#29. Pipa da Reflexão

Ainda na rodoviária de Jampa, esperei umas duas horas até embarcar no ônibus que vai para Natal. Pedi para o motorista que me deixasse no meio do caminho, na cidade de Goianinha. Nisso, estava conhecendo mais um estado novo, o Rio Grande do Norte.

Goianinha

Desci e caminhei por aquela cidade bem pequena, fiquei um tempo observando a igreja em uma pracinha e esperei no ponto, onde ficam as vans que levam as pessoas para a praia de Pipa. Depois de uns 40 minuto de viagem, cheguei em mais um paraíso prometido.

Pipa fica em Tibau do Sul, a cidade tem um clima bem legal e uma “buena onda”, como dizem os argentinos. Infelizmente não consegui aproveitar tudo aquilo conforme gostaria ou imaginava.

Peguei uma semana inédita de muita chuva, que insistiu em me acompanhar por todos os dias, mas também me ensinar algumas coisas, passei também o primeiro perrengue de saúde durante a viagem, contarei mais detalhes mais adiante.

Canal OFF ao vivo!

Desci no centrinho, caminhei a procura de um hostel que foi indicação do Ricardo, que conheci lá em Maragogi. Achei! Depois de esperar por um tempo até o dono do estabelecimento chegar para fazer o meu checkin, fui ao mercado, comprei algumas coisas e almocei.

O hostel fica em um lugar alto, com uma vista incrível para a praia. Eu ainda tinha algumas horas para conseguir ver o pôr do sol. Resolvi descer e dar uma leve caminhada pela praia do centro. Andei até o momento em que vi que o pôr do sol iria começar em breve.

Voltei correndo ao hostel para ver aquele espetáculo lá de cima, da varanda. Incrível! Lembro que uma menina que estava lá e comparou aquela vista da praia com o Canal OFF. Parecia mesmo que estávamos vendo o famoso canal de TV ali, ao vivo!

“Canal OFF” em Pipa!

Naquele dia, já começou a chover, mal eu sabia que a chuva estaria comigo por toda a minha estadia em Pipa. Sem imaginar isso, pela noite fui para um reggae em um barzinho, encontrei a Bianca, amiga do Felipe (que visitei em Piracanga.)

A Bia é mais uma dessas pessoas corajosas que largou a vida corrida da cidade grande para morar em algum paraíso no Brasil. Em Pipa, ela desenvolveu o seu dom artístico, uma de suas atividades é confeccionar umas plaquinhas com mensagens legais de madeiras reaproveitadas, a iniciativa dela se chama Flores do Sol.

Ela aprendeu com um artista que mora lá em Pipa, o Rafa Santos. Por toda parte da cidade tem algumas obras do cara, que são muito legais, trazendo muita consciência e reflexão, principalmente para os turistas sem muita noção de cuidado com a natureza.

Uma das obras do Rafa Santos

Pois bem, já no meio do reggae choveu muito. Esperei a chuva acalmar e fui embora dormir.

A chuva não parou!

No outro dia acordei pensando em aproveitar a praia, mas não foi possível. A chuva ainda estava bem forte! Tomei meu café da manhã, esperei e, quando deu uma trégua, fui conhecer a famosa Praia do Amor.

A maré estava baixa e deu para ir caminhando pela praia do Centro. Mesmo com o tempo feio, deu para notar o quanto aquela praia é diferente e linda! Aliás, as praias de Pipa são totalmente diferentes de qualquer outras que já vi.

As falésias ao fundo dão um charme incrível, transformando aquilo tudo em uma bela paisagem! A Praia do Amor ainda tem um algo a mais: uma biblioteca comunitária em plena areia. Apesar de estar um pouco abandonada, achei sensacional!

Biblioteca na Praia do Amor.

Devo ter ficado no máximo uma hora na praia e já começou a cair outra chuva forte! Tive que voltar correndo, dessa vez subi as escadas no meio das falésias e fui cortando caminho por dentro da cidade.

Caminhando pela praia…

Voltei ao hostel e aproveitei para interagir com o pessoal em uma confraternização de um casal de voluntários argentinos que estavam se despedindo e seguindo viagem para Jeri. A festa basicamente tinha só argentinos, já deu para ver que Pipa é dominada por muitos deles, que simplesmente amam essa parte do litoral brasileiro.

No fim da tarde, teve uma oficina de comida vegetariana em um espaço bem legal, com uma pegada bem cultural. Acho que a temática da oficina era de brotos e germinados. Foi uma recomendação da Bia e resolvi ir conhecer, já que praia não estava rolando.

Pipa da Reflexão

Quando estava no meio dessa oficina, percebi que comecei a passar mal, senti uma dor no estômago bem forte, fazia anos que não sentia algo assim. No meio do curso tive que me afastar, fui ao banheiro e simplesmente vomitei.

Me senti melhor depois daquilo, mas assim que o curso acabou a dor voltou e no meio da rua, a caminho do hostel, tive que me sentar na calçada e vomitar novamente, não deu para segurar. Já fui direto para a farmácia e comprei aqueles envelopes com um pozinho que vira soro caseiro ao misturar na água.

Chegando no hostel, fiz um litro de soro e tomei metade. Nessa hora, senti uma fraqueza bem grande, a sensação era de que eu estava estragado, meu único movimento era dormir, fui isso que fiz. Só levantei da cama porque comecei a passar mal novamente, vomitei de novo no banheiro do hostel.

Nesse momento uma preocupação começou a bater, eu nunca precisei ser internado para tomar soro, talvez a primeira vez estaria bem próxima. Tomei novamente a solução de soro caseiro e dei um toque nos argentinos, falei que talvez eu precisasse ir para o hospital.

Se eu passasse mal novamente é porque realmente meu estômago não estaria aceitando nada e a solução seria tomar remédio na veia. Por sorte não precisei, depois dessa nova dose de soro caseiro, tudo pareceu acalmar e consegui dormir a noite toda.

Analisando o que aconteceu, acho que quase peguei uma intoxicação alimentar. Ainda bem que não precisei ir ao hospital, descobri que o Pronto Socorro de Pipa só funciona durante o dia, com horário marcado previamente, ou seja, teria que conseguir que alguém me levasse para Tibau do Sul.

Na manhã seguinte, aproveitei que estava chovendo forte ainda e repousei bastante. Fiz algumas coisas leves para comer (após pedir algumas sugestões para minha mãe e meu pai) e aproveitei para refletir sobre a minha alimentação. Realmente ela não estava a das mais saudáveis nos últimos dias, aliás, estava bem longe disso há um certo tempo. Senti a necessidade de me cuidar um pouco melhor.

Nunca tive uma grande sensibilidade com alimentos a ponto de passar muito mal, certamente aquilo era uma reclamação do corpo! No finzinho da tarde tudo melhorou, inclusive, o tempo. Até deu para pegar uma praia. Fui até a praia do Amor e fiquei por lá até o anoitecer… relaxei e meditei!

Entrada da praia do Amor

Caminhando até a praia do Madeiro

Quando vi, já era quinta-feira, estava em Pipa há uns 4 dias e não tinha conhecido nada além da praia do centro e do amor. Para variar estava chovendo, os moradores da cidade estavam espantados, diziam que aquela semana era totalmente atípica.

Tempo feio em Pipa

Mesmo assim resolvi fazer algo diferente, esperei a maré baixar para conhecer as outras praias. Caminhei até a praia dos Golfinhos e depois fui para a próxima, que fica ao lado, a Praia do Madeiro. Essas duas novas praias também são lindas, não deixam nada a desejar para a praia do Amor.

Praia dos Golfinhos

Aproveitei para meditar, relaxar, ainda no meu processo de recuperação e reflexão sobre a alimentação e outras coisas da vida. Ainda naquele dia, a Bia me convidou para ver o pôr do sol no Mirante (um bar muito bem localizado, bem no alto). Que vista incrível era aquela!

Refletindo….

No caminho mais um reencontro da estrada, esbarrei com a Mariana e o Jacob que conheci em Itacaré. Realmente esse mundo e esse país é muito pequeno. Conversamos um pouco e depois cada um seguiu o seu rumo.

Praia do Madeiro

No fim da tarde, ainda deu tempo de passar em uma feirinha orgânica que estava rolando, achei muito legal saber que tinha esse tipo de iniciativa por lá. Aproveitei e comi uma Samosa (um bolinho indiano), para matar a saudades de um dos meus restaurantes favoritos em Curitiba e algumas empanadas.

Vista do Mirante

Naquele dia eu já estava bem e resolvi curtir a noite de Pipa. Preferi ficar pela rua, ao invés de pegar uma balada. Foi uma noite cheia de gringos, tocando muito reggaeton, o tipo de música que combina com Pipa.

Abrindo mão do pôr do sol

A semana já estava chegando ao fim, eu tinha planos de ir para Tibau do Sul, ver o pôr do sol, que dizem ser fantástico. Mas o tempo insistia em trazer nuvens e chuva! Realmente eu fui “premiado” com uma semana com o tempo fechado, além de ser  a primeira vez que “adoeci” na viagem.

Não tinha o que fazer, tive que abrir mão desse pôr do sol e apenas aceitar… o pensamento era de que depois da tempestade certamente viria a calmaria. E ela veio! eu estava em contato com alguns hostels em Jericoacoara, procurando trabalho voluntário.

E a resposta foi positiva de um deles! Já na segunda-feira eu iria começar a trabalhar lá. Abri mão do pôr do sol em Tibau do Sul para ganhar muitos outros em Jeri, nessa altura do campeonato em nem sabia disso.

Depois de mais de 1 mês turistando, era hora de trabalhar de novo, pela primeira vez em um hostel, uma experiência que eu queria muito. Infelizmente tive que pular alguns outros destinos que queria conhecer, São Miguel do Gostoso e Canoa Quebrada. Mais motivos para voltar no futuro naquela região.

Sei que um dia a oportunidade de voltar outra vez para conhecer esses lugares aparecerá, além de passar uma nova temporada em Pipa e mudar essa imagem de dias que não foram tão bons! Entre domingo e segunda fiz uma longa viagem passando por mais 2 capitais brasileiras: Fiz o trajeto Pipa – Natal e Natal – Fortaleza.

Cheguei em Fortaleza por volta das 6 da manhã, comi algo e esperei o meu ônibus para Jericoacora, que já estava me chamando há tempos! Estava na área de embarque quando o ônibus chegou, o letreiro piscava na minha frente: Jijoca de Jericoacoara.

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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