#31. Vivendo de hostel

Depois de percorrer o trajeto das dunas para chegar na vila de Jericoacoara, desci do carro, estava em frente a um depósito, o seu nome era “Vê Se tem” ou “V Se Tem”, não lembro. Ao lado da sua porta tem uma escada de madeira em formato de caracol, é o acesso para o andar de cima.

Era ali que ficava o Vida Backpacker Hostel. Subi as escadas e cheguei na recepção. Estava sem movimento algum, somente uma pessoa estava presente: um cara com um colete azul da PUC Campinas (aqueles que costumam ter em jogos universitários), sentado, atrás de uma mesa, mexendo em um computador.

Era o Felipe, outro viajante, também voluntariando no hostel, é apaixonado por fotografia. Ele cuidava da recepção e das reservas e do hostel no período da tarde. O nosso contato inicial foi bem formal, mal sabíamos que seríamos bons amigos em poucos dias.

Parede da recepção do hostel.

Procurando trabalho por Whatsapp

Aliás, a minha história com o Vida começou há alguns dias antes da minha chegada. Depois de ver que pelo Workaway não estava rolando muito encontrar um trabalho em Jeri, comecei a procurar pelo Facebook, e também pelo Whatsapp, mandando mensagem para os hostels de lá.

Quando estava em João Pessoa recebi algumas respostas negativas, dentre elas, desse hostel. Uma semana depois, estava em Pipa, a Mari, dona do hostel, entrou em contato comigo falando que surgiu uma oportunidade de trabalho, eu topei na hora. Fechamos o voluntariado na sexta ou no sábado, na segunda-feira já estava em Jeri.

Naquele dia, quando eu cheguei, logo perguntei por ela: “A Mariana está?” O Felipe me disse que estava dormindo, mas que estava encarregado de me acomodar. Ele foi muito gentil, sugeriu que eu relaxasse e tomasse um banho, comentou que sabia que a viagem desde Fortaleza era um tanto quanto puxada.

Me levou para o quarto misto com 9 camas, eram 3 treliches de madeira, muito bem feitos e bonitos. Peguei logo uma das camas do meio. Fiquei encantado com as cortinas que tinha em cada uma delas.

Quem já morou ou passou muito tempo em um hostel, sabe que qualquer coisa mínima para ajudar a melhorar a privacidade já é muita coisa.

O primeiro pôr do sol

Depois de tomar um banho para tirar o peso da viagem, cheguei na recepção e a Mari já estava por lá. Nos apresentamos brevemente, eu com toda aquela vergonha do primeiro contato também fui bem formal. Tive a impressão inicial dela ser bem séria, mas depois, com o tempo, percebi que ela também gosta de uma bagunça como eu 😛

A sua história de vida é mais uma que me chamaram a atenção ao longo do caminho. Ela, gaúcha, vivia com um chimarrão do seu lado, mesmo no calor do Ceará. Foi comissária de voo por muito tempo.

Cansou dessa vida e resolveu realizar um dos seus sonhos: abrir um hostel em algum paraíso, escolheu Jeri. Hoje, ela ganhou mais asas ainda e está viajando e voluntariando pela África, ajudando como pode a tornar a realidade mais feliz de alguns lugares que precisam de atenção.

Naquele momento, ela pediu para fazermos o treinamento no outro dia de manhã e, assim, começar efetivamente a trabalhar na quarta-feira. Depois de fecharmos isso, perguntei o que poderia fazer para aproveitar o fim da tarde, ganhei como presente a sugestão de ver o fim do dia na famosa duna do pôr do sol de Jeri.

Primeiro contato com a praia de Jeri 🙂

Desci para a praia pela rua principal, ao chegar, logo vi a duna do meu lado esquerdo, caminhei até lá. Ver o pôr do sol em Jeri realmente é um evento e tanto. Praticamente todos que estão na praia se deslocam para ver, fica todo mundo concentrado, como estivessem esperando uma banda antes de um show.

Ao ver esse movimento, de longe, eu imaginava um grande formigueiro. Subi, cheguei, sentei, vi o sol nos presentear com o espetáculo dele e aplaudi. Foi uma ótima mensagem de boas-vindas!

Duna do pôr do sol!
O primeiro pôr do sol

Depois disso, começa um movimento de toda a galera ir embora, conforme começa a escurecer, e algumas pessoas até aproveitam para vender algo para comer ou beber.

Voltei para o hostel, fiz um macarrão que tinha na mala, conheci as argentinas Lore e Katia, que também tinham acabado de chegar e seriam minhas colegas de quarto. Estava bem cansado, dormi mais cedo do que eu esperava.

Em cima da duna do pôr do sol.

Trabalhando no hostel

No outro dia, às 7 da manhã já estava de pé para receber o treinamento da Mari. Minhas responsabilidades eram fazer o café da manhã, e os checkouts dos hóspedes, cumprindo o turno da manhã: das 7 até às 11 e meia mais ou menos.

Com o tempo, percebi que, além disso, outras coisas podiam aparecer também, em uma manhã pode acontecer muita coisa em um hostel, algumas são até surpresas boas, outras grandes buchas que precisam ser resolvidas. fiquei feliz em quanto aprendi a me virar para lidar essas questões.

Naquela manhã, conheci também o Eugênio, funcionário do hostel que era responsável pela limpeza e também dava um suporte no café, comprando pão, picando as frutas, ajudando a arrumar a mesa e outras coisas.

Observei a Mari fazendo e anotei tudo para começar a fazer sozinho no outro dia:

  • ligava o computador e via o número de hóspedes;
  • informava o número de pães para o Eugênio comprar;
  • separava as frutas que deveriam ser cortadas;
  • fazia o café;
  • esquentava o leite;
  • separava o cuscuz, a margarina,o bolo e a goiabada;
  • cortava o queijo;
  • fazia os sucos;
  • colocava as bruschetas para assar;
  • Colocava tudo na mesa;
  • cada hóspede podia comer um ovo mexido cada, eu quem preparava (alguns diziam que eram os melhores da vida 🙂 ).

Depois que todo mundo comia, eu tirava a mesa, lavava as louças que sobravam. No meio disso tudo, rolavam alguns checkouts, controle do caixa, além dos hóspedes indo para os passeios e até algumas pessoas que chegavam para fazer checkin ou ver se tinha vaga para ficar naquele dia.

Muitas vezes eu acabava antes do horário, outras bem depois, principalmente, na alta temporada, quando o hostel estava totalmente cheio! A minha meta era conseguir terminar de lavar toda a louça! Depois disso, estava de folga!

Na primeira semana, a Mari me deu uma força, ajudando nos checkouts. Foi me soltando aos poucos, no fim do primeiro mês já estava tudo comigo praticamente. Ela já dormia tranquila até um pouco mais tarde.

Mesa do café da manhã.

Comecinho de Vida em Jeri

Como eu falei, trabalhava 4 horas e meia por dia, em 6 dias da semana e tinha 1 dia de folga que, geralmente, tirava na segunda-feira. O bom de fazer o horário da manhã é que tinha o resto do dia livre, eu brincava que tinha folga todos os dias.

Dependendo do dia eu dormia depois de trabalhar, principalmente se eu tinha ficado até tarde em alguma festa no dia anterior. Aliás, ir para as festas, que rolavam todos os dias, dependia de alguns fatores: meu humor, se tinha gente legal no hostel para ir junto, as música que iam tocar (eu adorava ir no forró), dentre outras coisas.

Mas no fim, eu quase não perdia 1 dia, ainda mais como benefício de pagar o preço de morador. Algumas vezes, o corpo pedia para me acalmar um pouco, quando a minha resistência abaixava. Então, eu aproveitava e descansava pela noite, as vezes isso durava só uns 2 dias ou até mesmo uma semana.

Antes de alguma festa.
Cami (hópede), Eu, Dudu e Felipe em alguma festa 🙂

Praticamente todo dia ia para a praia e via o pôr do sol. A minha praia favorita era a Malhada, que era mais tranquila e mais bonita, na minha opinião. Gostava de ir para pensar, meditar e aproveitar para saciar o calor nas águas daquele mar cristalino.

Praia principal tranquila
Praia da Malhada
Fim de tarde.

Tinha dias que eu usava o horário do pôr do sol para tomar banho, pois sabia que dificilmente tinha fila no banheiro do quarto esse horário.

Nesse início, o meu maior contato era com Mari, Felipe, Dudu e Manu. O Dudu trabalhou como voluntário no hostel há um tempinho e morava em Jeri há um tempo, naqueles dias estava trabalhando em uma pousada e morando com alguns amigos nossos.

A Manu era outra gaúcha que também estava a frente do hostel junto com a Mari, torcedora do Juventude de Caxias desde criancinha, não perdia um jogo! Fazia boa parte do trabalho de manutenção do hostel, eu brincava com ela, falando que precisava receber umas aulas antes de partir.

Pela noite, fazia lanches para vender, levando a cultura do Xis gaucho pra Jeri, era bom demais, eu comia pelo menos umas duas vezes por semana. No geral, Jeri recebe muito bem as pessoas quem têm a intenção de morar lá, dando o título de “morador” sem nenhuma burocracia, algo que quase todos abraçavam de coração.

Mensagens nas paredes do hostel!
Manu, Eu, Dudu e Mari – Uma das fotos oficiais do Vida Backpacker Hostel.

Vivendo de Hostel

Desde que eu coloquei o pé na estrada, trabalhar em um hostel era um dos meus objetivos. Uma experiência que queria viver, pois gostava muito de frequentar esse tipo de lugar. A experiência no Vida me ajudou a entender como esse universo funciona.

Aprendi todos os desafios e alegrias de estar do lado de “trás do balcão”, foi algo muito positivo que me fez pensar em abrir um hostel algum dia da vida. Principalmente quando os hóspedes eram pessoas incríveis, eu ficava mais animado com essa ideia, era muito gostoso reunir gente legal para trocar experiência.

Só tenho a agradecer ao Vida Backpacker Hostel por essa experiência, principalmente a Mari que confiou em mim, mesmo à distância e me presenteou com essa oportunidade que eu aproveitei muito e dei o melhor de mim!

Lembro que, depois, frequentando os hostels ao longo do caminho, começava a observar as brechas e as oportunidades que haviam e tentava trocar uma ideia com o dono para ajudar de alguma maneira, nem que seja só dando um pequeno conselho de alguém de fora.

Quem sabe, um dia, ainda volto a viver de hostel!

Agora, que você chegou até o fim, o que acha de curtir a página do blog no Facebook para acompanhar as novidades em primeira mão? 😉

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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