#15. De Taipu de Fora até Taipu de Dentro

Depois de uma semana intensa em Itacaré, com sol, chuva e praias novas, estava na hora de conhecer outro paraíso. Meu próximo destino foi Barra Grande (da Bahia), que fica bem ao norte de Maraú.

Na rodoviária de Itacaré, junto com a Bri, tomei um ônibus para Camamu, de lá pegaríamos um barco ou lancha rápida para Barra Grande. Como a estrada que liga Itacaré até Barra Grande é bem precária, essa é praticamente a única alternativa existente de transporte coletivo.

Não me recordo ao certo quanto tempo a viagem levou, só lembro que, ao sentar na poltrona, descansei, nem vi o tempo passar. Quando o ônibus fez a parada na cidade de Camamu, já entrou um cara dentro dele, perguntando quem ia para Barra Grande.

Ele nos ofereceu a lancha por R$ 20, a próxima iria sair em poucos minutos. Aceitamos e ele nos levou até o porto, onde embarcamos. Depois de uma hora e meia, com uma vista incrível, estávamos atravessando o deck em direção ao receptivo turístico de Barra Grande.

Bri e eu na lancha rápida!

Água por todos os lados

É impossível não ficar encantado ao chegar em Barra Grande, o lugar parece uma ilha, a impressão é de estar cercado de água por todos os lados. Nem a surpresa da taxa de R$10 referente a visitação (que eles falam que é para a preservação do local) estraga essa primeira impressão.

Eu questionei sobre a obrigatoriedade do pagamento dessa taxa para a moça que estava fazendo a cobrança, ela simplesmente me falou que era municipal, ou seja, não era obrigatória. Mesmo assim resolvi pagar para contribuir com o local, pelo menos eu espero que esse tenha sido o destino do valor desembolsado por mim e outras pessoas que pagam.

Barra Grande é outro lugar que não sabia sequer que existia há pouco tempo atrás. Fui conhecer somente quando estava em Caraíva, estudando as possibilidades do que fazer em Itacaré e vi no mapa que Barra Grande estava muito perto. Li alguns relatos no fórum dos Mochileiros, pesquisei rapidamente sobre o lugar e sem pensar muito coloquei no mapa. Foi uma boa escolha!

Caminhamos por uns 3 quarteirões, onde encontramos o hostel Ganga Zumba, que praticamente era o único por lá. Já tinha feito um contato prévio para saber o valor da hospedagem, então não precisamos procurar muito, já sabíamos onde ir.

 

Chegando em Barra Grande

Caminhando em paz!

Chegamos no hostel, fomos recepcionados pelo proprietário, que nos apresentou a casa e forneceu todas as informações sobre as regras, praias e opções de passeios para fazer em nossa estadia. Inclusive, nos mostrou o horário da maré alta e baixa.

Acho que foi nesse momento que comecei a prestar mais a atenção nessas diferenças de horário entre as marés. Me lembro que nas praia paulistas e de Floripa elas não pareciam fazer muita diferença.

Mas em grande parte do nordeste saber quando elas vão ocorrer é algo importante. Ao longo do caminho ouvi algumas histórias de pessoas que ficaram ilhadas nas praias porque não se atentaram ao horário da maré alta.

O hostel tem uma estrutura bem legal, tem uma pegada um pouco mais rústica que os outros que tinha frequentado até aquele momento, mas era bem confortável. Nos fundos tem um quintalzão com um pé de abacate para a galera pegar e comer.

Conhecemos nosso quarto, deixamos as nossas coisas e a fome bateu, já tinha passado da hora do almoço. Saímos, andamos algumas quadras e achamos uma mini-feirinha, compramos alguns legumes e voltamos para cozinhar.

A Bri fez um refogado de legumes muito bom. Ela colocou batata doce, cebola, tomate, acho que tinha pimentão, cebola e temperos…eu só ajudei cortando as cebolas (ou o tomate… não lembro!)

Agora, de barriga cheia, já dava para ir à praia, saímos meio que sem rumo, em direção de onde nos indicaram que seria possível ver o rio e o mar, bem como o encontro de suas águas. Chegamos até a praia, onde se via uma imensidão de mar e oceano a nossa vista, sem nenhum indício de que há qualquer pedaço de terra a frente.

Começamos a caminhar, esse foi um dos caminhos mais em paz que fiz durante a viagem, só seguia o instinto de andar e mirar o que estava vendo…  A cor da água era encantadora, misturada com uma calmaria indescritível.

Caminhando por Barra Grande.

Paramos algumas vezes para aproveitar qualquer sombrinha que aparecia e simplesmente relaxar. E foi nesse ritmo que encontramos o rio, realmente ali a natureza fica ainda mais linda. Além de tomar um belo de um banho de mar, arrisquei e nadei no rio também.

Lembro que por perto tinha umas “casinhas” que pareciam ocas indígenas, davam um toque diferente para o lugar. Ficamos até o pôr do sol, que foi um dos mais lindos que vi até aquele momento. Já estava começando a fazer minha “coleção” desse evento da natureza, com o difícil impasse de eleger o mais belo.

Caminhamos de volta para o hostel, o céu ficou sensacional com um tom alaranjado, dando um charme para aquele fim de tarde.

Paisagem entre o rio e o mar.

Chegando lá, vi que não estávamos sozinhos, conheci os voluntários que estavam morando e trabalhando no hostel, 3 argentinos muito gente boa! O Ignácio, a Lucia e o Juan. Tive mais contato com os 2 primeiros, quase todas as noites acabavam com uma boa conversa entre nós.

Naquela noite saímos dar um rolê para conhecer a vida noturna de Barra Grande. A “cidadezinha” é bem simples, com uma igrejinha, pousadas, alguns mercadinhos, tudo voltado para o turismo.

Achamos uma pizzaria com um preço aceitável e que estava rolando uma música ao vivo. Estava de bom tamanho para uma noite aparentemente vazia…

Ponta de Mutá

O segundo dia em Barra Grande foi tão bom quanto o primeiro, acordei, tomei um bom café da manhã para encher a barriga e dar aquele suporte para o dia que estava por vir. A nossa ideia era ir caminhando até Taipu de Fora, para ver as piscinas naturais. Mas conversando com o Ignacio, fomos desencorajados.

Ele nos falou que já era um pouco tarde e a caminhada seria longa, ou seja, quando chegássemos por lá, a maré já estaria alta e não veríamos nada de piscinas naturais.

Então, mudamos os planos e fomos caminhando somente até a praia da Ponta de Mutá. Taipu de Fora ficaria para o outro dia, quando já estava certo de pegarmos um quadriciclo para conhecer as praias mais ao sul, que ficam entre Itacaré e Barra Grande.

Então, seguimos caminhando até a praia, encontramos um coqueiro, uma sombra e passamos o dia por lá mesmo. No caminho podia se ver mais um show de visual em todos os sentidos, sol, céu, mar, areia, coqueiros e a vegetação no geral.

Caminhando até a Ponta de Mutá.
Ponta de Mutá!

Relendo as anotações do meu diário daquele dia, meus pensamentos chegavam a conclusão de que Barra Grande é um paraíso escondido nesse país, muito pelo fato de ser um lugar pouco conhecido, apesar de ter muitos traços de ocupação turística, percebe-se que não há sinais de exploração em massa do local. Até quando permaneceria assim?

Passei o dia tomando sol, ouvindo música, conversando com a Bri e deu até para dar uma corridinha em alguns momentos. Só faltou tomar um banho de mar mais gostoso, tinham muitos corais na região e não dava para entrar muito fundo sem pisar em um deles…

Vista do dia!

Quando bateu a fome, caminhamos até encontrarmos um restaurante com um ótimo custo-benefício, que atende os nativos de Barra Grande. Uma moqueca de peixe para 2 pessoas estava R$ 50 e uma caipirinha R$ 7.

Depois de comer e aproveitar um pouco mais da praia, vimos mais uma vez o pôr do sol, que não deixou nada a desejar se compararmos com o dia anterior.

A noite, compramos vinho e nos juntamos ao Ignacio e a Lucia, que estavam com mais um amigo argentino na cozinha do hostel, para trocar uma boa ideia, além de se empanturrar com uma deliciosa guacamole que eles fizeram com os abacates do próprio hostel.

De Taipu de Fora…

O último dia em Barra Grande foi bem peculiar. No dia anterior, combinamos com um dos caras que alugam quadriciclo, indicado pelo hostel, para alugar um deles e dar um rolê pelas praias mais ao sul junto com Taipu de Fora e Taipu de Dentro.

Não lembro ao certo quanto pagamos, mas dividindo em 2 estava compensando mais do que contratar um passeio, aqueles que não te dão liberdade nenhuma para decidir a rota e com tempo limitado em cada local. O tipo de passeio que eu particularmente não gosto de fazer.

Antes mesmo do café da manhã, já recebi o quadriciclo e tive uma pequena aula de como guiá-lo. No início não é tão fácil quanto parece, mas depois pega-se o jeito de pilotar a coisa.

Tomamos o café, passamos no posto para abastecer e depois rumamos para Taipu de Fora! A expectativa de conhecer esse lugar era grande. As piscinas naturais pareciam ser lindas nas fotos.

A partir desse dia eu entendi porque não tem linha de ônibus direto de Itacaré até Barra Grande, a estrada era muito ruim mesmo, com uma porção de buracos ao longo do seu caminho. Ficava até difícil tentar desviar de todos eles.

Uns 20 minutos de estrada e pronto, chegamos na tão falada Taipu de Fora! Realmente é algo de outro mundo, coisa que eu nunca imaginei ver um dia na vida. Lembro que cheguei até a nomear como o lugar mais lindo que tinha visitado até aquele momento (coisa que eu fiz por muito tempo ao conhecer lugares novos. :P)

Nem perdemos tempo, deixamos nossas coisas encostadas em um quiosque e fomos direto para a água, deu para tomar um bom banho naquela água azul clarinha. A Bri levou alguns óculos de mergulho, então era possível ver os peixes dentro da água nitidamente.

Sinceramente não tem como descrever muito esse lugar, vou deixar as fotos falarem por si só!

Vista de Taipu de Fora
Piscina natural de Taipu de Fora.

…até Taipu de Dentro

O tempo passou e ainda tínhamos muitos lugares para conhecer. Voltamos para a estrada e rumamos em direção a praia de Algodões, uma das mais famosas da região. No caminho tivemos um contratempo, que inicialmente parecia algo enorme, mas nem foi tanto assim.

Encontramos uma poça de água gigante no caminho, ficamos na dúvida se passávamos ou não com o quadriciclo, não dava para ter noção da sua profundidade. Resolvemos tentar passar e, claro, era maior do que a gente imaginava… de repente o quadriciclo parou de funcionar!

Descemos, tiramos ele de lá e um cara que estava passando nos ajudou, ele olhou e viu que molhou o arranque, que basicamente é a peça responsável por dar a partida no quadriciclo.

Teríamos que esperar ele secar. Enquanto isso, para adiantar o nosso lado, o cara que nos ajudou amarrou uma corda entre o nosso quadriciclo e o dele para nos levar até um posto que tinha ali perto.

No meio do caminho eu tentava dar partida e via que estava quase pegando. Quando pensei comigo, vou tentar a última vez, de repente ele voltou a pegar! Ótimo! Que alegria!

Agradecemos imensamente a ele pela ajuda e voltamos para a estrada para seguir nosso caminho, de preferência sem passar por poças de água duvidosas agora… Corremos para não perder mais tempo, a estrada continuava muito ruim! Sempre quem estava na parte de trás sofria mais com os balanços e os buracos!

Paramos na praia do Cassange, estava bem deserta, ficamos pouco tempo, só para tirar fotos e respirar um pouco o local. Depois, seguimos direto para a lagoa do Cassange, que também tem uma vista linda em um lugar bem tranquilo.

Praia do Cassange

Lá ficamos por mais tempo, deu para tomar um banho na lagoa e comer algum lanche que levamos. Aquela região entre a praia e a lagoa do Cassange é bem pacata, com algumas pousadas escondidas, além das casas que são enormes, creio que sejam de veraneio.

Lagoa do Cassange

Voltamos para a estrada e descemos até a praia de Algodões, antes passamos na que fica do lado, mas não me recordo o nome. Essa praia também não deve em nada para as outras que conhecemos, deu para aproveitar bem o tempo, tirar fotos, descansar um pouco em uma sombra qualquer.

Praia de Algodões

Na volta, ao invés de seguir para Barra Grande, pegamos a nossa esquerda até chegar em Taipu de Dentro.

Essa última parada foi para coroar o dia, chegamos por lá e vimos um rio sensacional! Aquele entardecer estava muito lindo, tomamos banho nas suas águas, que fazem um barulho muito estranho nos ouvidos quando mergulhávamos.

Taipu de Dentro

Não estávamos sozinho por lá, conhecemos 2 caras muito gente boa que também estavam aproveitando o fim de tarde. O Henrique morava em Itacaré, tem uma pizzaria na cidade e foi passar uns dias de “férias” junto com o seu amigo Davi.

Conversamos sobre as nossas aventuras com o quadriciclo, Itacaré, Barra Grande e vimos mais um pôr do sol fantástico, além de tomarmos uma cerveja em uma vendinha lá perto para fechar muito bem aquela tarde.

Fim de tarde em Taipu de Dentro.

Pizza de salmão

De repente a fome bateu e o Henrique deu a ideia de jantarmos na pizzaria do amigo dele. Pegamos os quadriciclos, já estava de noite, precisamos ligar os faróis, e voltamos para Barra Grande.

A pizzaria era muito legal e o atendimento dos donos foi incrível, com um estilo bem nativo, do jeito que eu gosto. Comemos uma pizza muito boa de Salmão com molho tarê. Tomamos mais algumas cervejas e continuamos o papo.

A noite já começava a cair e o cansaço a bater. Nos despedimos dos nossos companheiros que conhecemos e voltamos ao hostel!

Eu particularmente estava muito quebrado, todo dolorido do quadriciclo, sofrendo as consequência de andar naquela estrada ruim hahaha! Tomei um banho, descansei e apesar do cansaço fiquei até tarde conversando com a Lúcia e o Ignácio na cozinha, dentre os assuntos falamos da Chapada Diamantina, um dos meus próximos destinos e que o Ignácio já tinha morado por um tempinho.

De repente o sono veio e eu finalmente fui dormir. Como não sabia se encontraria-os no outro dia, já me despedi e nos desejamos boa viagem!

De volta a Camamu

Amanheceu mais uma vez e era hora de me despedir de mais um paraíso, era por um bom motivo, outro dele estava me chamando: Boipeba! Assim como nos outros dias, acordei e tomei café da manhã.

A Bri quis ficar mais um tempinho em Barra Grande, então parti sozinho, sem saber que outros encontros com ela viriam nos próximos dias, mandei uma mensagem pelo Whatsapp (Ela ainda estava dormindo e não quis acordá-la), agradecendo a companhia dela desde Itacaré, além das aventuras dos últimos dias.

Sai do hostel, caminhei em direção ao deck e já me abordaram oferecendo uma lancha que iria sair em 20 minutos. Comprei o bilhete e fiquei esperando-a chegar.

Descobrir toda a beleza que cerca Barra Grande foi um dos momentos mais legais da viagem, na lancha de volta para Camamu imergi em mais um dos meus momentos introspectivos de reflexão e agradeci pelos ótimos dias por lá, além do fato de continuar seguindo viagem, como é bom estar em movimento!

Sem saber que dias ainda melhores viriam, sai da lancha em direção a “rodoviária” de Camamu para esperar o ônibus para Valença, onde se pode pegar barcos e lanchas rápidas para Boipeba e Morro de São Paulo.

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Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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