O que aprendi viajando sozinho

“Viajar sozinho” é uma expressão que chega até a assustar as pessoas, não somente essa frase, ms também o ato de estar viajando sozinho.

Na minha opinião, isso acontece pois já faz um tempo em que vivemos em uma cultura que valoriza muito o medo, principalmente o de ter de lidar com o que é desconhecido no mundo e também de experimentar estar só.

Saiba que eu já tive esse medo e, talvez ainda tenha um pouco dele. O que posso dizer é que a minha jornada pelo Brasil é a primeira vez em que estou viajando sozinho. Então, enfrentar tudo isso é algo novo para mim!

Quando tomei a decisão de partir nessa sozinho, muitas pessoas próximas me questionavam: “Nossa, mas você vai sozinho? Não é perigoso?”

Responder a esse questionamento se tornou algo até que simples! Só te peço uma coisa: dá o play nessa música do Lenine e ouça o que vou te dizer!

“Hoje eu quero sair só”

A grande verdade é que eu tinha 2 grandes motivos para querer ter a experiência de passar um tempo viajando sozinho:

  1. Essa viagem é algo muito pessoal para mim, foi um processo de decisão que envolveu um certo tempo, portanto é algo que eu precisava fazer por minha conta e risco, vivendo uma experiência totalmente diferente do que já vivi antes;
  2. Seria muito difícil encontrar alguém que toparia simplesmente “largar tudo” por tempo indeterminado para viajar, além de que mesmo que encontrasse, não necessariamente essa pessoa teria a preferência de seguir pela mesma rota, bem como topar as mudanças que decidi fazer no meio do caminho.

Fora isso, a questão de ser perigoso, tenho a convicção de que se formos analisar o quão perigoso os lugares e as coisas são, simplesmente teríamos que parar de viver e ficar somente trancados em casa!

Claramente, não era isso o que eu queria, e ainda não quero! Ainda em relação ao perigo, existe uma coisa chamada feeling e eu uso muito bem ele para entender se estou correndo algum risco ou não. Obviamente que isso não me torna imune a ele, mas ajuda bastante a encarar essa vida!

viajando sozinho

Pois bem, hoje, com quase 8 meses de estrada, viajando sozinho, tirei bons aprendizados, além de inúmeras reflexões que me fazem crer que foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida.

Como a minha ideia é externalizar as coisas, vou compartilhar um pouco com vocês. Dá uma olhada:

Viajar sozinho não é o mesmo que estar sozinho

Essa frase chega até a ser clichê e sempre quando olho para ela aqui na parede do Vida Backpackers Hostel, me lembro o quanto essa realidade esteve muito presente na minha jornada.

Meus amigos, fiquem tranquilos! Não é porque estou viajando sozinho, que passo o dia todo sem interagir com ninguém!

Aliás, posso dizer que fazia tempo que eu não conhecia tanta gente legal em tão pouco tempo. Obviamente que em outras viagens, que estava acompanhado de amigos, também conheci novas pessoas, mas o cenário atual é totalmente diferente.

Aprendi que quando você está viajando sozinho, inconscientemente você permite se relacionar mais com as outras pessoas. A coragem de arriscar um “oi” ou pedir uma informação aumenta, se compararmos quando estamos acompanhados.

No meu caso, naturalmente surgiu frequentemente a necessidade de socializar em muitos momentos. Seja com outros viajantes e mochileiros, com o tiozinho da padaria, os moradores e nativos da cidade, com a pessoa que estava sentada do meu lado no ônibus e até o casal que conheci em um passeio qualquer.

Saiba que na maioria das vezes me surpreendi bastante do quão bom foi conhecer essas pessoas tão fácil assim, sendo que as minhas expectativas de fazer uma amizade nem eram tão altas assim.

Nunca foi tão fácil estar disposto a pedir ajuda

Outra grande mudança em mim, que foi influenciada pelo fato de estar viajando sozinho, é que fiquei muito mais disposto para pedir ajuda, não importa para quem quer que seja.

Seja no próprio processo de solicitar um trampo no Workaway ou uma hospedagem no Couchsurfing, ou então abordando desconhecidos na rua para saber como pego o ônibus X para ir para o lugar Y.

Também pedi muita ajuda para cobradores e motoristas de ônibus, pedindo para parar no ponto mais próximo dos lugares que queria chegar, por exemplo.

Outras situações que também foram marcantes são as caronas que tive a oportunidade de receber, além das corridas de taxi que dividi com desconhecidos que tinha acabado de conhecer e descobri que estávamos indo para o mesmo lugar.

Tem também aqueles pedidos de ajuda que só quem é mochileiro sempre pede, tal como pedir informações e dicas para a galera do hostel ou nativos da região para economizar uma grana e não cair em furada.

Nessas e muitas outras situações em que tive que sair da minha zona de conforto e solicitar algum tipo de auxílio, entendi que, geralmente, quando estamos a sós, ficamos muito mais abertos a pedir e aceitar a ajuda dos outros, pois muitas vezes essa é a única maneira de conseguir caminhar.

E quer saber? Não dói nada fazer isso, nem um pouco…O máximo que pode acontecer é levar um “Não” ou uma resposta que não esperávamos. E a vida continua né….

Por outro lado, quando alguém resolve ajudar de verdade, gera uma sensação muito boa, que é gratificante. Aliás, para mim, chegar a conclusão de que existe muito mais gente boa no mundo, de tanto que fui ajudado, foi uma “descoberta” sensacional!

Mas não basta somente sair da zona de conforto e pedir ajuda, tem que estar disposto a ser ajudado também! Me lembro de caronas ou transportes que dividi com outras pessoas, que fizeram questão que eu não pagasse, depois de saber um pouco mais da minha história e da minha viagem.

Muitas vezes o orgulho não deixa, mas saiba que aceitar esse presente também é uma grande gentileza que estamos fazendo para quem está oferecendo. Nada mais é do que retribuir por toda a sua disposição em ajudar.

Melhorei muito a minha capacidade de socializar

Eu sempre tive o hábito de chegar nos lugares e preferir ficar mais na minha e aos poucos, conforme sentia o ambiente, começava a me soltar para me socializar melhor com quem estava por lá.

Ao longo do tempo, consegui melhorar muito essa questão, principalmente depois que entrei na faculdade, mas mesmo assim sempre tive a sensação que faltava algo e podia melhorar ainda mais. Portanto, uma das coisas que eu tinha em mente nessa viagem era poder trabalhar isso.

Posso dizer que foi muito mais fácil do que eu imaginava!

Principalmente, nas situações em que  passei por longas viagens ou lugares mais tranquilos, em que não há muita gente para interagir, logo em seguida vinha uma necessidade enorme de socializar com qualquer pessoa que aparecesse.

Seja um novo colega de quarto no hostel, o dono do restaurante que eu frequentei, o gringo que estava sentado do meu lado na praia, o morador sentado na praça e por aí vai. Confesso que até hoje me desafio constantemente a começar uma nova conversa com as pessoas.

Saiba que não é muito difícil, na maioria dos casos bastava quebrar o gelo e a coisa começava a funcionar bem. Obviamente que em muitas situações, tentar começar uma conversa não deu muito certo, mas em muitas outras eu fiquei me perguntando porque não tinha começado a conversar com aquela pessoa antes, de tão bom que foi o momento!

Além de desenvolver a minha capacidade de socializar, isso me ajudou muito a quebrar vários preconceitos e julgamentos inexplicáveis que eu colocava nas pessoas sem conhecê-las. Descobri que qualquer lugar há muitas oportunidades de conhecer gente nova.

A pior coisa que pode acontecer é a conversa não fluir e, ok se isso acontecer! A gente não precisa acertar toda hora e muito menos agradar todo mundo. Haverá muitas outras pessoas para tentar de novo.

Entendi também que há momentos que preciso ficar só

Viajar sozinho não é também somente querer conhecer gente nova o tempo todo. No meu caso, a necessidade de ficar sozinho também surgiu muitas vezes. E eu atendi prontamente a esses pedidos que vem do meu interior!

Em anos anteriores talvez eu me crucificaria por optar por isso, mas nessa viagem aprendi a entender que esses momentos também são necessários para eu estar bem, seja para organizar as minhas ideias, para processar algum acontecimento, me recuperar de algum dia intenso, ou simplesmente refletir sobre a vida.

Aliás, percebi que os próximos dias ficam bem melhores, quando resolvo me resguardar um pouco mais. O massa é que como estou viajando sem pressa alguma, o sentimento de estar perdendo tempo e não aproveitar o dia ou a noite, junto com a possibilidade de conhecer gente nova praticamente não existia, pois sempre haverá o dia de amanhã para isso.

Aprendi que um descanso para a mente também é necessário e não é toda hora que a gente quer conversar. Ou então, queremos e precisamos conversar somente conosco por meio do silêncio.

Hoje sei muito bem entender quando o meu “eu” está pedindo por momentos como esse. E atendo o seu pedido rapidamente sem nenhuma dor na consciência.

Comecei a me admirar mais

Nesse processo de autoconhecimento, uma das coisas que acho que mais avancei é a questão de me valorizar e me admirar mais.

Afinal, como estou viajando sozinho, tenho prestado bem mais de atenção em mim mesmo e, um dos resultados é que comecei a notar muitas qualidades minhas que não tinha percebido antes. Isso me fez clarear a questão de saber melhor como expô-las para o mundo, me valorizando ainda mais.

Pode até parecer besteira, mas acho que muita gente foca demais nos seus defeitos e acaba não enxergando as suas qualidades, por algum motivo, seja por querer ser humilde demais, por algum complexo de inferioridade, ou por simplesmente não saber que elas existem.

O fato de ter conhecido muitas pessoas em tão pouco tempo me ajudou muito nisso. Pois como em muitos casos, o processo de aproximação foi algo muito rápido, acabei ficando surpreso com muitas observações positivas que elas fizeram sobre mim, os quais achei que somente pessoas que me conhecem a muito mais tempo, e sabem como sou, notaria.

Ou seja, vi que não preciso de tanto tempo assim para mostrar quem eu sou e o quão incrível eu posso ser!

Desenvolvi a crença de que todo mundo é e pode ser um ser humano incrível! Tenho a teoria de que todo mundo tem uma boa história de vida pra contar! É só estar bem consigo mesmo e coragem para expô-la!

Aprendi a me suportar

Obviamente que não somos feitos somente de qualidades e coisas boas. Temos nossos defeitos, cometemos erros e muitas vezes ficamos chateados por sermos assim, desse nosso jeito, que acaba falhando em muitos momentos da vida. Pelo menos, eu sou assim!

Pois bem, eu tive alguns períodos da viagem em que passei um bom tempo sozinho, passando por lugares bem tranquilos, alguns quase desertos. Aproveitei esse tempo para tentar meditar, refletir bastante e aproveitar para me conectar com o meu “eu” interior.  

A maior lição que tirei disso tudo, foi a de aprender a me suportar! Isso mesmo, me suportar! Também a compreender melhor todos os meus erros, meus defeitos, dentre outras coisas minhas que me incomodam!

Nesse aprendizado, o meu foco sempre foi em entender como posso melhorar, sem ficar me pressionando e criando a obrigação disso acontecer! Foi um processo intenso de “fazer as pazes” comigo mesmo, que é algo que venho praticando constantemente!

Mais do que isso, me peguei pensando várias vezes sobre coisas do passado que me incomodavam muito. Aliás, não é que me incomodavam, mas surgia muito a vontade de voltar para lá.

Cheguei a conclusão que não adianta ficar remoendo tudo isso, pois assim deixa-se de estar no presente e aproveitar a intensidade de todos os dias diferentes que tenho a oportunidade de viver.

Foram bons esses dias de reflexão, sozinho! Amadurecer essas ideias foi bem libertador! Hoje considero a estrada a melhor escola para aprender a ter essa consciência! Tenho certeza que muitos outros dias como esse ainda virão!

Viajando sozinho, me permito conhecer o novo todos os dias

Por fim, o último aprendizado que destaco aqui, e acho que é a soma de todos os outros, é que viajando sozinho me permito muito mais a conhecer coisas novas, quando comparo com a rotina de anos atrás.

Hoje, dificilmente eu recuso algum convite para conhecer ou fazer algo novo, sempre penso na possibilidade de mudar o meu caminho, as minhas escolhas e qualquer tipo de “planejamento” que tenha feito. Aprendi a trocar o “não” pelo “por que não?”

Se permitir conhecer o novo é ver qualquer possibilidade com um olhar de abundância e não de escassez, achando que logo de cara aquilo pode dar errado. É um grande exercício para sair da zona de conforto, algo que eu sempre gostei muito na teoria, mas tinha dificuldade de aplicar na prática!

viajando sozinho

Espero que tenha gostado de ler alguns dos meus aprendizados viajando sozinho! Para acompanhar o lançamento de novos posts no blog, em primeira mão, curte a página do Facebook!

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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