#1. Plano B

Acho que quase nada na minha vida aconteceu seguindo um plano A. Aliás, arrisco dizer que as coisas que seguiram esse plano não foram muito bem sucedidas ou tiveram que acabar cedo.

A verdade é que na maioria dos casos tive que recorrer para um plano B! Hoje tenho consciência do quanto fui e sou feliz com ele!

No fim do ano passado decidi investir um tempo da minha vida em algo que sempre quis fazer: viajar por aí! Como eu cheguei até aqui? Isso é assunto para outro post.

Resolvi começar pelo Brasil! Afinal, já fazia um tempo que eu não mochilava (acho que uns 2 anos) e eu sempre me restringi a conhecer a famosa bolha Sul – Sudeste. Estava na hora de conhecer nosso país um pouco mais!

Mal eu sabia, mas com essa viagem, o destino não podia preparar algo diferente. A minha ideia inicial era partir em fevereiro desse ano (2017) e após conseguir um trabalho voluntário em troca de hospedagem e alimentação em São Thomé das Letras — MG, meu primeiro destino, e depois turistar pelas cidades históricas de Minas.

A plataforma que escolhi para procurar esse trampo foi o Workaway, que é uma de muitas outras que existem disponíveis por aí, com a proposta de unir viajantes e hosts (pessoas que tem algum tipo de demanda, tipo donos de hotel, hostel, pousada, fazendas, dentre outras coisas…) em uma troca de experiência pelo mundo.

É o que chamamos de Work Exchange! Aqui tem uma explicação melhor sobre o que é isso!

Fiz o upgrade da minha conta para a conta premium (Acho que paguei 30 dólares por 1 ano) para poder entrar em contato com os hosts e já enviei uma solicitação me colocando a disposição para dois deles, que são de lá de São Thomé.

Passaram alguns dias, a resposta não veio e a ansiedade me corroía um pouco. Resolvi não me apegar ao meu “planejamento” e cheguei a conclusão de que precisava partir o quanto antes, iria inverter os planos: A ideia agora era turistar em São Thomé e conseguir um trabalho mais adiante.

Logo encontrei um trabalho em uma fazenda perto de Ouro Preto e mandei minha solicitação. Para minha surpresa, ela prontamente foi respondida! Era um sábado de manhã, combinei com o host de começar os trabalhos por lá na próxima sexta. Então, minha viagem teria que começar já na segunda-feira.

No próprio sábado já resolvi deixar tudo certo para iniciar a viagem: reservar um hostel em São Thomé das Letras, comprar as passagens e começar a arrumar as malas. No sábado, sai com um dos meus melhores amigos em Pira para me despedir e no domingo levei meus pais para almoçar em um dos seus restaurantes favoritos.

Por fim, terminei de organizar os últimos detalhes da mala, me despedi de mais algumas pessoas e estava pronto para seguir viagem…

6 AM

O dia começou bem cedo. Aliás, me lembrou uma boa parte da minha infância! Meu pai me acordou logo às 6h, bem como aconteceu em boa parte da minha vida, quando eu ia para a escola no período manhã.

Dessa vez, o compromisso era algo diferente, algo que eu escolhi e não uma coisa imposta, uma obrigação. A sensação era diferente, iria dar início a uma jornada tão esperada nos últimos meses, após algumas decisões não muito fáceis de serem tomadas…

Por um tempo dei uma viajada ainda na cama. Lembro-me muito bem que quando tinha que acordar esse horário, algumas (poucas) vezes eu negociava com meu pai para faltar da escola e voltar a dormir. Hoje não era o caso, apesar de uma pontinha de medo tomar conta de mim, eu precisava partir! Postergar esse “compromisso” não era algo negociável comigo mesmo!

Não me recordo bem o horário, mas peguei um dos primeiros horários de ônibus que tinha de Piracicaba para Campinas e de lá tomaria outro ônibus para Três Corações já no meio da manhã.

On the road

Já na estrada, segui caminho até o nosso querido estado de Minas Gerais, lembro de ter passado por cidades como Jacutinga, Pouso Alegre, Ouro Fino (onde vi o monumento do menino da porteira de costas), São Gonçalo do Sapucaí e finalmente Três Corações. Cheguei por volta das 17h.

Monumento Menino da Porteira… de costas ¬¬

Durante a viagem, tive uma sensação muito boa, curti demais a paisagem e por alguns momentos gostei de estar sozinho, aproveitando cada momento da estrada. Era somente eu e a janela do ônibus.

Uma das coisas que acontecem comigo em viagens de ônibus, é que as vezes me sinto tão em paz vendo o caminho e a estrada, que desejo que o destino se demore a chegar. Era essa a sensação naquele momento!

Paisagem de alguma estrada de Minas

Cheguei em Três Corações, terra do Pelé e esperei pouca coisa, uns 40 minutos, até chegar o próximo ônibus para São Thomé. O ônibus chegou e eu embarquei, aparentemente ele estava dominado somente por locais, de mochileiros tinha somente eu e mais um casal.

O trajeto é muito bonito, com uma paisagem que não deixa nada a desejar também. O ônibus fez uma parada em uma cidade no meio do caminho chamada São Bento, já deu para perceber que em breve iria me deparar com uma realidade de cidade pequena e bem simples (logo eu, que estava acostumado com Curitiba e Floripa, os dois últimos lugares que morei em 2016).

Igreja no caminho entre São Bento e São Thomé das Letras

Pedra da Bruxa

Chegando em Santumé não deu outra, a primeira impressão é de que a cidade é bem pequena mesmo, porém é muito peculiar, ela possui subidas e descidas bem inclinadas (em alguns dias descobri que não era tanto quanto Ouro Preto).

As suas ruas são quase todas feitas de pedra e já percebe-se a energia e o misticismo que envolve aquele lugar. Há muitos campings e pousadas que puxam muito para esse lado!

Já na rodoviária, duas senhoras me abordaram oferecendo um chalé para ficar, eu educadamente agradeci e falei que já tinha onde ficar. Resolvi ir a pé até o hostel (não sei também se havia outra alternativa naquele horário, já era quase 19h).

Consultei antes no Google Maps e parecia tranquilo de chegar, além de que eu já estava todo confiante em não me perder devido ao tamanho da cidade, então resolvi arriscar… andei 2 quarteirões e já me perdi!

Então, comecei a pedir ajuda para os locais. Eu sabia que o hostel era perto da Pedra da Bruxa, então comecei a perguntar sobre como eu chegava nesse monumento da cidade.

Subi rua, desci rua, pedia mais um pouco de informação, olhava no Maps, passei um escadão e finalmente encontrei ele: o Sumé Hostel!

Sumé Hostel

Bati no portão e logo fui recepcionado pelo Guilherme. Enquanto ele me mostrava o hostel, conheci também a sua esposa Daiana, os dois eram os sócios do lugar.

Eles foram muito legais comigo desde o início, tiraram todas as minhas dúvidas e também foram super solícitos.

Recomendo muito se hospedar por lá, pois além disso, o custo-benefício é muito bom, paguei R$40 a diária no quarto coletivo com café da manhã incluso.

Fiquei sabendo que estaria sozinho por lá nesses dias, não sabia se aquilo era bom ou ruim (Agora com quase 6 meses de estrada, aprendi a valorizar de forma diferente, tanto os momentos que estou sozinho, quanto os que estou acompanhado).

Enfim, comecei a conversar com eles e foi um momento muito agradável, eles contaram como eles foram parar em São Thomé das Letras e eu falava da expectativa do início da minha viagem, foi uma troca de experiências muito legal.

A história desse casal chegando para tocar um hostel em uma cidade como essa é uma das mais interessantes que já ouvi. Do jeito que eles contaram, realmente foi um chamado da cidade para que eles estejam ali até hoje…

Essa foi uma das primeiras histórias de tantas que me deparei sobre cidades que escolhem pessoas…

Ficamos conversando tanto que perdemos o tempo para ver o pôr-do-sol no mirante… ia ter que ficar para o outro dia! Aproveitei e fui arrumar minhas coisas. Pensei em descansar mas não consegui me concentrar, para ajudar os gatinhos do hostel queriam brincar comigo a todo momento. Então, parei e resolvi bater perna pela cidade mesmo estando escuro.

Queria ver a Pedra da Bruxa, já que era bem perto, mas não obtive sucesso, não dava para ver muita coisa naquele horário. Então, resolvi ir para o centro e começar a me familiarizar com a cidade. Ela é muito tranquila e bem característica de cidade pequena do interior de SP, tem uma pracinha com uma igreja onde todos se encontram.

Andar a noite em São Thomé é muito tranquilo, uma tranquilidade sem igual, além de que todos reforçavam da segurança da cidade. Era o típico lugar que dá para dormir de porta destrancada, sabe?!

Tomei umas cervejas, comi um queijo quente, andei mais um pouco, voltei para o hostel, tomei banho e fui logo dormir com o objetivo de acordar cedo no outro dia e ver o sol nascer do mirante!

Igreja de São Thomé das Letras a noite

Nascer do sol

No outro dia acordei bem cedo (6h20), logo me arrumei e fui para o Mirante ver o sol nascer! Cheguei por lá e já tinha companhia, um rapaz de Sampa aguardando o evento acontecer também. Trocamos algumas ideias, ele falou o quanto conheceu de São Thomé, mas logo foi embora para pegar seu ônibus de volta. Agora estava sozinho!

O céu estava bem cheio de nuvens, foi um pouco difícil para conseguir ver, mas no fim deu certo. A vista daquela parte da cidade é sensacional, dá para ver as montanhas de um lado e do outro a cidade com as casinhas.

Nascer do Sol do Mirante (as fotos não saíram muito boas :/ )
Mirante de São Thomé visto de baixo
Ao sair de lá, descobri que não estava sozinho, tinha um cachorro dormindo embaixo do mirante que me acompanhou até a Pedra da Bruxa. Chegando na Pedra, fiquei impressionado ao ver o tamanho dela, que é muito maior do que eu imaginava. Fiquei observando, tirei fotos, subi e a vista da cidade lá de cima também é sensacional!

Pedra da Bruxa
Vista de cima da Pedra da Bruxa. Da pra ver o Mirante la no fundo…
Muito bom começar o dia já recebendo essa força da natureza!

Cachoeiras

Voltei para o hostel para tomar café da manhã. Tive mais um papo longo com o Guilherme e a Daiana, conversamos de tudo um pouco, desde o rolê do nascer do sol e até sobre OVNIs (Eles me mostraram algumas fotos que eles mesmo tiraram… nunca tinha visto isso e é de se levar em consideração que existe mesmo!).

Me arrumei, aprontei minha mochila com a minha toalha, água e coisas para comer. Parti rumo às cachoeiras. Segui o caminho pela Estrada Real na ótima companhia da Neide e do Chico, dois moradores super simpáticos de São Thomé . Consegui quebrar o gelo perguntando se eles também iam para a cachoeira e isso se transformou em uma longa conversa.

Me lembro que era muito legal a maneira e o entusiasmo com que falavam das paisagens, dos lugares! Eles me contaram sobre vários picos ali por perto que davam para ir também e não são tão “famosos”. Da minha parte, eu pude dar uma pequena contribuição dando algumas “dicas” sobre Foz do Iguaçu, pois eles tinham interesse em visitar.

Foi uma troca muito legal e ainda de quebra fiquei sabendo do carnaval que ia ocorrer na cidade naquele fim de semana (ainda não era o carnaval oficial, mas o povo de lá faz o seu próprio carnaval uma semana antes, o objetivo é eles aproveitarem a data comemorativa também… parece ser bem mais legal do que a festa convencional, fiquei com vontade de voltar em uma próxima para curtir esse evento).

No meio do caminho, chegou a hora de nos despedirmos, pois eles iriam para a casa deles, que foi transformada em um camping (se não me engano o nome era camping São Francisco) e estavam recebendo pessoas há pouco tempo. Nos cumprimentamos com um abraço e eu segui pela estrada até chegar na primeira parada: Cachoeira da Eubiose.

Paguei R$5 para entrar (meio que uma taxa para ajudar a manter o complexo onde a cachoeira fica vivo) e sem dúvida alguma foi a parte que eu mais aproveitei do dia, pois ela estava lá só para mim!

Cheguei, sentei, observei por um tempo e só depois coloquei os pés na água para tomar um longo banho (Geralmente, eu tenho um ritual meio que interno quando entro em contato com a natureza, principalmente quando é o mar, cachoeiras e rios, primeiro paro, tento entrar em conexão para depois entrar na água).

Nadei bastante, parei pra comer e voltei diversas vezes para a água, a manifestação da natureza ali é enorme e me senti muito em paz! Depois de um longo tempo, tive que ir embora, tinham mais cachoeiras para conhecer…

Entrada da Eubiose
Cachoeira Eubiose
Andei mais alguns quilômetros e logo já encontrei a sinalização para a cachoeira do Flávio, essa sem taxa de entrada. Achei ela um pouco mais bonita que a anterior. Quando cheguei logo percebi que não estava só, troquei ideia com os caras que estavam lá, entrei na água e toda hora sempre chegava alguém para conhecer e tirar foto.
Placa no meio do caminho….
Cachoeira do Flavio
Primeira selfie de 1 milhão…

Fiquei pouco tempo, ainda tinha uma boa caminhada até a última parada: Cachoeira Véu da Noiva. Andei bastante e o sol já estava começando a ficar mais forte, já não tinha mais noção do horário, a única coisa que sabia era que já tinha passado da hora do almoço.

 

Faltando 2 Km para chegar, um caminhão me para e me oferecem carona… e la fui eu pegar a primeira carona da viagem! Sensacional! Eram dois caras que estavam no caminhão, conversamos um pouco, mas não entendi muita coisa… eles falavam muito rápido.

Finalmente desci na famosa cachoeira do véu da noiva. Ela sem dúvida é a mais bonita de todas e por ser a mais famosa, estava com muita gente frequentando-a… Nadei umas duas vezes… a queda d’água é bem forte, nem sem compara com as outras duas.

Cachoeira véu da noiva

Fiquei um tempo por lá, o cansaço começou a bater e decidi ir embora. A volta foi um pouco sofrida… para quem estava sem praticar atividade física nos últimos meses, os 12 Km de sol, subida e fome (só tinha comido umas barrinhas de cereal) pareciam intermináveis… dessa vez não consegui nenhuma carona para voltar.

 

Cheguei de volta a São Thomé das Letras e encarei aquilo como um prêmio… fiquei muito feliz ao ver a cidade novamente! Fui ao bar mais próximo e comprei um refrigerante para matar a sede.

Desbravando a cidade

Segui de volta para o hostel e tomei aquele banho merecido, descansei um pouco e sai desbravar a cidade. Visitei praticamente todos os pontos turísticos dela: Cruzeiro, Pirâmide, Gruta, Igreja de Pedra…

Uma pracinha qualquer em Santumé
Cruzeiro
Muito legal a pegada de preservação que está espalhada pela cidade
Casa da Pirâmide

A fome bateu forte e comi um hambúrguer em frente a pracinha da cidade, fiquei observando os hippies tocando violão, estavam bem animados, também vi os preparativos para o carnaval tomar forma.

 

Comprei algumas cervejas e fiquei tomando por lá e observando como Santumé era uma cidadezinha pacata do interior, com uma vida tranquila e um povo bem simples.

Igreja de Pedra
Pracinha de São Thomé
Os hippies fazendo um som na praça

Anoiteceu, fiquei mais um tempo por lá, fui vencido pelo cansaço, voltei para o hostel, aproveitei e comprei minha passagem para BH e fui dormir!

Gostou de saber um pouco mais sobre como meu Plano B começou? Então, deixe seu comentário e aguarde meu próximo post.

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

8 thoughts on “#1. Plano B

  • 14 de August de 2017 at 17:49
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    Filho muito lindo!!! Estamos ansiosos por novas atualizações e postagens… Beijos Pai e Mãe.

    Reply
  • 15 de August de 2017 at 21:55
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    Viajei junto contigo. Obrigada por compartilhar a experiência, foi a minha história antes de dormir 🙂 obs: me identifiquei varias vezes

    Reply
    • 18 de August de 2017 at 12:44
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      Valeu Morgana.

      Que ótimo que viajou junto 😉

      Continue acompanhando, logo tem mais!

      Reply
  • 18 de August de 2017 at 08:45
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    Ma,
    Te conheci em Piranhas, AL, e estava ansiosa para saber como estavam as coisas por aí! Que delícia saber que está fazendo “aquela sua viagem”. Foi um prazer. Vou acompanhando e nos vemos pela vida a fora…
    Cassia

    Reply
    • 18 de August de 2017 at 12:46
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      Valeu por acompanhar Ca.

      Logo logo o relato de Piranhas aparece por aqui!

      Nos vemos 😉

      Reply
  • 26 de August de 2017 at 12:26
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    Filho acabamos de ler sua terceira publicação e estamos convencidos que fez a escolha certa, ao ler seu texto sentimos como esta feliz alem disso você escreve muito bem, passando uma grande alegria e segurança.
    Dá ate vontade de viajar junto, vá em frente, te amamos e aguardamos novas publicações lindas…. Beijos Mãe e Pai…. 26/08/17

    Reply

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