#9. A praia no quintal de casa!

Cheguei em Caraíva exatamente no dia 30 da viagem, nas anotações do meu diário comemoro esse dia como uma grande conquista, talvez tenha sido a primeira desde quando eu botei o pé na estrada!

Esse primeiro mês de viagem passou muito rápido (e qual deles não passou?), e até aquele momento acho que ainda me questionava internamente sobre a sua continuidade por longo prazo, ela ainda era uma incógnita.

Esse “marco” me tirou um certo peso, que eu próprio tinha criado. Hoje vejo isso como uma preocupação desnecessária de um mochileiro principiante em busca de respostas.

Aliás, que delícia que está sendo reviver Caraíva! Bateu uma saudade boa daquelas 6 semanas que vivi por ali, paro e reflito como era o Matheus naquele momento e observo como é o Matheus de hoje… Ali foi o início de muitas mudanças.

Que tempo bom! Acho que foi o início de uma das minhas mais recentes (des) construções como ser humano. Caraíva foi essencial nesse processo sem mesmo ela (e eu) saber disso! Mudanças boas estavam por vir.

O primeiro café da manhã

Me lembro como se fosse hoje o estado de alegria e êxtase que estava no primeiro dia. Foi um ótimo dia! Aliás, nada melhor do que começar a vida nesse paraíso com um dia de folga…

Acordei cedo, dei o famoso “bom dia” para quem estava acordado, estavam alguns hóspedes e o Pedro tomando café. Ele me apresentou a Kaju e a Nani, as duas moças que trabalham na pousada, fazendo café da manhã e cuidando da limpeza, disse que eu estaria ali para ajudá-las quando fosse preciso.

Depois disso, ele me pediu para conversarmos sobre como seria o esquema de trabalho por lá mais tarde, porque no dia anterior tinha voltado depois das duas da manhã do campeonato de poker que tinha participado e só estava ali para receber alguns hóspedes. Então, eu estava liberado para conhecer Caraíva! Sensacional!

Tomei café da manhã, muito bem servido por sinal, tinha pão, bolo, manteiga, iogurte, geleia, banana da terra, ovos mexidos e mamão, que tive que recusar (quem me conhece sabe que é a única fruta que não gosto). Falando a nível de experiência como hóspede, é um dos melhores cafés da manhã que já provei.

Troquei poucas palavras com o casal que estava me acompanhando à mesa e já sai para bater perna pelo vilarejo!

A praça da igreja

Comecei a fazer o caminho contrário do que eu tinha feito no dia anterior, durante a minha chegada, até encontrar o rio. Estava observando as pessoas na rua atentamente, percebi uma mistura de gente mais nativa, com traços mais indígenas, com gente de fora. Eu, novato por ali, sempre com um “Bom dia!” nos lábios.

A princípio, o vilarejo parecia ser bem grande e pude até me dar a chance de estar perdido no meio do caminho, naquelas ruas de chão de areia fofa, sem saber onde estava em alguns momentos.

Aquilo me deu uma sensação muito boa: se perder no meio de um lugar com uma energia incrível e com uma estrutura totalmente diferente do que eu já tinha visto… Infelizmente essa sensação foi embora em poucos dias, pois em uma semana já tinha me habituado a andar por ali, então dificilmente estaria perdido.

Lembro que subi por uma rua e dei de cara com uma pracinha e uma igrejinha, alguns dias depois descobri que aquela era a praça da cidade. A Igreja é bem simples e isso torna a sua presença marcante, tanta simplicidade que transforma tudo em uma beleza diferente.

Caraiva 1
A praça da igreja!

Em volta dela há algumas casinhas e alguns estabelecimentos locais, alguns vendendo frutas, outros funcionam como um mercadinho. Mais atrás tem um campinho de futebol e uma escola, seguindo mais ao fundo, há um caminho para uma tribo indígena, a Xandó, que, se não me engano, faz parte da tribo maior da região, a Barra Velha.

Voltei e fui caminhando pela margem do rio, observando o movimento dos barcos no ponto de sua chegada, alguns traziam turistas, outros pessoas locais com compras e mantimentos. Fui Caminhando em direção da ponta que leva até o famoso encontro do rio Caraíva com o mar!

Caraiva 2
Margem do Rio Caraíva

A praia no quintal de casa!

Não sei porque, mas algo me dizia para interromper aquele caminho e subir uma ruazinha que tinha por ali, fiz isso e tive uma grata surpresa: dei de cara com o mar!

Caraiva 3
Praia de Caraíva!

Que delícia! Que vista incrível! Na noite anterior não deu para notar tão bem o quanto aquele lugar era belo, fiquei olhando para aquela água azul e calma… foi a primeira praia do nordeste que eu tive a oportunidade de vivenciar na minha vida!

Olhei para mim mesmo e notei que estava sem qualquer roupa apropriada para poder entrar na água, voltei para a pousada e coloquei minha sunga. Acho que aquela foi a única vez que sai despreparado para a praia, durante todo o tempo que morei lá.

Acho que pela primeira vez na vida estava com a real sensação de morar de fato na praia! (Uma das coisas que me incomodavam quando estava em Floripa era que mesmo morando na ilha, as praias estavam um pouco longe de casa, precisava pegar ônibus, taxi, uber ou carona para tomar um banho de mar, láa minha rotina só me permitia frequentá-las no fim de semana)

Agora sim, podia contar com uma no quintal de casa!

Voltei para a praia, aproveitei por algumas horas aquela faixa enorme de areia com uma água azul, bem diferente das que já tinha visto! Achei interessante também o fato de eu poder largar minhas coisas por ali na areia e entrar na água sem preocupação! Fazia tempo que não fazia isso!

Aliás, a grande maioria das praias que frequentei no nordeste foi possível fazer isso. No caso de Caraíva, o lugar é tão seguro que você pode deixar suas coisas, sair para caminhar… andar … andar e quando voltar, horas depois, elas ainda estarão por ali. Se bobear, vai ter até mais coisas do que você deixou!

O mar estava uma delícia, fiquei dentro dele até enjoar e até fui enganado pela sua “calmaria”, tentei pegar um jacaré, mas uma coisa que não tinha percebido era que as ondas, por mais que sejam tranquilas, quebram de uma vez, ou seja, acabei levando um capote bonito, foi só um susto, não me machuquei!

Sai da água, andei pela sua extensão de areia, voltei para água de novo.. repeti isso por algumas outras vezes durante aquela manhã.

Quando o sol já estava forte, resolvi voltar para a pousada, já tinha passado do meio dia, tomei banho, descansei e almocei com o Pedro e as meninas, Nani e Kaju.

Elas moram na aldeia Barra Velha e levavam cerca de duas horas de moto para ir trabalhar todo dia. Notava-se que a presença de um ser intruso ali, no caso eu, deixou-as muito tímidas! Conforme os próximos dias passaram, elas se soltaram mais… conto melhor nos próximos posts 😉

Caraiva 4
Sorria!

Conhecendo a Barra

Depois do almoço, o Pedro me chamou para ir com ele até a Barra, que é justamente o ponto em que há o famoso encontro do rio com o mar no vilarejo.

Fizemos um caminho diferente do que eu tinha feito para acessar a praia da pousada. Para você ter uma noção, há duas maneiras para chegar lá, o primeiro era virar a direita e depois a direita, o outro era a esquerda e depois a esquerda… Fácil, né?!

Estávamos caminhando e conversando, até parar em um dos poucos bares que ficam de frente para o mar, no dia eu não fazia a menor ideia de onde era, hoje já sei que é o Coco Brasil.

Lá o Pedro encontrou alguns amigos e paramos para tomar uma cerveja com eles. Na noite anterior, ele tinha ganho o campeonato de poker, então esse foi o assunto principal por ali, muitas risadas! Uma galera bem gente boa!

Depois dessa parada continuamos caminhando até finalmente chegar no “fim” da faixa de areia. O rio Caraíva corta o mar e divide aquele pedaço de terra em 2. Ali é onde a maioria das pessoas vão para tomar um banho… a tal da Barra, para os mais íntimos!

É um lugar muito bonito, a cada dia e horário o cenário por ali está de um jeito diferente, depende da maré… quando ela está alta, a água praticamente invade tudo, quando está baixa forma-se alguns bancos de areia… que ficam no meio do rio.

Ao atravessar o rio, para chegar na próxima faixa da areia, é possível chegar no caminho para as praias do Satu e do Espelho… Vou falar mais sobre esse caminho no próximo post.

Entramos na água, dessa vez no rio, em que ela é mais marrom e mais calma… nadamos conversamos, outros amigos do Pedro chegaram. Já notei que quase todo mundo se conhece por ali, lugar pequeno né…

Até que o Pedro deu a ideia de encontramos a Tata, a gerente da pousada, que estava acompanhada de uma amiga dele lá de Sampa, quando trabalhava em uma ONG há uns poucos anos atrás, a Milena. Caminhamos mais um pouco, por entre as cadeiras e as “barracas” que ficam por ali, até encontramos as duas. Foi mais uma parada para banho, conversa e esperar o tempo passar.

Ficamos até o pôr do sol, que foi lindo. Ele se põe no rio, deixando os fins de tarde ainda mais agradáveis!

Caraíva 5
A Barra em um dia qualquer

A noite de Caraíva

Voltamos para a pousada, tomei banho e descansei mais um pouco, a tranquilidade reinava por ali!

Lembro que naquele fim de tarde tive a conversa com o Pedro para combinarmos o trabalho que eu faria. Basicamente ele me pediu para limpar o jardim, sempre que for preciso, além de outras possíveis demandas que poderiam surgir, principalmente relacionadas a manutenção da pousada.

Ele me falou também que estava com planos de viajar, tirar umas 3 semanas de férias, então precisaria de alguém para fazer companhia para a Tata e ajudar a tomar conta da pousada.

A noite chegou, a fome bateu e só a Mi topou sair para comer. Aproveitei para tentar entender como era a vida noturna de Caraíva nos dias da semana. Era bem tranquila com pouquíssima, ou quase nenhuma, agitação.

Fomos até um lugar ali na praça da Igreja que chama Toca do Siri, o lugar vende cervejas artesanais e estava começando a vender alguns lanches a noite, naquele dia ia ter espetinho.. eu pedi um de beringela e um de carne.

Aproveitei e já comecei a sentir o impacto da “inflação” de Caraíva! Sabe como é, lugar turístico, o preço é lá em cima… Depois de algumas horas conversando com a Mi, voltamos para a pousada para dormir.

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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