#22. Voltando para o litoral

Era sábado, depois de algumas poucas horas de viagem, desde a cidade de Penedo, estava de volta ao litoral do nosso país. Estava começando uma jornada de muitas descobertas pela parte litorânea do Alagoas. O calor era forte, pedi para o motorista da van me deixar no trevo da cidade de Marechal Deodoro.

Comecei a caminhar por uma avenida que me levaria até a orla da famosa praia do Francês. Depois de percorrer esse trecho entre o trevo e a praia, já estava quase que ensopado de tanto transpirar. Já tinha pesquisado e encontrado um único hostel por ali: o Hostel Ciganos.

Depois de ir para a direção errada do calçadão (a numeração das casas era confusa e não seguia uma ordem crescente ou decrescente), encontrei o albergue bem na ponta esquerda da orla da praia. Com aquele calor, eu só queria me instalar logo para tomar um banho de mar!

Uma brasileira, um uruguaio e a praia do francês

Fui muito bem recebido pela Mari e pelo Jorge, ela brasileira, ele uruguaio pareciam ser um casal feliz e, assim como o nome do hostel, também levavam uma vida cigana. Já moraram em alguns lugares do Brasil até se estabelecerem por ali, onde tocavam o hostel e um bar para atender as pessoas que frequentam a praia.

Tivemos boas conversas nos 2 dias em que fiquei por lá. A “rotina” era passar o dia todo na praia para depois voltar, tomar banho e comer. A noite voltava para a rua, procurando algum movimento e andar pela orla da praia.

Infelizmente, ou felizmente o fluxo de pessoas a noite pelo Francês estava bem baixo. Percebia claramente que as pessoas que frequentavam a praia nos períodos da manhã e da tarde estavam se hospedando em Maceió, então, acabavam passavam o dia todo por lá e a noite voltavam para a capital.

De volta ao litoral

Tinha a sensação de estar em uma praia que frequentei por boa parte da minha infância e adolescência: o Guarujá, que fica no litoral sul de São Paulo. Talvez seja pelo número de pessoas, ou então, pela estrutura ser muito semelhante: com muitos quiosques, guarda-sóis e ambulantes vendendo milho e queijo coalho, dentre outros elementos que são característicos de uma praia paulista.

Apesar disso, o mar do francês tem uma água com um tom bem mais claro e puxado para o azul. Aproveitei e matei a saudade dele logo de cara, dando aquele mergulho para aliviar a pele que estava sofrendo com o dia quente. Depois, comecei a caminhar pela areia, sentindo o sol, o vento e toda aquela brisa que só uma caminhada pela praia pode oferecer.

Praia do Francês

 

Sentei em diversos pontos para descansar, ouvir música e depois tomar um mais um banho de mar quando o calor apertava. Era muito bom estar de volta ao litoral, além de notar que estava cada vez mais subindo o mapa do Brasil, sentia conquistando pedaço por pedaço dessas terras nunca visitadas por mim.

Naquele primeiro dia, fiquei até começar a escurecer e toda a agitação dar espaço para a tranquilidade, eram 2 opostos em um mesmo dia: a muvuca durante o dia e a paz durante a noite.

Caminhando pela praia…

Uma pequena carona até a praia do Gunga

Lembro que depois de acalmar a euforia interna de estar de volta a praia, me bateu a dúvida sobre que fazer no domingo, se ficaria ali pelo francês mesmo ou se iria para uma praia do lado. Viajar estava fora de cogitação, minha memória estava bem fresca sobre o quão difícil foi chegar em Piranhas partindo de Aracaju em um fim de semana, iria esperar até segunda para pegar a estrada de novo.

Eu sabia que a praia do Gunga estava ali por perto e resolvi arriscar ir. Depois do café da manhã daquele domingo, caminhei até perto do trevo de Marechal Deodoro novamente e me informei onde poderia pegar uma van para a praia. Fui esperar em um ponto perto de um posto.

A van demorou muito pra chegar, era domingo né. Acho que fiquei mais de uma hora esperando. Nessa espera, aproveitei e fiz amizade com um senhor que estava esperando o transporte também para voltar para a sua cidade, estava em Marechal Deodoro para ajudar um parente e estava ansioso para voltar para casa.

A conversa foi boa e me fez refletir muito sobre a vida e os privilégios que eu já tive e ainda tenho. Esse senhor era muito humilde, mal conhecia as praias da região que morava, eu, em meu estado curioso, percebia isso a cada pergunta que eu fazia sobre o litoral alagoano.

Notei que ele nem pensava na oportunidade de poder se dar o luxo de explorar um pouco mais as praias que estavam perto da sua casa pela correria do dia a dia, pela sua situação financeira e de vida. Realmente as condições de vida não é a mesma para todos.

Naquele momento, me veio uma “obrigação” de ser grato pelas oportunidades que já tive, além das que iriam aparecer nos próximos dias. Fiquei pensando muito nisso, junto com um pouco de tristeza em aceitar que ainda vivemos em um país muito desigual, grande parte da nossa população tem uma vida difícil. Mas isso não quer dizer que não tenham uma vida feliz, cada um encontra a felicidade como pode e a sua maneira.

Enfim, a van chegou! 20, 30 minutos de estrada e já estava ali no ponto do mirante onde se pode ver a praia do Gunga, desci, tomei uma água de coco no restaurante que fica ao lado e já pude observar a paisagem da praia. A visão daquele “mar” de coqueiros, que depois dá espaço ao mar de água salgada, é muito linda.

Vista do mirante do Gunga

Comecei a descer por uma estrada de terra até que um carro parou e me deu carona. Era um brother que trabalhava em um dos quiosques da faixa de areia da praia do Gunda. O carro estava com algum problema, senti que estava descendo só no freio de mão levantado… foi engraçado, valeu a carona!

Agradeci e já caminhei em direção a praia, que estava lotadíssima. Procurei um canto que estava um pouco mais tranquilo, estendi a minha canga e fiquei observando o mar, entrei na água e passei a tarde toda pensando, ouvindo música e tomando sol.

A praia do Gunga é linda, digna de um belo cartão postal. Obviamente, por ser domingo, o turismo em excesso me fez enjoar rápido daquele lugar, aquele dia já foi suficiente. Talvez seria legal voltar em um dia mais calmo…

Praia do Gunga
Canto tranquilo da praia do Gunga

Rumo a São Miguel

Na segunda-feira, depois de tomar café da manhã, me despedir da Mari e do Jorge, peguei minha mochila e voltei ao trevo de Marechal Deodoro. Meu destino era a capital do estado: Maceió.

Busquei informação sobre onde pegar um transporte e esperei na própria rotatória. Do outro lado da rua eu observava um senhorzinho que vendia água e salgados em um carrinho de ambulante.

Depois de uns 30 minutos de espera, notei que ele deixou o seu posto, sem deixar ninguém cuidando, atravessou a rua e me perguntou se eu estava perdido, se sabia o ônibus que tinha que pegar, se eu precisava de ajuda. Fiquei muito feliz com essa preocupação e o esforço que fez apenas para conferir se eu não estava perdido.

A percepção do tratamento do povo nordestino continuava a mesma: Era tão calorosa quanto o sol que estava rachando naquele dia. Conversamos um pouco, porque ele precisava voltar para as suas vendas, e fiquei com um sorriso no rosto estampado o resto do dia por ter recebido essa gentileza gratuitamente.

Logo depois o transporte chegou, 30 minutos depois desembarquei na rodoviária de Maceió. A minha vontade não era ficar por lá. Naquele momento da viagem estava correndo de cidades mais “correria”, por mais irônico que seja essa frase.

Além disso, as ameaças de chuvas, tempestades e todo o transtorno que a capital estava passando me fez pensar que talvez não era o melhor momento para visitas e decidir ir logo para um destino muito aguardado: São Miguel dos Milagres.

Antes de partir, um amigo me apresentou essa praia como uma das mais bonita do litoral do nordeste. Apesar disso, pouco conhecida, visto que todo o turismo da região se acumulava em sua maioria nas praias de Maragogi. São lugares assim que eu gosto de conhecer!

Já em Maceió, esperei mais uma vez por outra van. Depois de umas 3 horas de viagem, já estava na tranquila e pacata cidade de São Miguel dos Milagres.

O que acha agora de saber um pouco sobre alguns dos meus aprendizados viajando sozinho?

 

Matheus Boscariol

27 anos, mochileiro, dando um rolê pelo Brasil.

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