#23. O Caribe brasileiro

Depois de sair logo pela manhã da praia do francês e passar por Maceió, no começo da tarde já estava na tão desejada São Miguel dos Milagres. A primeira impressão da cidade foi muito boa: lugar tranquilo, pacato, cidade de uma rua principal (que era pequena), uma pracinha, uma igreja e várias casinhas.

Em pouco mais de uma semana no Alagoas, tinha a impressão de que São Miguel dos Milagres chega a ser um lugar desconhecido até para os próprios nativos do estado. Depois de Piranhas, esse era o lugar que eu mais queria conhecer por ali, então, sempre que tinha a oportunidade, tentava puxar assunto sobre esse “paraíso escondido” com algum alagoano.

Para a minha surpresa, a reação da maioria deles era de total desconhecimento, apenas um ou outro conhecia ou já tinha ouvido falar. Em alguns casos, me deparava com expressões faciais que denunciavam o pensamento da pessoa, algo mais ou menos assim: “o que esse maluco tá falando? Será que ele não tá perdido não?!”

Brincadeiras a parte, estava eu em São Miguel dos Milagres agora, vendo com meus próprios olhos que não estava sonhando, nem delirando, a cidade e a praia existem e vale muito a pena conhecer!

Chegando em São Miguel dos Milagres

Um presente da sorte!

Mal tinha chegado, descido da van e já recebi um presente da sorte. Estava bem de frente para um restaurante com uma pousada em cima. Entrei e perguntei se havia vagas para uns 2 dias, o dono me respondeu positivamente e me fez um preço muito bom, exatamente o que estava disposto a pagar.

Eu sabia que, geralmente, hospedagem em São Miguel costuma ser um pouco mais cara que o normal. Infelizmente ou felizmente ainda é um lugar pouco conhecido, não há uma grande variedade de pousadas na cidade, hostel nem pensar! Não é uma regra, mas normalmente quando falta opção, tudo costuma ser mais caro.

Então, eu já estava preparado para ter que me esforçar bastante para encontrar algo mais em conta, além de já me acostumar com a ideia de ter que elevar um pouco o valor que estava disposto a pagar por um quarto. Como eu queria muito conhecer aquela praia, pagar R$10 ou R$20 a mais não seria problema.

Era “baixa temporada” e a época de chuva estava atrapalhando o turismo naqueles dias, consegui pagar R$50 por dia pelo quarto. Fiquei feliz não só com o preço, mas principalmente com tempo que ganhei em não precisar procurar outro local pelo resto do dia. Já deixei minhas coisas no quarto e comecei a me arrumar para partir para a praia.

O Caribe brasileiro

Lembro que depois de me arrumar, desci até o restaurante e tive uma conversa breve com o dono da pousada, que me passou algumas dicas e orientações sobre as praias que poderia conhecer. Ele comentou que a praia de São Miguel dos Milagres era o verdadeiro Caribe brasileiro.

Bom, eu nunca estive no Caribe, só conheço por fotos, mas hoje se tivesse a missão de eleger um lugar com a água mais cristalina que eu já vi na vida, não pensaria duas vezes: São Miguel dos Milagres.

Cheguei na praia e “Nossa!” — Foi exatamente isso que pensei! Que coisa linda! Realmente merece ser comparada com a praia que é referência mundial. A praia estava deserta, sem ninguém, fiquei o dia todo observando e tomando banho de mar. Naquela tarde o meu “problema” estava em decidir qual seria a melhor maneira de desfrutar do local: dentro ou fora da água?

Chegando na praia…

Lembro que o dono da pousada ainda teve a coragem de me falar que a cor da água não estava 100%, que estava escura por causa das chuvas intensas dos últimos dias. Eu, na minha ignorância, nem conseguia imaginar algo mais claro que aquilo.

Caminhei até um ponto que tinha uns coqueiros, fiquei por um tempo e depois caminhei para o outro lado. Fiquei andando, trocando de lugar de tempos em tempos até anoitecer. Realmente, é mais um paraíso escondido nesse país e eu nem notei a tarde passar.

Mais uma da Praia de São Miguel dos Milagres

Obviamente que na minha cabeça, eu elegi como a praia mais linda que tinha visto na vida. Hoje, depois de passar por tantas outras não consigo dizer qual delas é, cada uma tem as suas particularidades que tornam especial, mas quando me perguntam de uma praia bonita, São Miguel dos Milagres é uma das primeiras que me vem à cabeça.

Pela noite fiquei andando pela cidade, comi um pastel na praça, tomei umas cervejas e esperei a noite passar naquela vida gostosa de cidade pequena de interior, era somente eu e o movimento quase que nulo da cidade.

Fim da tarde no Caribe brasileiro

Fim de tarde no mirante!

Depois de uma boa noite de sono, levantei bem cedo, tomei um café da manhã muito foda no restaurante. Acho que aquele foi de fato a primeira refeição matinal que tomei com uma pegada mais nordestina: tinha cuscuz, carne seca, macaxeira, farofa, etc.

Com aquela refeição, eu nem precisei almoçar. Vamos lá então, aproveitar mais um dia de paraíso. A minha ideia era fazer uma boa caminhada pela areia até chegar na praia do Patacho, que ficava há alguns quilômetros de São Miguel dos Milagres, sentido Porto de Pedras.

Caminhando pela praia

Comecei caminhando lentamente, queria aproveitar cada pedaço de areia, às vezes parava, descansava, entrava na água… Quando cheguei na metade do caminho aconteceu algo “não planejado”, há um rio no meio do caminho que “corta” a faixa de areia até chegar no mar, aparentemente, em dias normais, é tranquilo atravessá-lo para continuar a caminhada.

Porém, pelo excesso de chuva nos últimos dias, esse trecho estava muito cheio, não conseguiria atravessar se não fosse nadando. Como eu estava levando algumas coisas comigo, dentre elas, o meu celular e carteira, não tinha como passar sem molhá-las.

Então, tive que abortar esse plano! Por um momento fiquei um pouco triste e decepcionado por não poder conhecer a praia do Patacho. Depois de uns 5 minutos de lamentação, resolvi parar de besteira e aproveitar aquele paraíso que me restava ao meu redor. Tem coisas que fogem do nosso controle e lidar bem ou mal com a situação é apenas uma questão de escolha. E a praia do Patacho? Essa vai ficar para uma próxima visita!

O rio que me impediu de seguir em frente…

Continuei a caminhada, agora voltando para São Miguel, aquelas águas pareciam algo mágico. Por um momento tentava me concentrar em achar o ponto do mar em que a água mudava de tonalidade. Em algumas partes do caminho a faixa de areia era enorme, dava para correr para o mar e voltar.

Naquela caminhada notei que havia pessoas hospedadas em alguns hotéis ou resorts mais afastados da cidade. Ou seja, tinha algumas poucas companhias sem contar os habitantes da cidade.

É ou não é o paraíso?

No fim da tarde, já na cidade, fui até o mirante para ver a vista do dia indo embora, dando lugar a uma noite muito estrelada. Subi um morro atrás da igreja e fiquei esperando aquilo acontecer. Meus olhos se encheram de alegria com aquela vista incrível!

Vista do mirante!

Festa na cidade

Aquela noite foi muito especial. Iria acontecer algo inédito: festa na cidade! Fiquei muito feliz por estar bem no dia do aniversário da cidade, algo que faria todo mundo sair de casa naquela noite.

Colocaram um palco enorme na rua da pousada e, quando voltei do mirante, a rua estava irreconhecível, contava com muitas barraquinhas instaladas! Se na noite anterior a cidade estava pacata, foi só questão de horas para um mar de gente tomar as suas ruas! Praticamente todo mundo saiu de casa mesmo!

As barraquinhas eram para vender todo tipo de quitute: espetinho, cachorro-quente, pipoca, pastel, doces! Era dia de festa!

Festa na cidade!

Uma peculiaridade interessante era que a cidade era predominantemente evangélica, então, a festa também tinha a mesma pegada! Eu, que estou acostumado com as quermesses e outras festas católicas, estava vivendo algo inédito.

A atração principal foi uma cantora evangélica muito famosa, das que frequentam programas de TV e também estava tocando nas rádios, o seu nome prefiro não revelar. A minha percepção quando o show começou foi que as letras das suas músicas deixam muito a desejar, transmitindo ideias que não refletem o propósito de nenhuma religião.

Apesar disso, foi muito legal ver o povo animado, aproveitando a festa, então resolvi não focar na cantora, mas sim na fé e alegria daquele povo. Aproveitei e fiquei curtindo aquele evento atípico madrugada afora com os moradores.

Foi massa demais e um ótimo jeito de finalizar a minha estadia naquele lugar que queria tanto conhecer!

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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