#14. O paraíso baiano

O fim de semana emendado com o feriado foi muito bom! Os 3 dias em Piracanga passaram muito rápido. Às 11 da manhã entrei no carro que me levaria para a cidade de Itacaré. Tinha a companhia, além de um motorista português, de mais um menino de uns 10, 11 anos da comunidade, que foi deixado em uma escola ali perto, e mais um pessoal que foi fazer um retiro com foco em detox nos dias anteriores.

Assim como todo mundo que perguntava o que eu fazia da vida, quando falava que estava viajando, queriam saber como era viver dessa maneira, contei um pouco do que já tinha encontrado por aí no pouco tempo de caminhada. Com essa conversa, a volta até Itacaré passou voando.

O motorista me deixou em uma praça. A partir dela, caminhei até a Rua Pituba, a mais badalada da cidade.

A sensação era que estava “de volta a realidade”. Por um momento fiquei com uma certa dúvida, enquanto caminhava me questionava se eu já não estava fora da realidade por estar vivendo longe de uma rotina padrão, algo presente nos meus últimos 3 anos de vida… fiquei um tempo viajando nesse pensamento.

Rua Pituba

A rua Pituba lembra muito a rua Mucugê em Arraial D´Ajuda, é cheia de bares, restaurantes e pousadas. A noite o movimento é grande, vira o point da galera! Nem preciso falar que, por ser uma rua turística, os preços de qualquer coisa são um pouco acima do normal, mas nada muito exagerado também.

Percorri ela por mais da metade de sua extensão até achar a pousada da Vanessa, que seria minha próxima anfitriã. Entrei em contato com ela pelo Couchsurfing, ainda quando estava em Arraial, prontamente ela me respondeu, oferecendo uma cama em um dos quartos compartilhados da sua pousada. Estava de bom tamanho!

Fui recebido pela irmã da Vanessa, a Débora. Uma moça de bom humor e que me deixou super à vontade mesmo com toda a minha timidez inicial. Ela me apresentou o quarto, onde conheci a Linda, uma francesa que estava viajando pelo Brasil, chegou até lá também pelo Couchsurfing, e é apaixonada por forró e capoeira.

Mais tarde conheci os outros moradores da pousada: A própria Vanessa, o Rauni, seu marido, a Mariana que é uruguaia e o Jacob que é argentino. Todos muito gente boa. A Vanessa e a Débora arrendaram a pousada já fazia um tempo e estavam vivendo do turismo lá em Itacaré.

Uma coisa que notei percorrendo as terras nordestina é uma certa frequência da prática do arrendamento de casas e pousadas, que pareceu ser bem comum por toda a região.

O tempo estava bem chuvoso. Aproveitei para tirar o notebook da bolsa e colocar as coisas em dia. Afinal, foram 3 dias que fiquei desligado do mundo.

Chuva…

Terminei o que tinha que fazer e ainda estava chovendo, um pouco fraco, mas estava. Mesmo assim resolvi sair, caminhar para conhecer um pouco mais de Itacaré e começar a reconhecer a cidade que me hospedaria pelos próximos dias.

Fui andando ainda pela rua Pituba em direção as praias, são 4 praias que ficam naquela parte urbana: Rezende, Tiririca, Costa e Ribeira. Essas 4 junto com a praia de Conchas são consideradas as praias urbanas, há também mais algumas que ficam fora da cidade e são as “praias rurais.”

Nesse dia só deu para ir até a primeira delas mesmo, a praia do Rezende. Lembro que a faixa de areia era curta, como o tempo estava bem feio e o mar também parecia estar mais agitado do que o normal, estava quase que vazia.

Fiquei pouco tempo sentado em cima da minha canga. Comecei a observar e me habituar com o estilo diferente de praia que há naquele paraíso baiano, uma mistura de mar, areia e pedras com uma mata bem selvagem, uma vegetação bonita.

Quando a chuva deu sinal que ficaria mais forte, resolvi voltar. Andei um pouco mais pela Pituba e encontrei um mercado para comprar coisas para o meu almoço. Quando cheguei na pousada, a chuva já estava forte.

Foi só o tempo de comer que ela apertou mais ainda. Infelizmente não dava para ficar na área de convivência, espirrava água para tudo quanto é lado. Tive que entrar no quarto para esperá-la passar. Infelizmente, a chuva não deu trégua naquele dia e se manteve forte até o outro dia pela manhã.

Entrada da praia do Rezende!

Praia da Tiririca

Quando acordei no outro dia, ainda estava chovendo. Preparei meu café da manhã, comi calmamente e fiquei aguardando a chuva passar. Para falar a verdade, aquilo estava começando me incomodar: Ficar trancado dentro de casa não era o que eu queria.

Hoje vejo que foi o início de um dos processos de autoconhecimento que desenvolvi durante a viagem, comecei a perceber o quanto estava ansioso por fazer algo diferente e conhecer um lugar novo. Mas não tinha motivo nenhum para ter pressa, se não fosse possível sair naquele dia, sempre haveria o próximo.

Essa é uma das vantagens de viajar sem prazo para ir embora dos lugares, não há a necessidade de fazer as coisas na correria. Mas a minha mente ainda estava pensando como se fosse alguém querendo aproveitar as suas férias, que eram curtas.

Refleti sobre isso por alguns momentos até acalmar minhas ideias. Obviamente que em outros momentos esse pensamento voltou, mas sempre acabava com esse exercício, que resgatava a minha condição de viajante sem motivos para ficar ansioso ou aborrecido.

Depois de um tempo esperando, apesar da chuva fui para a rua mesmo assim, caminhei até a praia das Conchas, que fica mais “no meio” da cidade. O céu estava nublado nublado, mas mesmo assim a paisagem, formada pela praia, os barcos e algumas faixas de terra, era muito bonita.

Vista do Mirante da praia de Conchas!

Depois de andar por toda a sua orla, voltei para a rua Pituba, passei no mercado, comprei uma maçã para ir comendo no caminho. Repeti o mesmo trajeto do dia anterior e subi até a praia do Rezende. Lá estendi minha canga e fiquei por cerca de 1 hora escutando música, sem fazer nada, apenas observando a vista e escutando um som.

Mais uma vez a chuva dava sinal de que ia ficar intensa, me obrigou a tomar o caminho de volta para a pousada mais uma vez. No caminho, conheci duas argentinas que me pediram informação sobre onde ficavam as praias. Indiquei o caminho para elas e voltei para a pousada.

Aproveitei para almoçar, comi um lanche rápido e vi que aquela chuva era apenas um alarme falso. Então, nem perdi tempo e rumei para as praias novamente. Dessa vez passei reto pela praia do Rezende e fui direto para a segunda praia, a Tiririca.

Essa praia foi uma das que mais gostei em Itacaré, tem um gramado bonito, uma faixa de areia maior e dependendo do horário, pode-se ver algumas pessoas surfando. Sem contar o traço marcante da vegetação que acompanha praticamente todas as praias de lá.

Sentei e fiquei observando o mar. As argentinas, Laura e Paula estavam por lá também, compartilharam o seu mate comigo e ficamos conversando. Inclusive uma delas, ao saber que eu queria ir para Boipeba nos próximos dias, comentou que a sua irmã morava lá e trabalhava em um hostel, me indicando o local para ficar.

Apreciando a vista da praia da Tiririca!

Depois de uma ótima tarde de conversa, fui embora, tomei um banho e sai para dar um rolê pela noite de Itacaré. Comi uma tapioca, estava com vontade há dias! Depois voltei para o quarto para ter alguns minutos de descanso.

Um pouco mais tarde, sai com a Vanessa, a Débora e a Linda atrás de qualquer música ao vivo pela cidade, fomos até a passarela da vila, mas não tinha nada. Voltamos para a Pituba e encontramos um lugar que estava tocando forró, mas estava vazio. Mesmo assim deu para relaxar, tomar uma cerveja e conversar.

Conforme a noite passou, o movimento ali ficou interessante e deu até para a Linda ir para a pista e fazer uma das coisas que mais gostava: Dançar forró!

Terceira e quarta praia

Finalmente chegou o dia em que a chuva parou e fez sol! Combinei de ir até a terceira e quarta praia com a Linda e a Vanessa. A terceira praia, a da Costa, também é muito bonita, mas tem uma faixa de areia bem curta. Como tinha chovido muito nos dias anteriores, tinha também uma poça de água enorme, bloqueando um bom pedaço de areia. Passamos só para observar e tirar fotos.

Praia da Costa.

Caminhamos até a quarta praia, a da Ribeira. Essa talvez seja a praia mais bonita e a mais frequentada ali na cidade. Tem uma boa faixa de areia para se acomodar, há quiosques para quem quer comer e espaço para quem gosta de sentar na areia mesmo, no caso eu, além das arvores para pegar uma sombrinha.

Fiquei observando a galera surfando e todo o tom selvagem que aquela praia tinha! Já falei aqui, mas não custa repetir: Uma das peculiaridades das praias de Itacaré é a mistura de uma natureza bem marcante com mar, areia e as pedras… é como se fosse a praia com um pedaço de floresta do lado. Acho que eu nunca tinha visto algo do tipo antes, por isso aquilo me encantava.

Praia da Ribeira

Surfar em Itacaré também é super tradicional, as praias parecem que foram feitas para isso, com ondas grandes. Lembro da hóspede da pousada em Caraíva que me contou que acordava as 5 da manha todo dia para surfar quando estava por ali.

Minha felicidade naquele dia era aproveitar o dia de sol, então fiquei até quanto foi possível na praia, tomando sol, tomando banho de mar, ouvindo música, sem se preocupar com nada! Até que a hora de ir embora chegou, o tempo já estava armado e começou a chuviscar. Tudo bem… não tinha do que reclamar!

A alegria do menino em pegar um dia sem chuva 😛

Quando estava voltando para a pousada, encontrei a Brianna, fazendo o caminho inverso. Eu conheci a Bri lá em Piracanga nos dias que frequentei a casa da Floresta. Ela morou um tempo por lá e agora estava começando uma viagem pela Bahia, antes de voltar para a sua residência em Sampa.

Trocamos contato pois vimos que nossas rotas eram parecidas e poderíamos fazer companhia um ao outro. Combinamos de nos encontrar nos próximos dias para ir as praias.

Naquele dia ainda chegou mais um mochileiro na pousada por meio do Couchsurfing. O Ivan, que é argentino e iria ficar somente 1 dia hospedado ali. Nos próximos dias, iria para uma comunidade ali perto, trabalhar como voluntário. Naquele momento não tive muito contato com ele, pois mal o vi ao longo do dia.

Mas infelizmente ele teve que voltar depois de 2 dias, não deu certo para que ele pudesse ficar nessa comunidade. Pelo que me lembro, houve um mal entendido no contato entre eles e o Ivan não se atentou que precisaria contribuir com uma quantia em dinheiro por dia. Então, ele ficou só 1 ou 2 dias e depois voltou para Itacaré para seguir viagem, pretendia encontrar um trabalho por lá ou então tentar em Morro de São Paulo.

Começou a chover ali no meio da tarde e a chuva foi aumentando gradativamente até a noite. Mesmo com chuva, sai e fui até um hostel que se chama Bananas. Lá estava rolando música ao vivo, uma bandinha de reggae muito legal, com um som muito bom.

Mas a chuva começou a aumentar e a ficar muito forte, o que já era de lei naqueles dias, o que fez que todo mundo se apertasse nos poucos espaços cobertos do quintal do hostel… já era madrugada, sem muito espaço para me abrigar, resolvi voltar e dormir!

Berimbau no pôr do sol

A chuva que ficou forte a noite continuou pela manhã e só aumentou. Me lembro de acordar e encontrar a Débora na porta do seu quarto. A nossa única reação era só lamentar a situação, lembro que ela falava: “Meu, que desespero.” Eu fazia das palavras delas as minhas… que desespero!

Fiquei assustado com a quantidade de água que caiu naquele dia. Mas, como tudo nessa vida passa, a boa notícia é que no fim da tarde, no começo da noite, a chuva passou! Ufa! Deu até para sair e curtir um pouco da noite de Itacaré lá na passarela da vila.

Estava tendo um sambinha, não era dos melhores, mas para quem estava entediado por causa da chuva, era um ótimo programa. Lembro que por muitas vezes acontecia uma situação bem engraçada: O vocalista ficava bravo por algum motivo com os outros músicos e fazia caras e bocas hilárias.

Nos outros dia dei um rolê com a Bri, lembro que fomos a praia de Conchas e até pegamos um pôr do sol sensacional, com direito até a um cara tocando Berimbau, transformando aquilo em um espetáculo completo. Parece que é tradição, quase todo dia ele faz isso.

(Encontrei esse vídeo no youtube de alguém que registrou como é esse momento)

Uma das vistas do pôr do sol no mirante da praia de Conchas.

Em outro dia, passamos também pelas 4 praias e ficamos boa parte do dia na praia da Ribeira, jogamos frisbee com uns gringos que estavam no hostel que ela estava hospedada e depois até almoçamos com os caras em um restaurante muito bom, comida boa e barata.

Naquela altura da semana, já era sábado e ia ter show da banda 3030 na cidade. Então, o movimento começou a ficar um pouco mais cheio do que o normal. Eu preferi seguir o fluxo contrário e curtir um forró lá na passarela da vila mesmo.

Engenhoca… Havaizinho… Itacarezinho

No meu último dia em Itacaré fui conhecer algumas praias que ficam na parte rural da região, ou seja, na estrada. Fui até a rodoviária com o Ivan e a Bri, lá pegamos o ônibus que vai para Ilhéus e pedimos para descer no meio do caminho, na entrada para a trilha da praia da Engenhoca.

Caminhamos um trecho de estrada até adentrarmos na trilha. Foi tudo tranquilo, coisa de 20 ou 30 minutos e já estávamos na praia. Atravessamos um mini rio, formado pela maré, e nos alojamos perto de um coqueiro na faixa de areia da praia.

Começou a ficar difícil decidir qual praia era a mais bela por ali. A Engenhoca realmente faz a jus a fama de ser uma das praias mais bonitas da região. Não lembro muito da cor da água, só lembro que a mistura da praia em si com a floresta e os coqueiros davam um charme sem igual para o lugar.

Ficamos um bom tempo por lá, deu tempo de conversar, tomar sol, entrar na água e até achar um mirante para tirar fotos da praia vista de cima.

Engenhoca vista de cima!

Depois pegamos a trilha rumo a praia do Havaizinho, essa também foi uma trilha fácil e chegamos em um espaço de grama bem grande, onde era possível observar a praia de cima, que é bem bonita também, só que menor!

Atravessamos algumas pedras e chegamos na faixa de areia, onde até que tinha um movimento bom de pessoas para o pouco espaço que tem. Pedimos informação sobre a trilha da praia de Itacarezinho e subimos.

Havaizinho

Seguimos pelo caminho indicado, foi uma boa dose de subidas e respirando o mais puro ar que só a mata Atlântica pode proporcionar. Teve até um momento que tivemos que nos dependurar em uma corda para passar.

De repente veio o ponto mais sensacional daquele dia, que é a vista da praia do alto da trilha! Da para vê-la por completo… Sensacional! Se aquilo não é um paraíso, eu não sei mais o que é.

Vista de cima da trilha para a praia de Itacarezinho.
Mais uma da vista da trilha da praia de Itacarezinho.

Descemos para o fim da trilha e chegamos na praia. Ainda era começo da tarde, nos alojamos em uma sombra e aproveitamos o restante do dia para admirar aquela beleza. A cor da água era linda!

No fim da tarde voltamos para a estrada, esperamos o ônibus voltando de Ilhéus para retornarmos a Itacaré. Por sorte passou uma mini lotação com vaga e subimos nela.

Lembro perfeitamente da lotação parando ponto por ponto para oferecer o transporte. Lembro também de um ponto que tinha uma tiazinha esperando o ônibus que estava relutante em subir por causa de R$0,50 mais caro que era o preço daquele transporte. O motorista insistia que subisse e um cara do meu lado falou: “Tia, qualquer coisa eu intero a sua passagem!”

É meus amigos, a bondade do povo nordestino é algo sem igual, ali ninguém morre de fome não!

Camamu

A noite de despedida em Itacaré não teve muita novidade em relação as outras. O mais legal é que deu para sair tomar umas cervejas umas com as meninas, Vanessa e Débora, e dar muitas risadas.

A receptividade e a amizade delas foram muito importante para a viagem. Em pouco tempo já me consideravam da família. Para quem passa um tempo viajando, é muito legal encontrar pessoas com uma sintonia igual a nossa pelo caminho. 

Sem saber muito sobre a capacidade da estrada em promover reencontros, falei para elas da minha vontade de chegar em Jeri e ficar um tempinho por lá. Elas comentaram também que queriam ir para lá muito em breve.

Enfim, ainda tinha muita estrada para rodar! Depois de alguns meses estávamos lá nos vendo de novo!

Ela foram mais duas que entraram para o hall da fama das pessoas que eu não tirei foto junto na viagem. (Sério! Só depois que eu criei o blog que percebi o quanto esqueci de tirar foto com gente tão querida que passou por mim!)

No próximo dia pela manhã me despedi das meninas, e segui com a Bri rumo a rodoviária, paramos no supermercado e compramos algumas frutas para comer. Pegamos um ônibus rumo a Camamu, cidade em que iriamos pegar o barco para Barra Grande, nosso próximo destino.

A passagem por Itacaré foi muito boa, poderia ter chovido um pouco menos, mas também sem reclamar de barriga cheia. Assim como todo lugar legal que eu passo, pretendo voltar um dia, faltou conhecer as outras praias que gostaria de conhecer, como por exemplo, Jeribucaçu e Serra Grande.

A imagem que fica é que aquele lugar realmente merece a fama de paraíso baiano!

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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