#19. Nos arcos do Atalaia

Mais uma vez, estava eu na rodoviária de Salvador, a terceira passagem em duas semanas. Agora estava me despedindo da capital e do nosso querido estado baiano. Me lembro como se fosse hoje, a sensação era a mesma de estar indo embora de casa rumo a um destino incerto.

Sair da Bahia foi mais difícil do que imaginei que seria. Mas, bola pra frente, estrada que segue, temos que ser feliz em outros lugares também! Entrei em um ônibus rumo a mais um estado brasileiro desconhecido até então: Sergipe. A cidade escolhida foi outra capital brasileira: A tranquila e aconchegante Aracaju.

Não consigo me lembrar muito de como foi exatamente o caminho entre as duas cidades, só me recordo que estava chovendo muito. Com certeza essa foi uma das piores viagens que fiz na vida. Não pela estrada, pelo ônibus ou pelo destino…

Foi um conjunto de fatores: Tive um pesadelo bem pessoal na noite passada, junto com o sentimento triste de deixar a Bahia para trás e, para ajudar, não consegui comprar um assento na janela, viajar no corredor foi horrível, não conseguia ver nada da estrada! No meio do caminho somente desejei que aquela viagem acabasse logo!

Finalmente o longo caminho chegou ao fim, já eram 4 e meia da tarde de um sábado. Tinha chegado na rodoviária nova de Aracaju. Peguei minhas coisas, caminhei poucos metros e já estava no terminal de ônibus.

Esperando o ônibus

Atravessei a catraca do terminal, me informei sobre qual ônibus tomar para chegar em Atalaia e fui esperar em um banco. Era lá que ficava uma das praias da cidade e onde está o Anauê hostel, lugar que escolhi me hospedar.

A espera foi longa, parece que o relógio parou por um bom tempo. Enquanto isso, eu tentava processar mentalmente tudo que tinha acontecido em mais de 3 meses de estrada. Fui “interrompido” muitas vezes pelas pessoas que me pediam dinheiro dentro do terminal.

Fiquei muito espantado e triste ao ver toda essa situação. Em alguns momentos eu não tinha um minuto de sossego, chegava um atrás do outro pedindo ajuda. O que mais me marcou é que a maioria deles não fazia o mínimo esforço em tentar me convencer, chegavam de forma direta, pedindo 50 centavos ou 1 real.

Realmente muito triste, ainda mais para mim que não estava nos melhores dias, ver a situação de vulnerabilidade daquelas pessoas ali não foi legal.

Nos arcos do Atalaia

Enfim o ônibus chegou e me deixou lá no terminal do Atalaia. Aracaju pareceu ser uma cidade tranquila, acho que ganha facilmente o status de capital com cara de interior. Caminhei pelas ruas do Atalaia até encontrar o hostel.

Ao chegar, perguntei se tinha vaga e fui prontamente atendido pelo Júnior e o Tomás. Aliás, o Anauê é um dos hostels com melhor infraestrutura que já frequentei, super recomendo a hospedagem para quem quiser conhecer a capital sergipana.

Troquei algumas ideias com eles sobre o que poderia fazer por lá naquele dia. Eles me sugeriram conhecer a região do Atalaia, caminhar pela orla da praia e pela passarela do caranguejo.

Eu estava decidido a ficar somente 1 dia por lá, meus pensamentos estavam totalmente afetados por não estar em um dia bom, além do cansaço da viagem. Para ajudar, a chuva continuava… Sem dúvida alguma, hoje eu faria totalmente diferente, teria dado mais tempo para conhecer Aracaju, com mais calma e ver todas as possibilidades do que fazer por lá.

Considero como mais um dos aprendizados que a estrada me proporcionou: Não tomar decisões de cabeça quente ou quando não estou no melhor do meu estado emocional.

Depois de comprar um lanche rápido no mercado para matar a fome, fui para a rua, andei por boa parte da orla da praia, parei por um tempo e fiquei admirando um dos pontos turísticos da região: Os Arcos do Atalaia. Um monumento muito bonito e um dos cartões postais da cidade.

Gostei bastante também de encontrar várias estátuas que representam algumas personalidades brasileiras e sergipanas.  Depois de caminhar até escurecer, voltei a hostel, tomei banho e fiz um skype com meu pai e minha mãe. Acho que foi a primeira vez que conversamos por vídeo para matar a saudades.

Arcos do Atalaia

Passarela do Caranguejo

Descansei um pouco mais e a noite chegou. Resolvi, então, caminhar pela passarela do Caranguejo, uma das ruas mais movimentadas da parte turística da cidade, com vários bares e opções de restaurantes. Achei um deles com música ao vivo do lado e um preço bom de cerveja.

 

Passarela do Caranguejo

Aproveitei e experimentei o caranguejo pela primeira vez. Uma aventura! Até que gostei da carne, me lembrou um pouco da lagosta. O fato é que, eu, definitivamente, fui um desastre comendo aquilo. Fiquei um tempão para terminar…

Experimentando a carne do caranguejo.

Aquele momento foi muito bom para relaxar, uma noite bem agradável. Notei a presença de muitos casais e famílias na rua, me pareceu que a cidade atrai turistas com esse perfil. Sai do restaurante e comecei a caminhar pela orla da praia, parei novamente nos arcos do Atalaia, sentei, tentei colocar algumas ideias em ordem e continuar o meu processo de reflexão sobre os próximos passos.

Até que o cansaço bateu forte e o sono veio! Eu precisava descansar. Voltei ao hostel e fui dormir!

Rumo à Piranhas

Era domingo, acordei cedo e tomei um ótimo café da manhã. Estava muito bom e completo! Antes de ir embora resolvi dar mais uma caminhada pela orla da praia de novo. Passei novamente pelos pontos turísticos com mais calma, dessa vez deu para ver a lagoa e o oceanário.

Estátuas das personalidades brasileiras.

 

Lagoa

Minha cabeça estava bem melhor que no dia anterior, mas ainda tinham coisas que me incomodavam. Eu precisava ir para um lugar que me sentiria mais tranquilo. No fundo, eu sabia que minha próxima parada, Piranhas no Alagoas, me traria essa paz — Já tinha estudado alguns relatos da cidade e era um dos locais que mais queria conhecer naquele momento.

Peguei as minhas coisas e fui parar na rodoviária velha de Aracaju. De lá, peguei um ônibus para a cidade de Canindé de São Francisco, lado sergipano da divisa do estado com Alagoas. Cheguei lá por volta das 5 ou 6 da tarde. Nessa, eu tirei outro aprendizado: Não viajar de domingo. Afinal, em muitas cidades brasileiras esse é o dia de descanso, principalmente para quem trabalha de segunda a sábado.  

Obviamente que fui guiado pela ansiedade e ao chegar lá, a única opção de transporte para chegar até Piranhas era pegar um táxi. Conversei com o taxista e ele me faria o preço de R$35. Ok, para quem já economizou tanto até lá, não tinha problema gastar um pouco a mais dessa vez e também não tinha muita alternativa, queria chegar ao meu destino o quanto antes.

Coloquei minhas coisas no táxi e fui ao banheiro, estava apertado. Quando voltei, tinham 2 nativos de Piranhas ali dentro do táxi. Achei ótimo o fato de poder dividir a corrida. Cruzamos a divisa entre os 2 estados e o taxista deixou os 2 na parte central da cidade. Depois disso, ele me perguntou onde eu ficaria, eu disse que queria ir para a parte histórica da cidade, ali perto de Piranhas de baixo.

Nesse momento eu percebi que ele ficou um pouco perdido e sem graça, perguntou algumas vezes se eu era pesquisador ou historiador, eu falei que era apenas um mochileiro curioso pelo nosso país. Até que ele tomou coragem e me falou que tinha passado o preço errado da corrida, ele achou que eu ficaria na parte central da cidade, que é muito mais perto da onde estávamos.

No fim, consegui negociar com ele e pagar os R$35, pedi para ele descontar o valor que cobrou dos 2 nativos da corrida total e ficou elas por elas. Sem problemas, não queria me estressar com aquilo. Quando menos percebi, já era noite e eu estava caminhando no escuro pela parte história de Piranhas, finalmente fiquei em paz!

A passagem por Aracaju fui curtíssima, a vontade de voltar e conhecer melhor a cidade permanece em mim até hoje. Um dia voltarei! Apesar disso, assim como todos os lugares que tive a oportunidade de passar, a capital sergipano me trouxe muitos aprendizados, levei todos eles comigo e pude aplicar nos próximos dias de estrada!

Falando em aprendizado, o que acha de ler sobre o que eu aprendi viajando sozinho?

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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