#32. Plenitude

Agora que você já sabe como eu cheguei em Jeri e como foram os primeiros passos vivendo de hostel, vou tentar contar um pouco sobre como foi morar esses 3 meses nesse paraíso brasileiro.

Eu já falei isso antes, mas faço questão de reforçar: a minha impressão sobre Jericoacoara sempre foi de ser um lugar que recebe muito bem as pessoas que chegam para tentar a vida por lá.

Seja para trabalhar nos restaurantes e pousadas, voluntariando nos hostels, ou até mesmo para trabalhar na rua, cantando, vendendo artesanato, fazendo massagem, se virando…

Isso não quer dizer que todo esse caminho seja fácil, mas senti que esse acolhimento ajuda muito para que a adaptação seja a mais rápida possível, além de ser uma fonte de energia para enfrentar os desafios que vão surgindo naturalmente, principalmente nos primeiros dias.

Um dia tranquilo no paraíso…

Curriculum Vitae

Foi esse cenário que me motivou a colocar em prática algo que queria fazer há um tempinho: procurar um segundo emprego. Queria trabalhar em algo que além da remuneração financeira, me proporcionaria uma nova experiência, algo que eu nunca tinha feito na vida, trabalhar como garçom ou na cozinha de um restaurante eram algumas das minhas vontades.

Então, no meu tempo livre, comecei a visitar alguns restaurantes e bares perguntando se havia oportunidade de trabalho, até porque a alta temporada estava para começar (era julho). Praticamente todos os lugares me pediram para deixar o currículo…

Nunca imaginei que precisaria recorrer a esse tipo de recurso no meio de um mochilão. No início até tinha uma resistência para ter que fazer isso, mas quando percebi que não teria outro jeito, aproveitei a oportunidade para criar um novo, com uma abordagem diferente.

Uma das frases que eu mais curtia na parede do Vida Backpackers Hostel

Eu estava a fim de testar se dava certo conseguir um emprego sem mostrar a minha formação no ensino superior (que é de Ciências da Computação, para quem ainda não sabe) e destacar outras experiências, que eu achei que faziam mais sentido para os trampos que estava procurando, ter trabalhado um bom tempo com atendimento ao cliente, por exemplo.

Mais difícil do que elaborar esse currículo “diferentão”, foi pagar R$0,50 em cada cópia! Sim, só tinha 1 ou 2 lugares para tirar xerox, ambos com o mesmo preço, era muito caro! Acabei imprimindo poucas cópias e selecionei os restaurantes e bares que achei que valia a pena deixar esse pedaço de papel tão valioso.

Infelizmente, depois de um tempo percebi que muitos lugares apenas acabavam engavetando os currículos. Em outros, era bom ter a sorte de chegar no horário que o dono ou gerente estava ali para conversar, senão o destino do currículo era o mesmo: a gaveta.

Um dia conversando com o André – um amigo que também foi voluntário do Vida Backpackers Hostel há alguns meses e estava passando uma nova temporada por lá – ele me contou da história de uma amiga que passava pedindo os currículos de volta para os lugares que faziam isso e ainda dava um esporro, falando que tirar cópia era caro demais para eles ficarem segurando o currículo ali, sem nenhuma chance de contratação.

Passaram alguns dias e eu percebi que essa estratégia não deu muito certo. Principalmente para mim, que não tinha nenhuma experiência prévia na área (somente os trabalhos voluntários da viagem). Notei que estava bem difícil alguém dar atenção para o que estava escrito naquele pedaço de papel.

Depois de alguns dias eu até recebi a ligação de um dos bares da vila, mas nessa ocasião eu já tinha conseguido o trabalho de um outro jeito e dispensei.

Apesar do insucesso, foi um grande aprendizado, sentir na pele como é procurar um emprego, se empenhar e não conseguir. Esses dias me despertaram muito a empatia com as pessoas que precisam MESMO de um trabalho e, por algum motivo, acabam não tendo sucesso nas suas tentativas.

Analisando hoje, percebo que não fiz o meu CV direito e, realmente, as experiências anteriores não tinham muito fit com os trabalhos que eu estava procurando. Então, ficava muito a mercê das pessoas botarem fé em mim em poucos segundos (que era o momento da entrega do currículo), ou então de conhecer pessoas que pudessem me indicar para uma vaga.

Realmente sem a experiência prévia, essa saga foi bem difícil.  Em paralelo a isso, eu também ficava de olho no grupo do facebook focado em oferta de empregos em Jeri. No fim, consegui um emprego de outro jeito.

Do Bem – Cozinha Vegetariana

O Do Bem é um dos restaurantes vegetarianos que existem em Jeri, tinha poucos meses de vida quando eu cheguei. O seu proprietário é o Jean, um dos amigos da Mari nos tempos de TAM (ele também foi comissário) e também ex-gerente do hostel que trabalhei.

Sempre quando eu tinha a oportunidade eu almoçava por lá, o preço para morador era bem bom, na mesma faixa de um PF ali na rua São Francisco, além da comida ser deliciosa e nutritiva. Era até difícil me controlar para não ir lá todos os dias.

Feijoada vegetariana do Do Bem

Nessas idas, acabei pegando uma boa amizade com o Jean. Um dia, estava almoçando e ele comentou que iria tentar abrir o restaurante no período da noite. Por isso, precisava de um novo auxiliar para ajudá-lo. Eu me coloquei à disposição no mesmo momento e naquele mesmo dia ele também topou.

Na próxima semana já estava começando a trabalhar ali no Do Bem, das 16h às 00h. Após combinarmos o esquema de trabalho, que era ajudar ele na cozinha e depois servir as pessoas quando o restaurante abrir, o Jean deixou bem claro que aquela semana seria um teste.

Caso o movimento não fosse tão bom quanto o da hora do almoço, o funcionamento do restaurante voltaria para a hora do almoço. Como o meu turno no hostel era logo pela manhã, aquele horário estava perfeito, então embarquei junto com ele nesse teste, estava super feliz com essa nova experiência.

Eu e Jean no primeiro dia que o Do Bem abriu a noite.

Naquele momento, a minha conexão com a culinária vegetariana era grande, veio muito das minhas reflexões sobre a minha alimentação em Pipa. Poder ajudar o Do Bem e aprender mais sobre esse mundo seria ótimo, além de ter a minha primeira experiência de trabalho no ramo, algo que eu estava buscando naquele momento.

Foi uma semana bem corrida, estava trabalhando mais ou menos 12 horas por dia. Por isso, resolvi sacrificar as minhas idas nas festas (senão não teria tempo para dormir).

Wrap vegetariano que era servido em um dos dias…

Apesar da correria foram dias que aprendi muita coisa, não só sobre a culinária vegetariana, mas também sobre os desafios de tocar um restaurante vegetariano, com uma cozinha pequena e ainda prezar por um bom atendimento ao cliente. As experiências de trabalho anteriores eram somente do mundo online…

Foto que o Dudu tirou de mim durante o expediente.

Uma pena que durou só uma semana. Naqueles dias, o movimento foi abaixo do esperado e o Jean resolveu mudar novamente o funcionamento do restaurante para a hora do almoço.

Depois daquela semana de muito trabalho, resolvi desencanar um pouco da ideia de um segundo trabalho e voltei a focar nos freelancers em produção de conteúdo para a web no tempo livre e, mais do que isso, aproveitar Jericoacoara o tanto que estar ali merecia.

Eu sabia que os meus dias ali tinham um certo prazo de validade, então precisava ter tempo para desfrutar do paraíso também!

Hoje, o Do Bem parece ter crescido bastante, funcionando tanto no almoço quanto no jantar, com uma estrutura bem melhor que de antes. Fico bem feliz pelo sucesso do Jean e do restaurante. Se algum dia você for para Jeri, não deixe de experimentar a comida dali!

Sou grato por aquela semana de trabalho, do tanto que aprendi. Desde então, meu interesse pela culinária vegetariana e vegana só cresceu!

Plenitude

Se tem algo que não posso reclamar dessa viagem, foram os 3 meses que morei no paraíso cearense. Costumo resumir tudo que passou em uma única palavra: plenitude.

Eu feliz da vida…. mais uma foto do Dudu.

A vida estava muito boa, eu acordava todos os dias às 7 para cumprir meu turno no hostel. Geralmente meio dia já tinha acabado tudo e tinha a tarde livre para fazer o que quisesse.

Na maioria dos dias eu acabava dormindo mais uma ou duas horinhas (dependia do quanto tinha dormido na noite anterior), almoçava e depois trabalhava mais um pouco, dessa vez com os freelancers. No meio da tarde passava o restante do dia na praia, ficava até o pôr do sol.

Praia da malhada depois do pôr do sol.

Depois voltava para o hostel, tomava banho, descansava, jantava com o Felipe ou com o Dudu e decidia o que fazer no resto da noite. As vezes eu só descansava, as vezes eu voltava pro trabalho, alguns poucos dias cheguei a cobrir o turno da Mari no hostel também , mas no fim eu acabava saindo para ver o movimento na rua e encontrar os amigos pela vila.

Dependendo do dia da semana eu já aproveitava e emendava na festa que ia ter, eu gostava muito de ir nos forrós e no samba. Muitas vezes eu ficava até o fim, lá pelas duas da manhã. No outro dia às 7 da manhã, tudo começava de novo…

Eu nos dias que o sono era maior….

Percebi como trabalhar apenas o suficiente para viver já me bastava. Não precisava me estressar, ficar me sobrecarregando, eu conseguia simplesmente viver no equilíbrio, principalmente na questão financeira, desse jeito ficava fácil me preocupar só em viver.

Até hoje, tenho aqueles como um dos que mais vivi em paz e levo como um dos objetivos de vida: viver apenas com o suficiente. Muitas vezes me pergunto, para que se matar de trabalhar para acumular dinheiro?

A gratidão pelas oportunidades que tive na vida sempre batiam na minha mente! A felicidade transbordava em mim!

Dudu e eu trabalhado… ao fundo, a Manu trabalhando (de verdade) também.

O grande presente de viver nessa plenitude é que sentia minha energia muito mais leve, notei que me tornei alguém de convivência fácil (não que antes fosse difícil, mas tudo estava mais leve), fiz muitas amizades: com outros mochileiros, moradores, hóspedes do hostel, com os argentinos que vivem ali, com que estava disposto…

Felipe, Eu, Dudu e Karen (uma das hóspedes que mais nos visitou… e encheu o saco também ahahaha)

Enfim, me lembro que, principalmente, quando estava trabalhando no hostel, eu queria ajudar quem precisasse de mim naquele momento, eu dava o meu melhor para atender todos muito bem. Não tinha melhor sensação do que essa!

Se viver assim não é estar pleno, provavelmente é algo bem próximo…

Eu recebendo a iluminação…

Aprendendo a viver em comunidade

No último post contei com mais detalhes sobre como era a minha rotina de trabalho no hostel e o quanto eu aprendi ali. Aqui, eu queria finalizar dizendo que morar ali também foi um grande aprendizado.

Obviamente que pude entender melhor como funciona esse tipo de negócio e formar a minha opinião sobre como é mais vantajoso gerir um estabelecimento assim.

Porém, o que mais senti que fortaleceu em mim foi a questão da convivência e interação com outras pessoas, morar em comunidade, compartilhar os espaços, as coisas, o humor, os sorrisos. Acho que eu já tinha um pouco disso dentro de mim, ali floresceu muito.

Mais um pôr do sol em Jericoacora, visto de outro ângulo.

Todos os dias eu dividia o quarto com pelo menos mais 3 pessoas, podendo chegar até 8 nos dias mais movimentados, além dos outros espaços de convivência.

Pode até parecer simples, mas requer muita empatia, resiliência e adaptação, tanto com a galera que estava ali comigo todo dia (Felipe, Dudu, Mari e Manu) quanto os hóspedes com os mais diversos perfis.

Apesar de que, para mim, compartilhar espaços sempre foi algo tranquilo, precisava sempre fazer um exercício interno de como lidar com as mais diversas situações, mas que eu também resolvi encarar com leveza.

Até porque, praticamente boa parte da minha vida eu tive que dividir quarto: com o meu irmão, com amigos de faculdade e de trabalho, além dos outros hostels que frequentei como hóspede. Sempre tinha em mente que tinha que lidar com tudo aquilo com mais maturidade do que o dia anterior.

Afinal, eu estava ali porque queria, não estava fazendo nada contra a minha vontade. Então, porque não fazer a parada ser a mais divertida possível? Acho que deu certo, fiz muitos amigos de 1 dia para o outro (literalmente).

Ver o pôr do sol na água era sensacional!

Conheci muita gente do bem, divertida, cada um com a sua loucura. Aprendi a admirar a história de muitos e ver como a solidariedade e esse espírito de comunidade estava presente não somente em mim, mas no outro. Aprendi a ser um ser humano melhor, com certeza.

Claro que nem todo mundo era assim, mas aprendi também a deixar passar as pessoas que não me agregam em coisas boas…. simples assim!

Espero que tenha gostado dessa parte da minha história. Aproveita e dá uma força, curtindo a página do blog no Facebook e segue no Instagram também! 🙂

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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