tragédia do distrito de Bento Rodrigues em Mariana. É muita coincidência, mas no ônibus indo para Congonhas, horas antes, eu estava comentando sobre o acontecimento com o Matt, que ficou bem espantado com o fato.

Ele queria muito saber como aquilo aconteceu e me fez várias perguntas, acho que consegui explicar bem o pouco que sabia, mesmo em inglês. No mais a exposição é bem criativa e tem potencial para crescer e principalmente conscientizar todos que passam por lá sobre esse triste acontecimento.

Nossa última parada em Congonhas foi na Romaria, depois voltamos descendo a ladeira. Paramos em um restaurante para “almoçar”, pois já era bem tarde.

O Matt estava querendo comer as comidas típicas da região. Então, ele provou tudo que era mineiro no buffet do restaurante e ainda mandou ver em um pão de queijo depois.

Exposição Agridoce
Exposição Agridoce
Exposição Agridoce

 

Conselheiro Lafaiete – Engenheiro Correia

Pegamos o caminho em direção a rodoviária e paramos para comprar uma cerveja no supermercado.

O Matt estava me falando o quanto estava feliz por ser de boa beber na rua no Brasil. Aproveitei e contei para ele do episódio em que estava na África do Sul e que estava bebendo na rua com mais 2 amigos e quase fomos “presos”, pois não pode fazer isso por lá! (Sim, a gente não sabia disso!)

Chegamos na rodoviária e lá esperamos pelo ônibus que iria para Conselheiro Lafaiete, lá pegaríamos outro em direção a Itabirito para desder em Engenheiro Correia. Deu tudo certo, descemos na placa da pousada e caminhamos por mais uns 2 Km até chegar lá.

Na real não sei se o Matt curtiu o rolê, ele me falou que não apreciava muito esse tipo de lazer mas queria conhecer coisas novas.

O mais legal da convivência com ele foi mesmo a questão da troca cultural, fora o aprendizado e o aprimoramento do inglês.

Caminhando até a Pousada da Lavra

Itabirito

E outra despedida estava chegando. No sábado acordei cedo, arrumei minhas coisas, ajudei a arrumar o carro e já comecei a me despedir da fazenda como um todo, dos lugares, da calmaria, dos cachorros e das pessoas: O Seu Zé, José Augusto e o Matt que me agradeceu por ser o seu tradutor dele nesses tempo

Peguei uma carona com o Marco, Welerson e Diogo para Itabirito, eu ficaria na rodoviária e eles seguiriam viagem para Belo Horizonte.

Os dias na Pousada da Lavra passaram muito rápido e me senti muito bem acolhido por lá. Sou muito grato ao Marco e ao Welerson por tudo e, principalmente, pela oportunidade de vivenciar aquele lugar por 15 dias.

Uma pena não termos tirado uma foto juntos, a convivência foi tão boa que realmente esquecemos. Mas depois dessa experiência será difícil esquecê-los e sei que eles não esqueceram de mim. Vira e mexe o Marco me manda mensagem pelo Whatsapp ou Facebook, perguntando como estou epedindo por notícias.

Para quem está querendo trabalhar como voluntário em um lugar de muita paz e com muitos desafios, recomendo muito a Pousada da Lavra, segue o link do host no Workaway.

Jamais imaginaria que em pouco tempo conheceria tantos lugares diferentes, mesmo que seja só pelo nome, só de saber sua existência é algo muito relevante para mim. Os nomes que mais me marcaram ali foram os distritos de Lobo Leite e Santo Antonio do Leite e as cidades de Conselheiro Lafaiete e Itabirito.

Em relação ao vocabulário, a palavra “garrado” também foi uma descoberta. Ela significa que é algo muito lento. Exemplo: Hoje o ônibus ta garrado!

 

Agora que você já sabe como foi a minha despedida da Pousada da Lavra, o que acha de ler o post em que conto sobre a minha experiência de voluntariado por lá?

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

4 thoughts on “#4. Congonhas, não o aeroporto!

  • 31 de August de 2017 at 13:30
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    Olha Matheus, perfeito, deu até saudade, olha o Hans morreu, foi muito triste para nós, abçs

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  • 3 de September de 2017 at 11:06
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    Filho continua muito interessante estas suas postagens… Beijos e continue assim…Mãe e Pai… Te amamos muito…. e aproveitando adiantado Feliz Aniversário!!!!!!

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