#2. Ouro Branco via Itabirito

Acordei cedo, estava começando meu terceiro dia de viagem e o último em São Thomé das Letras, tudo tinha passado muito rápido. O despertador tinha tocado cedo, lá pelas 6h, mas o cansaço não me deixou levantar para ver o nascer do sol de novo, dormi até às 8h.

Arrumei minhas coisas e tomei café da manhã, dessa vez estava só! Parti desbravar novamente a cidade, pois o ônibus para Três Corações só sairia a noite. Revisitei todos os lugares do dia anterior e consegui passar um tempo maior em cada um deles durante essa manhã, muitos estavam vazios, tal como a Casa da Pirâmide, que geralmente é bem cheio.

Lá consegui meditar um pouco e fazer aquela reflexão sobre a vida, acompanhado de uma vista incrível. Fiquei um bom tempo sozinho e conforme ia chegando mais gente e a minha concentração ia se acabando. Quando já estava lotado, resolvi sair.

Uma casa qualquer em São Thomé das Letras

 

 

Essa é a casa do Ventania, uma figura bem conhecida por lá, e até no Brasil, pelas suas canções

 

 

Tomei mais algumas cervejas, visitei algumas lojinhas, dei uma olhada no artesanato, mas não comprei nada. Fui ao informe turístico, tentei entender a história da cidade, entrei na Igreja Matriz, passei um tempo na Gruta… dentre um intervalo e outro voltava para a pracinha.
Gruta de São Thomé das Letras

 

Vista da cidade de cima da gruta

Segue seu caminho

Engraçado como senti uma conexão muito forte com aquele lugar, não sei explicar. A energia estava tão boa que até nos momentos que me batia um leve tédio, eu sentia que era como se me falassem no ouvido: “Você precisa partir! Segue seu caminho que ainda tem muito chão pela frente!”

No mais, vi cenas bem engraçadas na praça, dignas de ficar um bom tempo rindo sozinho, a melhor delas foi a de uma mulher com uns 8 cachorrinhos passeando e toda hora ela tentava protegê-los dos outros cachorros, que viviam na rua.

A tarde foi passando e resolvi voltar ao hostel pegar minhas coisas e me preparar para partir.

Pôr do sol

Estava na dúvida se via o pôr do sol ou não antes de ir embora, o Guilherme do hostel me convenceu a ir sim! Hoje fico me perguntando o que se passava na minha cabeça para eu cogitar em talvez não ver o pôr-do-sol antes de ir, estava louco, só podia ser!

Fui ao mirante (mesmo local que vi o nascer do sol no dia anterior) e fiquei só apreciando aquele espetáculo que é o sol se despedindo da cidade, tão lindo quanto o momento do seu nascimento.

Mais uma vez as fotos não ficaram boas… mas mesmo que ficassem, acho difícil reproduzir em imagens a sensação de curtir o fim do dia em Santumé. Aproveitei os últimos minutos e agradeci pelos dois dias e meio, que foram rápidos, mas uma ótima maneira de começar essa jornada.

Vista da cidade no fim da tarde

Voltei ao hostel, peguei minhas coisas e fui direto para a rodoviária esperar o ônibus com destino a terra do Rei Pelé: Três Corações.

Pela primeira vez, ao longo desse caminho que venho percorrendo, senti o peso da despedida. Acho que já acumulei muitas delas em minha vida, mas o contexto agora era totalmente diferente, no fundo eu sabia que muitas outras estariam prestes a acontecer nos próximos dias e meses.

Um grande amigo meu diz que é sempre bom ter motivos para voltar para os lugares. A passagem por São Thomé foi mais rápida do que eu esperava, queria ter ido ao Vale das Borboletas e ter ficado para o carnaval dos moradores. Fica para uma próxima!

Vou me embora pra Pasárgada…

A volta para Três Corações foi praticamente igual a ida… estava eu no ônibus com um monte de morador da região, os quais iam descendo pouco a pouco no meio do caminho. Estava escuro, dessa vez não deu para ver muita coisa fora do ônibus, resolvi ouvir música e cochilar.

Cheguei por volta das 22h30, o ônibus para BH era só a meia noite. Fui ao guichê retirar minha passagem, mas ele já estava fechado. Por sorte o funcionário da companhia ainda estava por lá e conseguiu emiti-la para mim.

Sentei em uma das cadeiras de plástico típicas de rodoviárias, comecei a atualizar meu diário enquanto esperava o ônibus. Com o passar do tempo, a rodoviária se esvaziava cada vez mais.

Confesso que esperar por mais de 2h o ônibus chegar não foi a experiência mais agradável do mundo. Sobrou somente eu, o vigia da rodoviária, um senhor, o qual tive uma breve conversa e descobri que estava esperando o seu ônibus que sairia só às 3h, e uma moça que falava sozinha sobre os mais diversos assuntos aleatórios. Visivelmente ela tinha algum tipo de distúrbio ou deficiência.

Desde a hora que cheguei até partir, ela não parou de falar, eram muitas coisas sem nexo algum. Estava um pouco incomodado, muito pelo cansaço da espera. Fiquei com muita pena, pois provavelmente ela iria ficar lá por um bom tempo, dormir na rodoviária, até alguém da assistência social chegar e fazer alguma coisa por ela.

Mal eu sabia que 2 meses depois, eu é quem estaria nessa saga, virando a noite esperando o ônibus em Porto Seguro. Enfim, essa é uma história pra depois…

O ônibus chegou 00h30, já estava atrasado. Só lembro que embarquei, tirei minha blusa da mochila, coloquei e dormi profundamente até chegar na rodoviária de BH lá pelas 5h30.

Cento e quatro

Cheguei na rodoviária de BH e me encostei em uma das cadeiras da área de desembarque mesmo, fiquei sentado. Ainda estava com muito sono e, como tinha um movimento bem intenso de pessoas, resolvi esperar por ali mesmo, além de dar uma cochilada sentado enquanto o dia nascia.

Esperei até umas 6, seis e pouco, subi guardar minha mochila no guarda-volumes, tomei um suco e fui comprar minha passagem para Engenheiro Correia — um dos distritos de Ouro Preto — meu próximo destino.

O ônibus sairia só às 15h. Já tinha consultado com alguns amigos mineiros onde poderia passar o tempo enquanto esperava, um deles me indicou o Centro e Quatro, um espaço muito bacana, com uma boa cafeteria.

Lá pelas 8h eu pedi informação na própria rodoviária sobre como chegar no 104 e sai bater perna por BH até chegar nesse café!

Praia da Estação

Obviamente que me perdi no meio do caminho, mas nada como parar e pedir informação nos comércios locais e de quebra receber gratuitamente toda aquela simpatia do povo mineiro. De todas as pessoas que conheci na viagem, sem dúvida nenhuma, os mineiros são os mais simpáticos!

Andar pelas ruas de BH foi muito legal, apesar de rolar um certo “choque cultural”, pois mesmo que por pouco tempo, acabei acostumando com as ruas de pedra e tranquilas de São Thomé.

Aquele pedaço do centro tinha uma estrutura urbana muito boa, digna de uma capital. Vi algumas das melhorias na infraestrutura que foram feitas recentemente para receber jogos das olimpíadas (ou copa do mundo?): Uma delas são as estações de ônibus que eles chamam de MOV, é algo muito similar o VLT (veículo leve sobre trilhos) no Rio.

Também vi coisas não muito agradáveis que tem em todo centro de cidades grandes e capitais, como por exemplo, muita gente abandonada e dormindo na rua.

Minha primeira parada foi na Praça da Estação. Essa praça ficou muito marcada na minha cabeça há algum tempo. Anos atrás vi um vídeo que mostrava um evento muito legal que acontece por lá: A Praia da Estação!

Aquilo é simplesmente uma aula de como se deve utilizar o espaço público para lazer! Fiquei imaginando eu ali no meio daquela confusão e dos jatos d’água…

Lá perto também fica o Museu de Artes e Ofícios, tirei algumas fotos da sua área externa e depois caminhei em direção ao 104.

Praça da Estação

 

Museu de Arte & Ofícios

Trabalhando no café

Cheguei no 104 e já vi que o espaço é muito legal, pelo que entendi ele promove algumas ações que incentivam bastante o acesso à cultura.

Fiquei a manhã e uma parte da tarde trabalhando no café, que é de ótimo nível. (Outra maneira que encontrei de me manter na estrada é pegando alguns trampos como freelancers, pela internet mesmo, quando sobra um tempinho)

Tomei 2 cafés, um que se chama Hário e o outro FrenchPress, além de comer uma empadinha de bacalhau. O café e o salgado são de ótima qualidade, assim como o atendimento do local.

Lembrei muito da galera que trampava comigo na Resultados Digitais ano passado, a hora do café era sagrada e fazíamos uma pausa quase todo dia pra tomar um FrenchPress depois do almoço ou no meio da tarde, aprendi a apreciar um bom café com eles.

Café no 104

Passei horas bem agradáveis por lá, todas as atendentes do lugar vieram conversar comigo, perguntar se estava tudo ok. Realmente é um atendimento bem acolhedor, digno do povo de BH.

Depois das 14h, arrumei minhas coisas e já estava pronto para voltar para rodoviária. Quando fui procurar o banheiro, dei de cara com a sede do SEED que fica ali no prédio do 104 também!

SEED

Sensacional! Não tinha a mínima ideia que eles funcionavam ali. Para quem não conhece, o SEED é uma iniciativa que o governo de Minas criou para fomentar o empreendedorismo. É considerada a única aceleradora com recursos públicos do país.

O objetivo do SEED é transformar Minas Gerais no maior polo de empreendedorismo e inovação da América Latina.

Na prática, eles selecionam startups brasileiras com potencial de crescimento e oferecem um tempo de aceleração lá em BH. Nessa aceleração está incluso um espaço de coworking, mentorias, interação entre as empresas selecionadas e também uma grana como incentivo (não sei ao certo o valor).

Maiores informações sobre o programa de aceleração do SEED pode ser encontrado aqui.

Como minha vida profissional foi exclusivamente dedicada a trabalhar em startups, eu ouvia falar muito do SEED e achei que seria muito legal tentar conhecer a sua sede. Caminhei até a recepção e também fui muito bem atendido pela equipe deles, que me disponibilizou uma pessoa para me acompanhar em um tour para conhecer o espaço.

Depois de conhecer, tirar fotos de lá, comecei a caminhar de volta para a rodoviária.

Coworking do SEED

 

Eu no inicio da viagem de cabelo curto e sem barba

Ouro Branco via Itabirito

Fui orientado pelo Marco, dono da Pousada da Lavra, onde eu ia fazer o meu primeiro Workaway, a pegar o ônibus que sai de BH com destino a Ouro Branco passando por Itabirito e descer no meio da estrada, onde se encontrava a placa da pousada.

Fiquei esperando na área de embarque e quando o ônibus chegou já conversei com o motorista, avisando que ia descer no meio da estrada. Combinei de ir para frente do ônibus, quando passasse Engenheiro Correia, assim poderia ajudá-lo a encontrar o meu ponto de descida.

Sentado, esperando o ônibus…

O trajeto que esse ônibus faz é muito curioso, ele dá uma volta imensa pela região e passa por lugares que eu nunca imaginei que existisse. A paisagem é linda, a estrada nem tanto, mas o motorista, que provavelmente já deve estar acostumado com ela, correu demais, a impressão era de que estava fazendo rali naquela estrada de terra!

Passei por lugares que só estando ali para conseguir descrever mesmo, foi muito bom observar as casas, as pessoas e a própria estrada. Foi mais um momento de admirar e se encantar com a paisagem olhando pela janela do ônibus.

Pirei tanto na paisagem que nem me preocupei em ficar tirando fotos e sim apreciando minha passagem por lá, que provavelmente seria a primeira e única vez.

Única foto que tirei durante o trajeto

Você que é o jardineiro?

Ao ver que estava próximo da placa da pousada, a moça que era cobradora do ônibus já me perguntou: Você vai descer na Pousada da Lavra? (Creio que muita gente já deve ter pego esse ônibus para fazer workaway por lá).

Eu acenei positivamente e ela me falou que assim que chegasse perto, daria sinal para o motorista parar. Quando o ônibus enfim parou, eu agradeci o motorista e a cobradora, finalmente desci!

O Marco, tinha me falado que o jardineiro da pousada iria me buscar ali na placa quando o ônibus chegasse, ele tinha um Uno verde. No momento que cheguei não havia ninguém por lá. Resolvi ir andando pela estradinha que liga a estrada principal até a pousada, no mais tardar encontraria ele no caminho!

Devo ter andado uns 800m com minhas 2 mochilas nas costas, fui bem tranquilo para aproveitar e observar o trajeto, só admirando a vegetação típica da região, que aparentemente parecia ser predominantemente do Cerrado.

Até que um Uno verde chega até mim, achei estranho porque ele veio pelo caminho que é sentido contrário da pousada. Ele parou, o motorista do carro abriu os vidros e eu já perguntei: “Você que é o jardineiro?”

O cara me olha sem entender nada e me responde: Não! De que país você é?

Eu: Aqui do Brasil mesmo (Comecei a rir).

Percebi que ele não era a minha carona e expliquei que estava indo para a Pousada da Lavra. Ele me falou que era dono de uma fazenda ali por perto também e poderia me dar uma carona.

O nome desse senhor era Luiz Gonzaga, viemos conversando durante o curto trajeto, ele me contou que vinha uma galera de fora para trabalhar na pousada. Continuamos conversamos sobre outros assuntos, até que encontramos o jardineiro dentro do seu Uno no meio do caminho. Fizemos sinal, o Luiz avisou que eu estava lá e fomos direto para a fazenda.

Bloco B

Cheguei na Fazenda, agradeci a carona. Cheguei meio tímido, me apresentei ao jardineiro, que também se apresentou a mim, falando que seu nome era Cau (depois descobri que esse era o apelido, seu nome de verdade era Carlos Alberto).

Fui recebido também por uma funcionária da pousada, a Cidinha, pelo José Augusto, um menino de uns 10 anos de idade que era filho do seu Zé (que também era funcionário da pousada e cuidava dos animais), além dos milhares de cachorro, uns 5 pelo menos, dentre eles 2 labradores filhotes, o Atila e a Diana.

A Cidinha estava lá porque iam chegar hóspedes para passar o fim de semana, mas acabaram cancelando. Ela me levou para o Bloco B, um bloco de quartos, o qual eu ia ficar hospedado.

A pousada da Lavra também era uma fazenda e para chegar da sua sede até os blocos de quartos era preciso percorrer 2 lances de rampas e uma escada, é uma área bem grande. Era uma boa pernada para transitar entre os 2 locais. Mal eu sabia que iria fazer aquele trajeto diversas vezes por dia.

Meu quarto era ótimo! Uma cama de casal, banheiro e uma vista sensacional para o mato! Depois de me acomodar, a Cidinha já foi embora e deixou mantimentos para mim e o Cau, seriam nossas refeições durante a semana!

Fiquei sabendo que enquanto o Marco não chegava, meus primeiros trabalhos iam ser ajudar o Cau durante 5 horas por dia!

Já era noite, eu e o Cau fomos para a uma das cozinhas da fazenda, que ia ser onde iríamos fazer o nosso café, almoço e jantar durante toda a semana. Ele fez um tira-gosto (é assim que os mineiros chamam uma porção de qualquer coisa para beliscar enquanto se bebe cerveja) com carne de porco para gente comer e ficamos trocando ideia sobre vários assuntos.

O Cau fez questão que eu o acompanhasse tomando a sua cerveja. Ele me disse que podia ficar à vontade e que a cerveja era minha também.

Experimentei também a sua fiel companheira: uma pinguinha de Ubá (pra quem não sabe, Ubá é uma cidade mineira), daquelas que ficam armazenadas em garrafa pet verde, sem rótulo, nem nada.

Aliás, a cada copo de cerveja que ele tomava, era acompanhado de um copinho de pinga. Ela era muito boa e a conversa estava fluindo tão bem que nem percebi que já tinha tomado algumas boas doses dela.

Jogamos um pouco de sinuca com o José Augusto e já estava começando a ficar bem tarde. Eu estava cansado e com sono, resolvi ir dormir para estar bem para começar os trabalhos no outro dia!

Gostou de saber como eu cheguei de São Thomé até o meu primeiro Workaway? Então, dá uma olhada como minha jornada começou e sinta-se à vontade para deixar seu comentário!

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

4 thoughts on “#2. Ouro Branco via Itabirito

  • 18 de August de 2017 at 16:41
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    Filho segundo post — lindo você continua escrevendo muito bem… continue assim… esperamos o próximo… Beijos e Saudades Pai e Mãe

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  • 19 de August de 2017 at 09:54
    Permalink

    muito bacana que otimo sua narrativa parabens

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