#18. Cidade alta ou cidade baixa?

Ir para Salvador realmente me deixava muito confuso. Ao mesmo tempo em que queria estar ali, também não queria estar. Conhecer melhor a capital baiana e toda a sua parte cultural, que é algo bem diferente das capitais do sul e sudeste que já tinha conhecido ou morado, era algo que me deixava animado.

Porém, muitos me falavam sobre esse lugar com uma certa cautela, a violência e os problemas sociais é algo marcante na vida do soteropolitano. Logo, essa realidade, que nada mais é do que um reflexo de muitos lugares do Brasil, atrapalha e incomoda muito a vida deles.

Sem dúvida alguma, esse é um dos motivos que fazem Salvador transparecer ser uma cidade perigosa. Analisando friamente, agora, quando se trata de uma grande capital, infelizmente não tem como fugir dessas questões, pelo menos no dias atuais. Quem sabe em um futuro próximo…

Apesar de todo esse dilema, a minha vontade de conhecê-la era muito maior. Já tinha adiado muito a passagem por lá, estava na hora de enfrentar essa adversidade e simplesmente ir. Durante toda a minha viagem, sempre quando surgia algum impasse assim na minha cabeça, eu procurava respirar, projetar coisas boas e somente desejar ter uma boa experiência.

Foi isso que eu fiz antes de embarcar no ônibus, naquela noite na cidade de Palmeiras, para Salvador.

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#17. Caminhando em direção ao céu

Após me despedir dos franceses, que me acompanharam no trajeto de Boipeba até Salvador, parei por um minuto e vi que estava no meio de todo o caos de uma cidade grande. A última que tinha passado foi a nossa querida capital mineira Beagá, há quase 2 meses atrás.

Que choque! Eu, com duas mochilas, no meio da rotina e do movimento de uma cidade a todo vapor. Muitos motoristas me ofereciam corrida até a rodoviária a preço de “Uber”, mais ou menos uns 30 pila… sem chance. Cheguei em um ponto de ônibus ali no meio de uma avenida, estava super movimentado.

Perguntei para várias pessoas sobre qual ônibus me deixaria na rodoviária. Todos me diziam que muitos passavam, mas não sabiam qual deles exatamente era. Até que um deles parou e alguém me falou: “Esse vai”. Sem pensar muito, entrei e perguntei para a cobradora, já dentro do ônibus, para confirmar a informação, ela me disse que sim, mas que pararia na passarela que liga a rodoviária até um shopping nas proximidades.

Sinceramente não queria descer ali, tinha um pouco de receio daquele lugar depois de saber do caso de um amigo que tinha sofrido uma tentativa de assalto passando por lá em pleno movimento a luz do dia. Além disso, outras pessoas que conheci, me relataram o quanto aquela passarela era perigosa. Enfim, não tinha o que fazer, já estava indo para lá.

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#16. Refugando Morro de São Paulo

Reler o meu diário para escrever esse post me trouxe ótimas lembranças, estava com um sorriso no rosto o tempo todo, do início ao fim! Muito bom lembrar de dias que foram incríveis de uma forma tão natural!

Todos os lugares que eu fiquei por muito tempo, morando e vivendo, me trouxeram momentos que me marcaram. A grande peculiaridade de Boipeba, na Bahia, é que tive uma experiência muito semelhante, mas com o tempo bem mais curto: Menos de uma semana.

Vontade de ficar lá não faltou, infelizmente ou felizmente não deu muito certo. Apesar disso, escrevo agora para celebrar aquela semana inesquecível, dias que valeram muito a pena. Engraçado, justo Boipeba que eu também jamais sabia sequer da sua existência antes de partir. Santa ignorância!

Coloquei esse destino no meu radar porque recebi muitas recomendações de hóspedes que fiz amizade lá em Caraíva. O tempo por lá foi tão bom que nem deu tempo de atualizar o meu diário em nenhum dos dias. Fui só refletir e digerir o que aconteceu quando estava em Salvador, esperando o ônibus para Lençóis, a principal cidade da Chapada Diamantina.

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#15. De Taipu de Fora até Taipu de Dentro

Depois de uma semana intensa em Itacaré, com sol, chuva e praias novas, estava na hora de conhecer outro paraíso. Meu próximo destino foi Barra Grande (da Bahia), que fica bem ao norte de Maraú.

Na rodoviária de Itacaré, junto com a Bri, tomei um ônibus para Camamu, de lá pegaríamos um barco ou lancha rápida para Barra Grande. Como a estrada que liga Itacaré até Barra Grande é bem precária, essa é praticamente a única alternativa existente de transporte coletivo.

Não me recordo ao certo quanto tempo a viagem levou, só lembro que, ao sentar na poltrona, descansei, nem vi o tempo passar. Quando o ônibus fez a parada na cidade de Camamu, já entrou um cara dentro dele, perguntando quem ia para Barra Grande.

Ele nos ofereceu a lancha por R$ 20, a próxima iria sair em poucos minutos. Aceitamos e ele nos levou até o porto, onde embarcamos. Depois de uma hora e meia, com uma vista incrível, estávamos atravessando o deck em direção ao receptivo turístico de Barra Grande.

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#14. O paraíso baiano

O fim de semana emendado com o feriado foi muito bom! Os 3 dias em Piracanga passaram muito rápido. Às 11 da manhã entrei no carro que me levaria para a cidade de Itacaré. Tinha a companhia, além de um motorista português, de mais um menino de uns 10, 11 anos da comunidade, que foi deixado em uma escola ali perto, e mais um pessoal que foi fazer um retiro com foco em detox nos dias anteriores.

Assim como todo mundo que perguntava o que eu fazia da vida, quando falava que estava viajando, queriam saber como era viver dessa maneira, contei um pouco do que já tinha encontrado por aí no pouco tempo de caminhada. Com essa conversa, a volta até Itacaré passou voando.

O motorista me deixou em uma praça. A partir dela, caminhei até a Rua Pituba, a mais badalada da cidade.

A sensação era que estava “de volta a realidade”. Por um momento fiquei com uma certa dúvida, enquanto caminhava me questionava se eu já não estava fora da realidade por estar vivendo longe de uma rotina padrão, algo presente nos meus últimos 3 anos de vida… fiquei um tempo viajando nesse pensamento.

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#13. O amor em mim saúda o amor em você

Depois de um dia totalmente fora do comum, entrei no ônibus para Itabuna e simplesmente capotei! Só acordei perto de chegar na rodoviária, que estava lotadíssima, creio eu que muita gente teve que postergar a sua viagem de sexta para o sábado.

Em uma situação normal, eu deveria esperar apenas alguns minutos para embarcar no próximo ônibus para Itacaré, mas ele estava muito atrasado, em mais de uma hora. Finalmente ele chegou! Entrei, sentei, mas dessa vez não consegui pregar o olho.

Depois de passar por Ilhéus, cheguei na cidade intitulada de “Paraíso Baiano” perto das 3 da tarde. A rodoviária é bem pequena, subi uma rua e já estava em uma das avenidas principais. Eu não iria ficar em Itacaré naquele momento, passaria 3 dias desligado do mundo, na Ecovila de Piracanga, ela fica em um local bem afastado da cidade, indo em direção ao norte da península de Maraú.

Eu estava esperando o transporte agendado para me levar para a ecovila em um ponto combinado. Era um supermercado ali mesmo na avenida principal.

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#12. Hoje o ônibus não vai sair

E depois de 1 mês e meio, estava eu novamente na estrada. Dessa vez, dentro de um carro em movimento, percorrendo uma estrada com trechos de terra batida, acompanhado por duas gurias soteropolitanas, só observando a chuva cair.

Tirei uns 2 minutos para olhar profundamente para fora do carro e tentar processar tudo que tinha acontecido até ali, foi em vão, minha cabeça não me deixava focar e nem me concentrar. Caraíva foi muito bom, mas estava na hora de buscar mais bons momentos como os que vivi por lá, escrever mais histórias no meu diário…

Voltei para a realidade e comecei a observar o quão precária era a estrada que estávamos passando, a chuva, que oscilava entre forte e fraca, formou poças enormes, cada vez que o carro passava era um alívio, o medo dele atolar era grande, pelo menos para mim.

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#11. 19 de abril

Caraíva é um lugar mágico, diferente de qualquer outro que já estive até então. Independente de ser considerado turístico ou não, aquele vilarejo é recheado de histórias de pessoas iguais a mim ou você, que está lendo esse post.

Alguns nasceram lá, outros apenas descobriram um lugar tranquilo para morar, outros foram fazer negócios, outros apenas turismo, mas quase todos que vão, desejam voltar algum dia.

Independente de quem quer que seja, uma coisa não dá pra negar: Caraíva encanta qualquer um que coloca os pés em suas “ruas” tomadas por areia! Uma das histórias mais interessantes que eu conheci é a de um francês que mora lá há mais de 20 anos.

Daft Punk

Será que Caraíva, uma ONG e a dupla Daft Punk tem algo em comum? Pode acreditar, tem sim!

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#10. O forró daqui é melhor do que o seu…

Caraíva é um lugar muito especial. Para mim, é um dos “paraísos escondidos” que existem no Brasil.

Hoje, ela é tomada por uma boa infraestrutura para receber turistas, tem desde carroças com burros para transportar pessoas e cargas (lá não pode entrar carro), até pousadas e restaurantes para todos os tipos de gostos e bolsos.

Mas nem sempre foi assim. Conversando com o Pedro, ele me disse que frequenta Caraíva desde a sua infância, há pouco mais de 20 anos, naquela época a pousada era nada mais do que um pedaço de terra que a mãe dele comprou para ter uma vida tranquila.

Quando ela se mudou, não tinha nem energia elétrica. Aos poucos o cômodo que ela construiu virou uma casa, que depois virou uma pousada.

Até que chegou o momento em que Caraíva ficou muito grande e bem menos tranquila. Então, ela resolveu se mudar para outro lugar, deixando a pousada na mão de um gerente qualquer.

O Pedro estava tomando conta da pousada há pouco mais de 1 ano. Depois de deixar o seu trabalho em São Paulo, coincidiu da pousada estar precisando de um novo gerente, ele resolveu dar uma força para a mãe somente para colocar a casa em ordem.

As coisas deram tão certo, que ele resolveu ficar por lá e assumir definitivamente a administração da Pousada Raiz Forte.

Aliás, Caraíva é cheio de histórias de pessoas que vão visitar a vila como turistas e não voltam mais, ou quando voltam é só para arrumar as malas e se mudar definitivamente para aquele paraíso.

Eu mesmo pretendia ficar somente umas 3 semanas por lá… acabei ficando 6!

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#9. A praia no quintal de casa!

Cheguei em Caraíva exatamente no dia 30 da viagem, nas anotações do meu diário comemoro esse dia como uma grande conquista, talvez tenha sido a primeira desde quando eu botei o pé na estrada!

Esse primeiro mês de viagem passou muito rápido (e qual deles não passou?), e até aquele momento acho que ainda me questionava internamente sobre a sua continuidade por longo prazo, ela ainda era uma incógnita.

Esse “marco” me tirou um certo peso, que eu próprio tinha criado. Hoje vejo isso como uma preocupação desnecessária de um mochileiro principiante em busca de respostas.

Aliás, que delícia que está sendo reviver Caraíva! Bateu uma saudade boa daquelas 6 semanas que vivi por ali, paro e reflito como era o Matheus naquele momento e observo como é o Matheus de hoje… Ali foi o início de muitas mudanças.

Que tempo bom! Acho que foi o início de uma das minhas mais recentes (des) construções como ser humano. Caraíva foi essencial nesse processo sem mesmo ela (e eu) saber disso! Mudanças boas estavam por vir.

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