#21. Meditando no Rio São Francisco

Lá pelas 5 da manhã já estava seguindo meu caminho estrada afora novamente, indo embora de Piranhas. A saudade já tomava conta de mim, mas o sono foi maior e, mesmo contra a minha vontade, me forçou a dormir.

Durante o trajeto até Arapiraca acordei diversas vezes, principalmente quando a van parava nos terminais para deixar e pegar mais passageiros. Eu não entendia nem um pouco como funcionava esse esquema do transporte entre as cidades do Alagoas, mas nem me preocupei muito com isso também, tinha em mente que sempre chegaria onde quisesse.

Já era quase 8 da manhã e eu acordei de vez, só pensava em como os últimos dias foram bons e queria muito que tudo continuasse assim, só que passando um pouco mais devagar. Observava a estrada com um pouco de ansiedade, até que finalmente cheguei na cidade, quando percebi já estava na rua de novo.

Paraquedista por 1 dia!

Finalmente estava em Arapiraca, a cidade em que conhecia somente pelo time de futebol, o ASA de Arapiraca, que ficou famoso por eliminar o Palmeiras na Copa do Brasil há alguns anos atrás. Eu como bom corintiano, não esqueço desse episódio.

O terminal que cheguei ficava bem no centro da cidade. Então, as minhas lembranças são somente da correria de um espaço urbano muito movimento como qualquer outro, durante o caminho, percebi que subiam pessoas das cidades vizinhas para resolver alguma questão em Arapiraca, creio que voltavam no mesmo dia para casa, o famoso bate e volta.

Quando cheguei, estava praticamente sem nenhum real no bolso. Fui até um lugar em que vi alguns mototaxistas, minha ideia era pedir para algum deles me levar até o banco para sacar dinheiro. Afinal, não sabia se conseguiria fazer isso em Penedo, meu próximo destino.

Fui surpreendido positivamente com a honestidade deles, que me disseram que eu não precisava pagar por nenhuma corrida, tinha uma agência a alguns quarteirões ali por perto. Ótimo! Agradeci pela informação e caminhei até encontrar o banco e saquei dinheiro suficiente para os próximos dias.

Voltei ao terminal e esperei a próxima van para Penedo. Ela chegou e logo quando entrei fui indagado por outro passageiro: “O senhor é paraquedista”? Cai na risada! Ele me perguntou isso porque viu o tamanho da minha mochila. Ele disse que tinha um primo que era paraquedista e o equipamento era praticamente igual. Fiquei pensando que até que não seria má ideia experimentar um salto de paraquedas qualquer dia desses…

Expliquei a ele que estava viajando por um longo tempo e, então, estava carregando tudo que precisava para sobreviver por esse tempo indeterminado. Continuamos a conversando até que a estrada prendeu a nossa atenção, dando vez ao silêncio. Às 11 da manhã já estava caminhando por Penedo.

Cultura portuguesa… espanhola… inglesa… holandesa

Cheguei na rodoviária e caminhei por poucos metros até encontrar um supermercado, estava com fome. Lá, deixei minhas coisas no guarda-volume e comprei algumas frutas para comer. Agora, de barriga cheia, resolvi caminhar um pouco pela cidade e me habituar com as suas ruas, caminhos, além da vista para o Rio São Francisco.

 

Caminhando por Penedo
As lindas ruas da cidade.

Depois de um tempinho andando, o Alan deu sinal de vida, respondendo minha mensagem no Whatsapp. Ele foi mais uma boa alma que me hospedou nessa viagem via rede do Couchsurfing. O Alan é estudante da UFAL, faz engenharia de pesca, mora junto com o Tadeu, que faz engenharia de produção na mesma faculdade.

Os dois me receberam muito bem, abriram a sua casa para que eu pudesse conhecer um pouco mais daquele lugar cheio de cultura e história. O Alan mesmo se propôs a me mostrar a cidade naquela tarde e me levou, principalmente, para ver uma parte mais histórica, recheada de arquitetura de diversos países: Portugal, Inglaterra, Espanha e Holanda.

Igreja
Outra igreja…

Muito legal que essas construções continuam tão bem preservadas, se não me engano, elas estão presentes na cidade desde o século 16 ou 17.

Ao todo passei 2 dias inteiros em Penedo, andei muito pelas ruas daquela cidade, meus olhos não se cansavam de ver aquelas casas diferentes, as igrejas e, apesar de ser uma cidade um pouco menos tranquila que a parte histórica de Piranhas, o Velho Chico dá um toque especial para aquele espaço urbano.

Pela noite, o rolê era praticamente comprar um vinho ou cerveja e ir para o ponto mais alto da cidade, observar o Velho Chico do alto, além de ficar trocando ideia com o Alan, o Tadeu e alguns de seus amigos.

Uma das casas que mais me chamou a atenção…
Caminhando pela cidade
Praça
Velho Chico em Penedo

Piaçabuçu

No último dia, peguei uma van até Piaçabuçu, cidade quase que vizinha de Penedo e onde fica a foz do Rio São Francisco. Conhecer o encontro das águas do Velho Chico com o mar também me interessava muito e era um bom motivo para estar ali.

Depois de 30 minutos de viagem, cheguei. O dia estava levemente chuvoso, caminhei pela cidade até chegar nas margens do rio, comecei a andar, procurando por pessoas que ofereciam o passeio de barco até a foz. Conheci alguns pescadores e fiquei conversando com eles por um bom tempo.

Barcos em Piaçabuçu

Infelizmente a época de chuva não estava nem um pouco favorável para Maceió e região, todos ali estavam sendo castigados pela frequência alta das tempestades, o que resultou em muitos desastres naturais e pessoas desabrigadas.

Obviamente que isso matou grande parte do turismo naqueles dias, mas ninguém sabia que em Piaçabuçu o cenário era outro, estava tranquilo, as chuvas não afetaram a cidade e também não comprometeu a possibilidade de conhecer a foz. O fato é que, quando cheguei, a procura pelo passeio tinha diminuído muito.

Ou seja, estava lá eu sozinho, esperando por pessoas para dividir um barco. Aproveitei esse tempo para conversar ainda mais com os pescadores e ouvir o que eles tinham a dizer sobre o seu trabalho, a percepção de cada um sobre a falta de peixes no rio. Foi quase que uma aula de algo que eu conhecia muito pouco.

Até que em algum momento um deles me falou que o seu pai poderia me levar para a foz por um preço mais em conta. A princípio eu não queria ir sozinho, por diversos motivos: Pelo custo, pela companhia, por querer conhecer gente nova, etc. Mesmo assim, resolvi não perder a viagem e fui. Horas mais tarde, pensei que foi a melhor coisa que aconteceu!

Primeiras imagens da natureza ao redor do Velho Chico

Meditando no Rio São Francisco

O meu condutor era o seu Antonino, pescador das antigas ali de Piaçabuçu. Hoje, o seu trabalho era somente levar as pessoas até a foz do São Francisco. Um homem calado, não era de muita conversa, mas mesmo assim conseguia ser simpático, do seu jeito.

Aquela, definitivamente, foi uma tarde para massagear a mente e renovar energias! Fiquei imobilizado com tanta beleza presente no trajeto do rio até finalmente chegar a sua foz, mesmo barrenta por causa da chuva, as águas do Velho Chico parecem ter algo que prendem a atenção e a vegetação em volta deixa tudo ainda mais lindo.

Quase chegando…

Depois de me levar até a foz, o seu Antonino voltou alguns metros e estacionou o barco nas margens do rio, me disse que poderia ficar o tempo que quisesse ali. Enquanto ele descansava em uma barraquinha por ali, me alertou e pediu para evitar entrar na parte de mar, disse que não era seguro, era muito agitado!

Comecei caminhando pelas dunas que se formaram ali perto do rio e depois cheguei bem no ponto onde ele some e vira mar (ou é o mar que vira rio?) Resolvi obedecer às recomendações e não tomei banho de mar, mas fiquei um bom tempo sentado e observando, vendo aquilo com os meus próprios olhos.

Na foz do Velho Chico!

Depois disso, voltei e passei o resto do dia no rio, tomava banho de água doce, alternando com as piscinas naturais que se formavam ali por perto. Antes de ir embora, tomei um último banho no rio, este com a intenção de me libertar de tudo que algum dia me deixou angustiado.

No trajeto de volta para Piaçabuçu, relaxei e senti esse processo acontecendo no meu interior, eu estava meditando sobre as águas do Rio São Francisco. As vezes me pego imaginando novamente essa cena.

Eu sentado bem na parte da frente do barco, observando o rio e a vegetação, o barulho do motor do ajudava a acalmar minhas. De repente, senti que um fardo muito grande tinha saído das minhas costas, eram as coisas do passado que ainda me incomodavam por algum motivo, inclusive, das que estavam relacionadas ao pesadelo que tive antes de ir embora de Salvador.

Pelo jeito, o banho com intenção deu muito certo! Voltei outra pessoa, renovado pelas águas do São Francisco. Agradeço até hoje ao rio e a natureza por esse momento, tornaram meus dias futuros muito mais leves.

De volta ao litoral

O fim de semana tinha chegado, já era sábado de manhã quando me despedi do Alan, Tadeu e a cidade de Penedo. O ciclo da viagem pelo Rio São Francisco chegou ao fim, deixo registrado aqui a minha gratidão a todo o caminho que fiz ali na base do estado de Alagoas e todas as coisas e pessoas boas que fizeram presentes nesses dias.

Eu não sabia muito bem para onde ir, eu só queria voltar para o litoral, a saudades do mar já apertava. Então, lembrei da recomendação do dono do hostel que fiquei em Aracaju: Praia do Francês.

Olhei no mapa e notei que a praia era relativamente perto de onde estava. Peguei uma van na rodoviária que me deixou em um trevo da cidade de Marechal Deodoro. De lá caminhei até a orla da praia…

E aí, gostou do post? Aproveita e curte a página do blog no Facebook 😉

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *