#20. Paz e gentileza em Piranhas

Depois de acordar na tranquila Aracaju, naquele domingo pela noite já estava na tão desejada cidade de Piranhas, estava colocando meus pés em mais um estado brasileiro: Era a vez de conhecer Alagoas. O táxi me deixou ali na parte histórica da cidade, bem perto do Rio São Francisco.

Caminhei por poucos metros para encontrar o Albergue Maestro Egildo Vieira. Tinha recebido ótimas referências de lá, tanto de amigos mochileiros, quanto de outras avaliações que consultei na internet. Era ali que queria ficar, cheguei, mas estava fechado!

Tive que esperar um pouco e foi muito bom. Ali já deu para perceber o quão acolhedoras as pessoas são por lá: A vizinha praticamente me obrigou a sentar em uma cadeira enquanto ligava para o Nei, o responsável pelo albergue.

Em poucos minutos recebi o telefone, troquei algumas palavras com ele, que logo saiu da sua casa em um domingo a noite e se dirigiu para abrir o hostel para mim!

Nei, a gentileza em pessoa!

Já tinha vistos alguns relatos na internet dizendo que o Nei era a gentileza em pessoa. Nos dias que estive em Piranhas e frequentei o seu albergue posso dizer que fica difícil encontrar uma definição que se encaixe melhor.

Ele, super educado, me acomodou, e fez questão de agendar para mim a visita aos cânions do Xingó: Foi junto comigo comprar a entrada ali em uma pousada do lado e me tranquilizou, dizendo que no outro dia ligaria para o seu primo e pedir que me levasse de moto até o local que os catamarãs saem em direção aos cânions.

Em uma simples pergunta minha, que mais era uma curiosidade, já percebi o quanto aquele homem era mais uma boa pessoa que a estrada e o destino insistiram em colocar no meu caminho.

Eu queria saber se havia lugares para lavar roupa (já estava com muita roupa suja acumulada… praticamente desde a Chapada Diamantina). Ele fez uma cara estranha, já mostrando que não tinha, ou não sabia, e me perguntou: “É muita roupa? Ah, coloca em um saco que eu levo pra lavar em casa!”

Sim, ele levou toda a minha roupa suja para lavar e não quis cobrar 1 real a mais por isso. Depois de 2 dias, trouxe todas limpas e passadas. Assim fica até difícil não recomendar a hospedagem no Albergue Maestro Egildo, o tratamento ali é um grande diferencial, tudo por causa do Nei.

Não foi difícil notar também que a solidariedade e a empatia são duas de suas qualidades. Às vezes, conversando com ele, tocava o seu celular, era algum vizinho, parente ou amigo pedindo ajuda.

Ele prontamente se dirigia para ajudar e atender aquela solicitação. Que ser humano incrível! Gosta de uma boa conversa e de contar histórias. Um dos momentos mais legais dos dias que passei lá era quando encontrava-o sentado na calçada, sentava do seu lado e ficávamos batendo papo.

Conhecendo o Velho Chico

Acomodei as minhas coisas em uma das milhares de camas ali no albergue, o Nei me explicou o esquema para abrir e fechar a porta, depois foi-se embora para passar o fim de domingo com a sua família.

Na minha cabeça só se passava uma coisa: Eu precisava fazer o primeiro contato com o Rio São Francisco! Para mim, conhecer um dos mais famosos rios brasileiros, tema de algumas aulas de geografia que pouco me recordo, era algo muito esperado.

É um dos cursos d’água mais importantes da América do Sul, corta nada mais, nada menos que 5 estados brasileiros (vai de Minas até Pernambuco). Muitos o tem como a esperança para aliviar a seca da região semiárida do Nordeste. Ou seja, estava prestes a me deparar com uma das maiores preciosidades que temos no nosso país.

Caminhei poucos metros e já estava na margem do rio. Pensei comigo: “Ahh Velho Chico… como eu estava querendo te ver!” Ali no escuro, sentei e fiquei alguns minutos olhando para o movimento da água, até que a paz (e a fome) tomou conta de mim.

Piranhas a noite!

Caminhei mais um pouco pela acolhedora Piranhas, não tinha uma alma viva na rua, o conforto nos meus pensamentos só crescia a cada passo que dava, no fundo eu sabia que seria feliz ali e assim mentalizei isso, deu certo!

Apesar de estar a noite, já comecei a me encantar com cada detalhe das casinhas e das ruas em paralelepípedo. Comi em um restaurante qualquer perto do albergue, tomei banho e fui dormir.

Mais uma de Piranhas pela noite.

Navegando pelos cânions do Xingó

Eu não sabia da existência dos cânions do Xingó até começar a levantar quais lugares que poderia conhecer no Nordeste do Brasil, antes de começar essa viagem. Quando soube que existia algo do tipo, ali no Rio São Francisco e com uma cidade como Piranhas do lado, não quis nem saber, cravei esse ponto como um destino que deveria passar com certeza.

Amanheceu, tomei um café da manhã caprichado, preparado pelo Nei. Sabe aquela refeição simples, mas com fartura? Pois é, era isso! Ao terminar, ele já ligou para o primo dele que apareceu no albergue e combinamos o horário dele me levar de moto no ponto de partida do passeio.

Aproveitei o resto da manhã para tomar o primeiro banho de rio. Me dirigi até o Velho Chico novamente, cumpri meu ritual habitual de observar a natureza antes de colocar os pés no mar, cachoeiras e rios e finalmente entrei.

A água estava uma delícia! Fiquei um tempo recebendo as boas energias daquela água e depois caminhei mais um pouco pela cidade para meus olhos se habituar ainda mais com toda sua característica peculiar, simplicidade, além da tranquilidade.

Nas margens do Velho Chico.
Rio São Francisco lindão!

Me admirava muito aquelas casinhas com uma pegada histórica! A todo canto que andava tinha alguém sentado em uma cadeira fora de casa, sempre com um  “bom dia” entre os lábios.

As casinhas de Piranhas…

Por volta das 11 horas encontrei com o primo do Nei e ele me levou até o passeio dos cânions. Aquele fim de manhã e início de tarde foram recheadas de paisagens e naturezas que me prendiam os olhos, não conseguia desviá-los por nenhum momento. Tudo muito lindo e diferente!

Vista do caminho para os cânions do Xingó.

Para quem não sabe (eu não sabia!), os cânions do Xingó só existe depois da iniciativa da construção da Usina Hidrelétrica do Xingó, na divisa entre Alagoas e Sergipe. O represamento das águas do Velho Chico deu origem a eles em 1994.

Apesar de recomendar fortemente conhecer os cânions, tenho algumas ressalvas, o modo que a visita é conduzida não me agradou muito. O estilo do passeio é muito turístico, o valor cobrado não é dos mais suaves (se não me engano era R$80 por pessoa).

Além disso, é a típica oportunidade para a empresa que faz o passeio ficar inventando um monte de serviços extra que você pode aderir a um preço absurdo (Fotos, comida, bebidas, dentre outras coisas). Eu, obviamente, não comprei nada disso, estava ali pelos cânions, pelo Rio São Francisco.

Fiquei a maior parte do tempo de pé no catamarã, só observando o caminho recheado de formações rochosas e daquelas águas verdes do Velho Chico. Durante o percurso eles fazem questão de mostrar os lugares em que algumas novelas e minisséries da Globo foram gravadas.

Sem dúvida, a parte mais legal é quando chega-se perto dos cânions com um barco menor. Tem que pagar R$10 a mais, mas vale muito a pena! Estar bem perto daquelas formações é algo incrível, parece cena de filme!

Uma das formações encontradas pelo caminho…
A cor da água era linda!
Cânios do Xingó!
Chegando bem perto dos cânions!
Bem perto mesmo…

Andando por Piranhas

A visita aos cânions acabou e voltei para Piranhas. Encontrei o Nei sentado na calçada do albergue e começamos a conversar. Ele começou a me contar algumas de suas boas histórias, carregadas do seu orgulho por quem foi o seu irmão, o Maestro Egildo. As histórias são variadas, têm muito dos instrumentos que ele mesmo inventava e também episódios com um de seus velhos amigos, o mestre Ariano Suassuna.

Outra história que me contou foi a recente e trágica morte do ator Domingos Montagner no rio São Francisco. Ele descrevia como era bonito de ver os atores da minissérie e de um outro filme, que estava sendo gravado ali, sentados e descansando por Piranhas, além da movimentação da cidade no dia do episódio em que aconteceu a fatalidade.

Isso me deixou um pouco mais atento em todos os momentos que queria tomar um banho no rio, realmente ele não é para brincadeiras.

Já era quase fim da tarde, aproveitei para dar mais um rolê pelas ruas de Piranhas. Realmente aquela tranquilidade e simplicidade me fascinava, não me cansava de observar toda a sua calmaria, parar por vários momentos, sentava em um banco ou muro e ficava só observando.

Caminhando um pouco mais pela cidade…

Subi as escadarias que davam até uma igreja e fiquei um tempo por lá pensando na vida, acompanhado da vista de parte da cidade. Depois subi até ao mirante da cidade, não deu para ver o pôr do sol, estava nublado, mesmo assim a caminhada não foi perdida. Observar aquela mistura de cidade com o rio São Francisco é uma das coisas mais lindas que eu tinha visto nos últimos dias.

Vista incrível da cidade e o Rio São Francisco ao seu lado!

Escureceu, voltei para o albergue, tomei um banho, conversei mais um pouco com o Nei, jantei e voltei para as escadarias da igreja, fiquei por ali o resto da noite! Se antes eu estava com dúvidas se ficaria mais um dia em Piranhas, me veio a certeza que aquela cidade valia um dia inteiro só para ela.

Piranhas de baixo

Eu até queria conhecer a famosa Rota do Cangaço, visitar o lugar em que o Lampião foi capturado me despertava muito a curiosidade. Mas pelo que conversei com o Nei, me parecia mais um passeio turístico. Andar por Piranhas e descobrir ainda mais a cidade me agradava mais.

Caminhando pelas margens do Rio São Francisco.

Acordei, tomei aquele café da manhã reforçado e já desci para Piranhas de baixo, onde fica concentrada a maioria dos pescadores da cidade. Só para variar um pouco, andei tranquilamente por ali, tomei banho em diversos pontos do Rio São Francisco.

Conversei com alguns dos pescadores que estavam trabalhando, perguntava onde era tranquilo nadar e aproveitava para bater um papo sobre o rio, a pesca, a hidrelétrica, a falta de peixes e afins.

Sem dúvida, Piranhas de baixo era tomada de humildade, tranquilidade e paz. Era muito bom estar por ali! A manhã passou muito rápido e quando eu vi já tinha passado da hora do almoço.

Rio São Francisco…

Pela tarde fiquei andando pela cidade, fui no museu do Sertão, observei atentamente as histórias do Cangaço, de Lampião, Maria Bonita e o seu bando. Subi novamente as escadarias da igreja e fiquei pensando na vida de novo! Aquele foi um dos meus lugares favoritos para ficar sozinho.

Sabia que aquelas eram as últimas horas por lá, agradeci por estar presente ali e por um momento pensei que se pudesse escolher passar a minha velhice em algum lugar, seria na cidade de Piranhas!

Cerveja, boa conversa e despedida de Piranhas

A noite, descobri que não estaria só no albergue, havia chegado duas moças para me fazer companhia, a Carla e a Cassia. Duas paulistanas muito queridas. Conversamos um pouco e já resolvemos tomar uma cerveja ali por perto. Fizemos questão de chamar o Nei para sentar-se e beber conosco.

Foi uma noite agradável com um bom papo sobre a vida, viagens, as histórias do Nei e do seu irmão. Tudo isso para fechar a excelente passagem por Piranhas, uma das cidades que mais gostei de estar.

No outro dia teria que levantar cedo, por volta das 5 da manhã, para pegar uma van até Arapiraca, onde pegaria outra até Penedo, meu próximo destino. O Nei, preocupado, me fez ir logo cedo porque lá eu estaria em uma cidade “grande” segundo ele. Então, não poderia correr o risco de chegar lá muito tarde e não ter transporte.

Fiz questão de tirar uma foto com o Nei.
Eu, Nei e as meninas em nossa última noite em Piranhas.

Já estava ficando tarde e todos resolvemos dormir, me despedi do Nei e das meninas. Quando vi já estava de pé novamente, esperando a van na frente do albergue pela madrugada. A minha despedida de Piranhas foi bem semelhante ao momento em que cheguei: Estava em paz!

Deu para sentir por aí a paz de Piranhas também? Então, acompanhe a página do blog no Facebook também 🙂

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *