#6. Tinha uma cachoeira no meio do caminho…

E lá estava eu novamente na rodoviária de Belo Horizonte, depois de uma viagem rápida partindo de Ouro Preto. Não deu nem 40 minutos.

Cheguei e logo já fui comprar a minha passagem para São João Del Rei. Tinha vaga no ônibus da uma e meia da tarde, com previsão de chegada por volta das 5 e meia.

Dessa vez tinha pouco tempo para esperar, então resolvi ficar ali na rodoviária mesmo. Desci até a área de embarque e comecei a ler um pouco enquanto aguardava o tempo passar e o ônibus chegar.

Ele chegou. Embarquei e estava a caminho de uma das cidades que mais queria conhecer nessa rota histórica que desenhei na minha cabeça: São João Del Rei (Em alguns momentos do texto vou me referir a ela somente como São João ou SJDR, ok?)

Não me lembro do caminho que o ônibus fez, porque capotei a viagem toda, só me recordo que ele fez uma parada em Congonhas antes de seguir até o nosso destino final.

Mototáxi

Enfim cheguei em SJDR. Tinha descoberto há poucos dias que lá o transporte por mototáxi funciona muito bem e possui um preço acessível, por volta de R$5 por corrida. Foi uma dica da Silvia, que foi minha anfitriã na cidade.

Sai do ônibus, com minhas duas mochilas e já encontrei um mototaxista. Perguntei se dava para ir com as duas mochilas na garupa, ele me falou que era tranquilo. Passei a ele a orientação sobre o endereço e montei na moto.

Essa foi a primeira vez que eu andei de mototáxi na vida. Confesso que estava bem estranho estar ali com o meu mochilão nas costas, achei que a havia um grande risco de cair para trás, com mais de 13 kg nas costas.

Mas foi questão de alguns minutos para eu ganhar segurança, esquecer esse medo e simplesmente aproveitar aquela curta viagem.

Andar de moto me fez lembrar das poucas vezes que eu peguei carona com o Jon, um dos meus grandes amigos de Curitiba, e toda a sensação de liberdade que uma moto proporciona, principalmente por andar rapidamente tomando aquele vento bom na cara.

Naquele momento, mal eu sabia que aquela não seria a única vez que eu optaria por esse transporte durante toda a minha viagem. Aliás, dependendo da cidade, virou uma das minhas principais preferências para se locomover de um local ao outro ou então, a única opção.

Núcleo Parvati de Shivam Yoga

O mototáxi parou em frente a um sobrado bonito, era a casa da Silvia. Conheci ela por meio do Couchsurfing, ela é uma das anfitriãs de São João que tem uma das melhores recomendações.

Desde o primeiro contato, quando eu estava lá em Ouro Preto, ela foi muito gentil comigo, me passou todas as orientações de como chegar em sua casa.

A Silvia tem uma energia incrível, ela é professora de Shivam Yoga, massoterapeuta e também manda muito bem na cozinha. Além disso, a sua casa tem uma energia tão boa quanto o da sua pessoa.

Ela me deixou totalmente à vontade. Logo fui tomar um banho, descansei um pouco da viagem e logo desci conversar com ela. Ficamos ali batendo papo por umas 3 horas, a conversa fluía muito bem, já que ela tinha como hábito a alimentação vegetariana e a prática do yoga, duas coisas que me interessam muito.

Aliás, é na sua casa que funciona o seu espaço de trabalho: o Núcleo Parvati de Shivam Yoga. Recomendo bastante pra galera que mora na cidade ou quem estiver de passagem e queira praticar yoga com uma ótima professora.

Conversa vai, conversa vem, descobrimos que tínhamos um amigo em comum, foi só eu falar que fazia aulas de yoga na empresa que trabalhava em Floripa, que ela já soltou: “Resultados Digitais?” e “Eu conheço o Mathias“. No caso, o Mathias era quem dava as aulas na empresa duas vezes por semana.

Descobri que os dois possuem o mesmo mestre da prática de Shivam Yoga e, inclusive, fizeram o curso na mesma turma.

As boas conversas com a Silvia se arrastaram por todos os dias, ela foi uma das pessoas que me senti muito à vontade para conversar sobre qualquer assunto francamente, era fácil perceber que com ela não há muito tabu não.

Infelizmente ela foi mais uma pessoa que não lembrei de tirar uma foto de recordação :/

Indico muito a Silvia como anfitriã em SJDR, ela só não está mais fazendo Couchsurfing, mas colocou os quartos de sua casa no Airbnb, o preço é bem acessível, além dos benefícios da companhia da Silvia, a sua culinária caseira e as aulas de Yoga!

Segue o link das suas acomodações: quarto 1 e quarto 2.

Vista de uma das janelas da casa da Silvia

Aula de Yoga

No outro dia acordei bem cedo, por volta das 6 e meia. As 7 já estava pronto para fazer a aula da Silvia. Nesse dia, as suas alunas faltaram, então fiz sozinho. Foi muito bom relembrar um pouco da sensação de praticar o yoga, realmente é algo que me fez muito bem.

Ela tem uma didática um pouco diferente da do Mathias, no começo estranhei um pouco, mas logo me acostumei com o seu jeito de conduzir a prática.

Depois da aula tomei um café da manhã super caprichado, com direito até a pão caseiro, uma manteiga deliciosa comprada de alguém que traz direto da roça, bolo e frutas.

Conversa vai e vem, resolvi sair pra rua! Meu destino nesse primeiro dia era a cidade de Tiradentes, que fica muito próximo de São João.

Tiradentes

Resolvi ir a pé para a rodoviária. Gosto muito de ter tempo para conhecer os lugares, pois assim consigo ir caminhando com a maior tranquilidade até chegar ao meu destino, é uma oportunidade de conhecer e me habituar com a cidade.

Cheguei e já peguei o próximo ônibus para Tiradentes. Se não me engano tem ônibus de 40 em 40 minutos, o trajeto é feito por 2 empresas diferentes, só chegar, perguntar qual é o próximo e esperar.

O trecho também leva uns 40 minutos. Enfim, cheguei em Tiradentes. A cidade é uma graça, parece uma cidade cenográfica em que a tranquilidade também faz parte do seu cenário. As ruas de Tiradentes são bem mais planas que as de Ouro Preto e Mariana, o que facilita bastante a caminhada.

Já as igrejas e as casas são praticamente semelhantes, até hoje quando revejo minhas fotos dessas 3 cidades, me confundo sobre qual delas é de cada lugar.

Descobrindo Tiradentes…
Caminhando por Tiradentes…

Consegui passar por praticamente todas as igrejas e visitei apenas um museu, o do Padre Toledo, uma das figuras do episódio da Inconfidência Mineira.

O museu é considerado um dos maiores bem arquitetônicos da cidade, o seu prédio nada mais é do que o solar onde o padre vivia. Ao percorrer os cômodos, nota-se cada detalhe de como eram as construções da época!

Só consegui visitar esse museu, pois todos os outros estavam fechados naquele dia da semana.

No mais, continuei caminhando no meu ritmo pela cidade, parei, sentei, escrevi um pouco, apreciando toda aquela calmaria. Passado um tempo, já não tinha mais o que conhecer, resolvi voltar para São João Del Rei.

Tem até uma bica

Caminhando por SJDR

De volta a São João, ainda tinha uma boa parte da tarde para começar a desbravar a cidade. Fui caminhando da rodoviária até o centro, na mesma pegada de sempre, sem pressa e conhecendo a cidade.

O curioso de SJDR é que o seu Centro Histórico parece ser muito maior do que das outras cidades históricas que visitei, mas na verdade não é, o fato é que ele é totalmente misturado com o centro normal, o que dá essa impressão. Cheguei a essa conclusão só depois de 2 dias caminhando e observando as suas ruas e toda a configuração da cidade.

Saiba que além de ser uma cidade histórica, São João é conhecida por ser a cidade onde nasceu um dos presidentes do Brasil: Tancredo Neves. Me recordo de passar pelo Solar da Família Neves, mas por algum motivo ele estava fechado.

Voltando… ao caminhar pelo centro, dei uma passada para ver o prédio do teatro Municipal e cai de paraquedas no Museu do Exército Brasileiro. Fui muito bem recebido e atendido pelos soldados ou sargentos que tomam conta das exposições de lá.

Descobri que o batalhão de SJDR é referência em montanhismo no Brasil, tem muitos países que mandam os seus soldados para aprender com a galera de lá.

Essa fama se dá pela região ser bem montanhosa, o que facilita a prática, e também pela participação do batalhão na segunda guerra, que foi essencial para a tomada de Montese, na Itália, se quiser saber mais sobre essa história, dá uma lida aqui.

Batalhão de SJDR

No mais, caminhei por todo o centro durante a tarde, sem muita pressa, o que mais me marcou foi a imagem de uma das Igrejas mais bonitas que já vi, ela é uma das únicas que é toda branca lá em Minas, se não me engano ela é a Nossa Senhora do Carmo que fica no Largo do Carmo.

O fim do dia chegou, o cansaço bateu, voltei para casa da Silvia, fiquei trocando ideia com ela antes dos alunos da próxima aula de Yoga chegarem, tomei um banho e dormi!

Igreja Nossa Senhora do Carmo

… no meio do caminho tinha uma cachoeira

No dia seguinte, acordei cedo como de costume e desci para o café. A Silvia já estava me esperando com aquele monte de coisa caseira e deliciosa, sensacional! Lembro que no meio da refeição ela parou, olhou para fora da janela, viu como estava o tempo e me disse: “Hoje tem cachoeira hein!?”

Uma das coisas que mais gosto de fazer quando chego nos lugares é consultar com os nativos a possibilidade de coisas para conhecer, principalmente as que estão fora da rota turística. Como foi a segunda ou a terceira vez que ela me falou sobre essa cachoeira, resolvi confiar e ir. Melhor decisão!

Fui novamente para a rodoviária, peguei o ônibus para Tiradentes mais uma vez e pedi para o motorista parar no meio do caminho. Desci, entrei no meio do mato e lá estava a cachoeira.

Que maravilha! Jamais pensei que encontraria esse “presente” em um lugar em que a expectativa era somente visitar igrejas e museus. É justamente por isso que costumo confiar nas indicações do que fazer vindas da galera da cidade.

Apesar de estar perto da estrada, o local transmite muita paz e tranquilidade, fiquei boa parte do dia por lá, em sua maioria, sozinho! Aproveitei para admirar a sequência de águas caindo que as quedas formam, entrei na água, meditei e também tomei sol.

Cachoeira
Última queda da cachoeira

Depois desse tempo, era hora de ir embora! Esperei o ônibus no ponto que ficava no sentido contrário e lá fui eu de novo dar um rolê pelo Centro Histórico.

Passei a tarde toda caminhando, conhecendo novos lugares e também voltando para os que tinha mais gostado de conhecer no dia anterior. Visitei também mais um museu, o da Arte Sacra.

Sinceramente, o museu é bem normal, nada muito imperdível (Sim, eu também já estava começando a ficar um pouco de saco cheio de tantos museus de arte sacra, que tinha visitado nos últimos dias…)

Durante essa caminhada, aconteceu o primeiro “imprevisto” da viagem, a minha bota, que já estava bem velhinha, comprei em 2013 para o meu primeiro mochilão, começou a abrir, praticamente descolou a borracha da parte da frente que protege a sola. Consegui continuar a andar mesmo assim e comprei uma cola superbonder para colar e quebrar o galho.

No fim da tarde voltei para casa e fiz mais uma aula de Yoga com a Silvia.

A noite, a Silvia me convidou para conhecer um pouco da vida noturna do Largo do Carmo, fui de carona com ela em sua moto Biz. Foi uma aventura bem interessante, como ela mesmo disse: “Fica tranquilo que eu sou pilota de fuga”.

Aquela noite se resumiu a conhecer o largo em sua vida noturna, comer hambúrguer, tomar umas cervejas, observar o pouco movimento da rua e encontrar a Slivia novamente com mais alguns amigos e ficar trocando ideia até bem tarde.

Igreja do Carmo vista de noite.

Cruz de Igrejas

Meu último dia em SJDR foi fechado com chave de ouro. Já cedo deixei minhas coisas prontas e fui para a rodoviária (só agora percebi o quanto fui para rodoviária nessa estadia por lá…) mais uma vez, dessa vez iria encontrar a Julinha!

Eu conheci ela há uns 4 anos atrás, ambos fazíamos parte de uma mesma rede de universitários, o movimento CHOICE. Acho que um dos motivos que me fez ter a curiosidade de conhecer São João era o quanto ela falava da cidade, já naquela época, que é onde ela passou boa parte da vida fazendo faculdade e agora o seu mestrado.

A Julia é uma das pessoas mais engraçadas e mais alto astral que eu conheço. Logo que estava perto de ir para SJDR mandei uma mensagem para ela que estaria na cidade e que queria vê-la.

Ela me disse que não estava morando mais por lá, tinha voltado para Cataguases, suas cidade natal, mas que iria naquele dia para entregar a sua monografia de defesa do mestrado, o que me fez prolongar minha estadia por mais uma noite na cidade para vê-la no outro dia.

Foi um reencontro muito legal, acho que não nos víamos há mais de 3 anos, ela me apresentou o seu namorado, seus amigos e até o seu orientador. Almocei e passei a tarde com eles.

No carro com a Julinha de motorista 😉

Ela levou a gente para conhecer o campus do centro da sua universidade,a UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei), o mercado municipal, a rua das casas tortas, no Picolé do Amado (que possui um dos melhor sorvetes que já provei, dá pra comer uns 10 fácil fácil), o campus novo da UFSJ que fica fora da cidade, que é muito bonito por sinal, além de ir a um morro (ou mirante) que tem a estátua de um Cristo. Lá dá para apreciar uma vista incrível da cidade.

A Julia nos explicou que se você olhar a cidade de lá de cima e focar a sua visão para as 4 principais igrejas, nota-se que formam uma cruz… não me recordo qual era a explicação para isso, mas fiquei surpreso em saber que as igrejas foram construídas nessa disposição propositalmente há muito tempo atrás.

Vista de São João Del Rei

Tudo isso regado a muita risada que só a convivência com uma pessoa como a Julia pode proporcionar, nem o orientador dela escapava das suas zoações.

No fim daquela tarde me despedi da Julia e até combinamos de acampar em algum momento, quando eu voltasse para Minas, ela deu a sugestão de conhecer Carrancas.

Carona para BH

Meu fim do dia também estava lá na rodoviária, para variar um pouco, não estava esperando o ônibus, mas sim a minha carona para BH.

Acho que fiquei tão viciado nas viagens de ônibus que esqueci da possibilidade de também usar o recurso das caronas. A Julinha e a Silvia que me deram o toque dessa possibilidade. Logo, encontrei uma carona no grupo de caronas entre BH e SJDR, no facebook, para o fim daquele dia.

Quem me deu carona foi o Vinicius, um brother que faz faculdade de medicina na UFSJ. Ele é um cara bem simpático e atencioso, curtia muito uma aventura, principalmente as que envolvem trilhas e natureza.

Ficamos conversando o percurso todo sobre viagens. Ele se interessou muito pelos meus planos e por como eu estava levando a vida. Foi uma troca de experiência legal e ele fez questão de me ajudar como podia, me deixando na porta do hostel em BH e também passando uma lista de coisas que precisava comprar para formar um kit de primeiros socorros.

Nesse momento, vi que não tinha feito uma compra muito correta de remédios para a viagem hahahaha.

Anotei a listinha e fiquei de comprar os itens mais pra frente…. Mal ele sabe que eu ainda não comprei. 😛

Enfim, chegamos em BH, ele me deixou no hostel e seguiu para a casa da sua namorada!

No próximo capítulo da minha aventura, vou falar como foi a minha passagem por BH. Enquanto isso, curte a página do blog no facebook para acompanhar os novos posts em primeira mão 🙂

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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